Algas são beneficiadas com secador solar

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Tradição no litoral de Trairí, o cultivo de algas a partir de iniciativas responsáveis está mudando o perfil local

O cultivo de algas na praia de Flecheiras, litoral de Trairí, existe desde os anos 1970, mas só agora vem ganhando novo perfil. Com caráter autosustentável e priorizando a preservação do ambiente marinho, um secador solar está sendo usado para retirar a umidade das plantas. Porém, o projeto SOS Algas vai além disso. Com o novo tratamento dado ao material, a qualidade aumentou e o preço do quilo da alga subiu de R$ 0,50 para R$ 8,00 ou até R$ 30,00, no caso da alga usada para alimentação.

Isso mostra o desenvolvimento da iniciativa. Prova disso é que os envolvidos estão diversificando o negócio e fazendo novos planos. No local já existem uma barraca de praia que vende pratos à base de alga e uma lojinha que comercializa cosméticos (xampu, condicionador, sabonete, esfoliante e creme para celulite) com a mesma matéria-prima. Os próximos passos são criar uma cooperativa que intensifique as vendas e uma espécie de “berçário de algas” à beira mar, o que pode tornar o Ceará um pólo exportador do produto.

Secadores do tipo já são utilizados em outros países, como na Índia. Na América Latina, o Chile é o maior exportador do setor. Mas aqui o equipamento precisou passar por adaptações, como explica o diretor do Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Energias Renováveis (Ider), Jörgdieter Anhalt. “Não se trata apenas de instalar a tecnologia. Damos apoio técnico e queremos que eles administrem sozinhos, em uma política autosustentável. É isso que está acontecendo”, frisa. As atividades são realizadas com suporte do Ider e apoio do Instituto Terramar e da Associação dos Produtores de Algas de Fleicheiras e Guajirú.

Reconhecimento

Neste ano, o projeto SOS Algas foi um dos 12 finalistas de uma competição internacional promovida pela Shell, Newsweek e BBC. Para chegar a essa colocação, o projeto concorreu com outras 300 iniciativas sociais de todos os continentes.

Por conta da posição do projeto na competição, a BBC de Londres foi a Flecheiras fazer um documentário sobre o trabalho que substitui o extrativismo das algas.

No filme, pescadores e familiares falam sobre a mudança em suas vidas e na comunidade, a partir da mudança no cultivo e secagem das algas. Técnicos e criadores da iniciativa também deram depoimentos e comemoraram o crescimento do trabalho. Na premiação, concorreram projetos da Indonésia, Nepal, Vietnã, Haiti, Peru, Afeganistão, Uganda, México e Colômbia.

OPINIÃO DO ESPECIALISTA

ALBERT GRADVOHL
profgradvohl@hotmail.com

Projeto deve manter-se sustentável

São é de hoje que temos defendido a inserção do trabalho comunitário junto às potenciais demandas de mercado. Diferentemente, a forma terapêutica com que muitos projetos têm se apresentado no Brasil pouco está contribuindo com os seus respectivos propósitos de gerar resultados sociais efetivos. Defendemos a geração de renda que possibilite sustentar dignamente uma família. Atualmente, poucos são os projetos que garantem renda para os pobres. Por enquanto, quem mais atende os anseios dessa classe não privilegiada é a velha economia informal. Apesar de contraditória, ela ainda tem sido mais eficiente em termos de sustentabilidade. Portanto, para resolver o problema da renda familiar de pessoas carentes é preciso responsabilidade sócio-econômica que aloque racionalmente esse nicho de mão-de-obra dentro da cadeia mercadológica. Isso deve acontecer desde o início de um processo de beneficiamento da matéria prima de qualquer produto até o fim de sua logística de distribuição. A geração de renda é uma função sistêmica, diretamente proporcional a um processo integrado de planejamento e gestão que exige investimentos e, sobretudo, capital de giro. Nenhum negócio deve funcionar à base de finalidades caritativas, sob pena de pecarmos por não alcançar o resultado social objetivado. Tal reflexão não tem a intenção de invalidar ações assistenciais que, certamente, amenizam nossas desigualdades. Porém, essas mesmas ações devem ser encaradas apenas como emergenciais. Precisamos extrapolar o sentido tópico da imagem comunitária , cujo ícone é focado na penúria do “coitadinho”. Afinal, o sucesso de um projeto está na sua correlação entre a integridade social e o desempenho.

