Pequim ameaça manifestantes após derrota em Hong Kong

Dos 452 assentos à disposição, os chamados pan-democratas ganharam 347, independentes usualmente pró-democracia, 45, e os alinhados a Pequim, 60

Um dia após a esmagadora vitória de candidatos pró-democracia em eleições locais em Hong Kong, o governo em Pequim divulgou uma ameaça contra os manifestantes que tomam as ruas da região há quase seis meses.

"Não importa o quanto a situação em Hong Kong mude, é bastante claro que ela é parte do território chinês. Qualquer tentativa de minar sua estabilidade e prosperidade não vai ser bem-sucedida", disse o chanceler chinês, Wang Yi, em um evento em Tóquio.

O tom foi uma reação ante o tamanho da derrota sofrida pelos candidatos pró-Pequim na eleição para os 18 conselhos locais da antiga colônia britânica, devolvida à ditadura comunista chinesa em 1997 sob a condição de que permaneceria com um sistema político liberal por 50 anos.

Em apenas um conselho os pró-China venceram. Dos 452 assentos à disposição, os chamados pan-democratas ganharam 347, independentes usualmente pró-democracia, 45, e os alinhados a Pequim, 60.

Nas ruas centrais da ilha de Hong Kong, uma das partes do território, havia pessoas celebrando a vitória mesmo na noite da segunda (25), quando a Folha de S.Paulo chegou à região. "É incrível, agora vamos ganhar o governo", dizia um jovem bastante bêbado que se identificou como Lee.

A pretensão dele não é de simples solução, e é parte do dilema que o governo de Xi Jinping tem à mão. Os conselhos locais são instâncias que lidam com questões mais comezinhas do dia a dia. A vitória oposicionista é largamente simbólica, em especial pelo comparecimento recorde de 2,94 milhões de eleitores, 71,2% dos aptos a votar.

Desde meados do ano, milhares de honcongueses foram às ruas para protestar contra uma lei que facilitava a extradição de acusados para a Justiça da China continental -que não tem o grau de independência do Judiciário de Hong Kong.

O governo da executiva-chefe Carrie Lam jogou a proposta fora, mas a situação escalou, degenerando em violência. Duas pessoas já morreram e quase 5.000 foram presas. Um grupo de estudantes ainda está cercado pela polícia na Universidade Politécnica da cidade.

Ao longo do fim de semana eleitoral, contudo, a tensão arrefeceu. Candidatos pediram para a resposta ser dada nas urnas. No região de Sheung Wan, que na semana passada registrou vários conflitos, policiais em grupos apenas observavam o movimento.

Curiosamente, alguns deles usavam máscaras negras ao estilo das amarelas que protegem as identidades policiais na série de TV "Watchmen" -justamente quando o governo de Lam tentou, sem sucesso, proibir o uso de máscaras por manifestantes. Houve marchas de apoio aos estudantes da Politécnica na área de Kowloon, mas sem confrontos.

Se o poder dos conselheiros locais é limitado, no ano que vem haverá eleição para Conselho Legislativo, o Congresso local. O órgão tem uma composição intrincada, com metade dos seus 70 membros eleita por indicação de guildas específicas de negócios e indústria. Hoje, os pró-democracia são apenas 24 dos deputados.
Se a tendência oposicionista se mantiver, será um problema para Lam, que encabeça o Conselho Executivo e foi escolhida em 2017 por um colegiado de 1.200 pessoas muito sob a influência de Pequim. Esse é o poder real de Hong Kong, mas que pode encontrar barreiras num Legislativo hostil.
Antes do pleito do domingo (24), ela havia dito que uma "maioria silenciosa" seria contra os protestos na região, ao justificar a brutal repressão policial aos atos. O resultado a fez aceitar que iria "ouvir humildemente" o eleitorado, seja lá o que isso signifique na prática.
Sem um gesto do governo alinhado a Pequim e com ameaças vindo do continente, o risco é o da volta de uma espiral de violência. Solução fácil não há.
A China não pode prescindir da região administrativa especial, que serve como seu principal entreposto financeiro para operações bancárias, mas se a repressão for muito dura, essa mesma posição ficará sob ameaça.
Mas dar a Lee e a outros jovens uma vitória final parece inaceitável, pois aí Pequim arrisca ver outras regiões com forte autonomia buscando suas agendas próprias.

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