Rei emérito Juan Carlos I, suspeito de corrupção, deixará a Espanha

Seis anos após sua abdicação, a justiça investiga a origem de 100 milhões de dólares recebidos por Juan Carlos em uma conta na Suíça em 2008

fotografia do rei Juan Carlos I de Espanha
Legenda: Juan Carlos I, rei emérito da Espanha
Foto: AFP

O rei emérito Juan Carlos I, alvo de uma investigação do Supremo Tribunal por corrupção, anunciou em uma carta ao filho Felipe V sua decisão de "se mudar" para fora da Espanha. 

"Vossa Majestade, querido Felipe, com a mesma ânsia de servir a Espanha que inspirou meu reinado e diante da repercussão pública que certos eventos passados em minha vida privada estão gerando (...) Comunico a você minha ponderada decisão de sair nesse momento da Espanha", escreveu o soberano emérito citado em comunicado da Casa Real. 

Seis anos após sua abdicação, o rei emérito está em uma situação muito difícil. 

A justiça, na Suíça e na Espanha, investiga a origem de 100 milhões de dólares que Juan Carlos teria secretamente recebido da Arábia Saudita em uma conta na Suíça em 2008.

O Supremo Tribunal espanhol anunciou em junho a abertura da investigação para determinar sua eventual responsabilidade em um caso iniciado em 2018, quando em gravações atribuídas à sua ex-amante Corinna Larsen, ela assegurava que Juan Carlos teria cobrado uma comissão pela adjudicação de um contrato para a construção da linha ferroviária de alta velocidade na Arábia Saudita.

O caso, entretanto, só pôde ser investigado a partir do momento de sua abdicação, porque até então ele tinha imunidade como chefe de Estado.


Agradecimento
No comunicado enviado nesta segunda-feira, a Casa Real assegura que Felipe VI "deseja enfatizar a importância histórica do reinado de seu pai, como um legado e trabalho político e institucional de serviço à Espanha e à democracia; e ao mesmo tempo ele deseja reafirmar os princípios e valores nos quais se baseia, dentro da estrutura de nossa Constituição e do resto do sistema jurídico".

O rei Felipe transmitiu a seu pai "seu sincero respeito e gratidão por sua decisão", segundo o comunicado da Casa Real. 

A imprensa ecoou as investigações da procuradoria de Genebra e as declarações de um advogado suíço, Dante Canonica, que diz ter sido encarregado de "criar uma estrutura" para ocultar os fundos enviados por Juan Carlos. 

Até o próprio governo de Pedro Sánchez mudou de tom no início de julho, após andar na ponta dos pés por meses, enquanto se acumulavam informações sobre o homem ocupou o trono espanhol por quase 39 anos e liderou a transição da ditadura de Franco para a democracia. 

"Estamos testemunhando, toda a população espanhola, informações perturbadoras que também nos perturbam a todos", disse Sánchez na época. 

Segundo outras informações, a alemã Corinna Larsen teria dito ao Ministério Público de Genebra que Juan Carlos transferiu cerca de 65 milhões de euros para ela "por gratidão e amor" e não para esconder a quantia. 

A imagem pessoal de Juan Carlos de Borbón foi muito abalada por essas revelações, às quais se acrescentam outros escândalos antes de sua abdicação, como quando ele quebrou o quadril em uma caçada no Botswana em 2012 durante um safári de luxo pago por um empresário saudita. Ele estava acompanhado de Larsen, em meio à crise econômica na Espanha. Após o episódio polêmico, houve o escândalo de corrupção que levou seu genro Iñaki Urdangarin à prisão.

Com sua reputação prejudicada, Juan Carlos cedeu a coroa ao filho em 2014, antes de se aposentar da vida pública em 2019.

No entanto, as suspeitas sobre sua fortuna cresceram nos últimos anos, decorrentes de seus laços com as monarquias do Golfo. 

Antes das novas revelações deste ano, que até o indicaram como beneficiário da fundação panamenha que na Suíça recebia dinheiro da Arábia Saudita, Felipe VI procurou se distanciar de seu antecessor e anunciou em março que estava renunciando à herança de seu pai e retirou sua tarefa anual de cerca de 200.000 euros.

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