* Professor de Gestão Econômica Ambiental da Unifor

PRESERVAÇÃO

Ambiente marinho está mais saudável e diversificado

O mar da Praia de Flecheiras não é mais o mesmo desde que as algas passaram a ser cultivadas de forma consciente. Lagostas e peixes que antes não chegavam perto da costa agora estão aparecendo graças ao novo processo produtivo. Conforme adianta o responsável técnico pelo projeto, Dárlio Inácio Alves Teixeira, pequenas lagostas — em estágio juvenil — estão aparecendo perto da costa devido ao ambiente mais saudável. “Se não fosse a fixação do plâncton à deriva, teoricamente elas iriam se perder em local aberto”, explica, acrescentando que as algas são a base da vida marinha.

Peixes como o sirigado, que antes não chegavam perto da praia, também já aparecem porque as algas servem de abrigo e atrativo para micro e macro-organismos que alimentam os animais.

Na opinião de Teixeira, esses fenômenos acontecem porque, no projeto, há uma interação entre famílias e meio. “O projeto considera a pesca tradicional e a relação do pescador com essa e outras atividades. Sem isso a questão ambiental não atinge êxito”, frisa.

Planos

A alga cultivada no projeto é a ‘Gracilaria birdiae’, mas outros gêneros estão sendo testados. Segundo o bioquímico, a idéia mais ousada está sendo estudada com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). É a reprodução das espécies através de esporos (pequenas sementes).

“Isso pode colocar o Nordeste como exportador de algas a partir do cultivo”, almeja, completando que quem cumpre esse papel na América Latina é o Chile.

A idéia é criar uma espécie de laboratório no mar ou um “berçário de algas”. “As espécies serão reproduzidas em tanque e depois os talos de algas seriam transferidos para o mar, onde cresceriam a partir do replantio dos melhores”.

ENGAJAMENTO

Comida e cosmético feitos à base de alga


As perspectivas com o cultivo e beneficiamento de algas em Flecheiras são as melhores. Um exemplo é a família do produtor e pescador Pedro Edvan Santos Viana. Ele, a esposa e os filhos não só estão engajados no projeto como já ampliaram a iniciativa com a comercialização do produto e de seus derivados.

Na sede da associação uma barraca de praia funciona nos finais de semana, vendendo principalmente para turistas pratos à base de algas como salada, moqueca, vinagrete, doces e até pizza. À frente da cozinha está Marta Helena, esposa de Edvan.

“Eu tenho seis filhos que trabalham com isso”, comemora Edvan. Uma é Juliana, que aprendeu a fazer xampu, condicionador, sabonete, esfoliante e creme para celulite em curso ministrado por professor do curso de Farmácia da Universidade de Fortaleza (Unifor). “Ela tem o próprio negócio e ainda enfeita as embalagens com artesanato de algas”.

Trabalho

As algas são alternativa para a geração de emprego, renda e turismo na região. Uma família pode ganhar de R$ 300 a R$ 380, por mês, com esse incremento.

Edvan acredita que o trabalho associativista tem resultados positivos não só no aspecto financeiro. “A mulher passou a ser mais reconhecida, em toda feira de ciências da escola a alga está em primeiro lugar, os universitários estão sempre aqui e tem gente da comunidade participando de feiras dentro do Ceará e em outros estados”, cita.

ALGAS

BENEFICIAMENTO

1
CULTIVO Ao invés de serem recolhidas na beira da praia, com areia, as algas são cultivadas no mar, em cordas suspensas com garrafas pet

2 LAVAGEM As algas são lavadas em água bombeada a partir da energia solar. Por não serem mais coletadas na areia, o produto é mais limpo

3 SECAGEM O processo é artesanal. As algas ficam expostas em estufas e em secadores suspensos feitos pela comunidade

Marta Bruno
Repórter


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