Vírus avança nos EUA; saldo de mortes supera o de ataque terrorista

Os Estados Unidos, novo epicentro da pandemia da Covid-19, lembraram um trauma histórico ao ver o balanço de mortes pelo novo coronavírus ultrapassar os 3 mil óbitos, remetendo ao total de vítimas do 11 de Setembro

A pandemia do novo coronavírus tirou a vida de mais de 40 mil pessoas em todo o mundo e infectou mais de 800 mil, causando mais mortes nos EUA do que na China, segundo balanço de terça-feira, enquanto diversos governos reforçavam as medidas de confinamento.

Nos EUA, o saldo total de mortos (3.433) pela Covid-19 superou o número de vítimas dos ataques terroristas do 11 de Setembro de 2001, que teve cerca de 3.000 óbitos.

Em Nova York, o governo está instalando unidades provisórias de atendimento em um centro de convenções e no Central Park. A epidemia também foi declarada a bordo do porta-aviões americano Theodore Roosevelt, atracado na Ilha de Guam, no qual o comandante pediu autorização para desembarcar e confinar toda a sua tripulação.

"Não estamos em guerra. Os marinheiros não precisam morrer", escreveu o capitão do navio, Brett Crozier.

A falta de leitos de UTI e equipamentos de proteção para os exaustos profissionais da saúde é grave em todo o planeta, incluindo nos países mais ricos. "Se acontece um fluxo grande e você tem um número limitado de respiradores, não consegue ventilar a todos. Então, você tem que começar a escolher", lamentou em Nova York Shamit Patel, médico de 46 anos, que, como colegas de outros países, pode ter que ser obrigado a decidir quem irá salvar.

A crise da Covid-19 também serve à disputa política em ano de eleição presidencial nos EUA. O ex-presidente americano Barack Obama fez, ontem, um ataque velado ao seu sucessor, Donald Trump, denunciando aqueles que "rechaçaram as advertências" sobre uma pandemia do novo coronavírus e repreendendo os que ignoram as consequências das mudanças climáticas. "Todos pudemos ver, de forma terrível, as consequências dos que rechaçaram as advertências de uma pandemia", escreveu Obama na sua conta no Twitter.

Diante da pandemia, a ONU e o papa Francisco pedem cooperação, trégua e solidariedade. Ontem, países europeus anunciaram que entregaram material médico ao Irã, país com quase 3.000 mortes provocadas pela doença, usando um mecanismo que evita as sanções dos EUA.

Mais de 3,6 bilhões de pessoas, 46,5% da população do planeta, estão confinadas, por obrigação ou por decisão própria. A maioria deve cumprir um regime de confinamento obrigatório, como na Espanha, Índia, Reino Unido, França, Itália ou muitos estados dos EUA. Os demais estão submetidos a toques de recolher, vivem em cidades em quarentena ou são aconselhados a permanecer confinados, mas sem medidas coercitivas.

A Rússia ampliou as suas medidas de confinamento para a maioria das suas regiões, e anunciou fortes multas para os que não as respeitarem.

América Latina

Mas conseguir o respeito ao confinamento é difícil em vários países, em especial na África e América Latina, onde milhões de pessoas vivem em uma economia em crise e em locais superpopulosos, às vezes com escassas condições de higiene. Na América Latina, com 348 mortes e quase 15.000 infectados, vários países anunciaram a prorrogação das medidas, em uma tentativa de evitar o colapso de seus sistemas de saúde. No México, que registra mais de mil infectados e 28 mortos, foi declarada emergência sanitária, enquanto o Panamá endureceu o confinamento.

Neste contexto, o panorama econômico é sombrio. Os ministros das Finanças e presidentes dos bancos centrais dos países do G20 discutem formas de ajudar os países pobres com as suas dívidas e prestar assistência aos mercados emergentes como forma de limitar o impacto econômico, pós a promessa na semana passada de uma "frente unida" na luta contra a pandemia, assim como da injeção de cinco trilhões de dólares na economia global para evitar os prognósticos de uma profunda recessão.

A crise causou diversas divisões na União Europeia (UE), onde nove países, incluindo Espanha, França e Itália, defendem a criação de um instrumento de dívida comum emitida por uma instituição europeia, uma espécie de "coronabônus", uma ideia que enfrenta a oposição firme da Alemanha e Holanda.


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