Pentágono: Militares americanos jogaram corpo de líder do Estado Islâmico no mar

Líder Abu Bakr al-Bagdadi foi eliminado no domingo (27) por um ataque dos Estados Unidos na Síria

Legenda: Abu Bakr al-Baghdadi, líder do grupo Estado Islâmico (EI), teve seu corpo jogado ao mar
Foto: Foto: AFP

Nada parecia predestinar Abu Bakr al-Baghdadi, líder do grupo Estado Islâmico (EI), cuja morte os Estados Unidos anunciaram no domingo, assumiu a liderança da organização jihadista que impôs terror a um enorme território, entre o Iraque e a Síria. Nesta segunda-feira, fontes do Pentágono informaram que o corpo de Abu foi jogado ao mar pelos militares americanos, após ele ter cometido suicídio durante uma operação no fim de semana em seu esconderijo na Síria.

Não foram dados detalhes sobre onde e quando o corpo foi lançado ao mar, mas foi feita uma comparação com o destino dado ao corpo do então líder da rede Al-Qaeda, Ossama bin Laden, após ter sido morto em 2011 em uma operação das forças especiais americanas.

Os restos de Baghdadi "foram tratados de forma apropriada", disseo general Mark Milley, chefe do estado-maior conjunto.

Sofía Amara, autora da obra "Bagdadi, califa do terror", explica como ele conseguiu superar muitas limitações pessoais para liderar esse "califado" por quase cinco anos, até a queda de seu último reduto este ano.

Que tipo de líder era Baghdadi?

"Todos aqueles que o conheceram dizem que ele não tinha carisma, que era alguém muito discreto, pelo menos no começo. Depois se deixou inflamar pelo poder que lhe deu seu status de califa, à frente de um Estado rico e ultraviolento, a ponto de realizar ataques sangrentos na Europa".

"Quando o vemos em seu primeiro vídeo, em 2014, no qual se faz chamar califa, vemos um homem que desce com dificuldade as escadas do minbar (torre) da mesquita Al-Nur em Mosul, Iraque. Não se parece em nada com um homem que inspira terror. Em vez disso, parece com um ímã do subúrbio", acrescenta. 

"Desde sua infância tinha problemas para se expressar, a tal ponto que treinava por horas na frente de um espelho para pronunciar algumas frases seguidas".

"Ele queria ser advogado, mas não tinha qualificações suficientes. Também não conseguiu ser soldado porque era míope", explica.

"Sua ex-esposa me disse que ele era alguém muito paciente, com mentalidade de professor", acrescenta.

"Uma refém yazidi que esteve a seu serviço contou que, no meio de bombardeios da coalizão (internacional), ele a chamou junto com outras garotas. Fez com elas o lavassem e as três horas da manhã recitasse o Alcorão. Isso diz muito sobre seu personagem, que parecia realmente patético".

"Sempre falava em voz baixa (...) parecia não ter autoridade para conferir seu título de califado".

Como conseguiu prevalecer?

"Não tinha carisma, mas conseguiu superar sua timidez graças ao dinheiro e seu poder sobre os homens sob seu comando, até 50.000 ou 60.000 combatentes", explica.

"Consciente de que não tinha o currículo certo – não lutou no Afeganistão, nem no Paquistão, nunca realmente usou armas, era apenas um ímã - confiou em seu conhecimento da religião para aliviar sua falta de legitimidade militar. Ele se gabava por ser doutor em teologia", acrescentou.

"Nascido no Iraque, também sabia como se conectar com membros do partido Baaz (socialista pan-árabe) e capitalizar os eventos na Síria para abrir uma ponte entre os dois países e criar um califado".

"Ele traçou uma jornada surpreendente, enquanto conseguiu inscrever esse projeto de califado na geografia, o qual nem mesmo Osama bin Laden havia alcançado, e isso sem ser um dos grandes líderes da Jihad ou da resistência à ocupação americana no Iraque em 2003", afirmou Amara.

O que terá marcado o jihadismo?

"Bagdadi queria redobrar o brasão de armas do grupo, que estava morto, mediante operações sangrentas, as quais perpetraram. Pouco a pouco, conseguiu se colocar à frente da jihad mundial e foi aí que se revelou muito, muito forte", continua.

"Seu principal mérito foi perceber que era absolutamente necessário obter a colaboração dos homens ao redor de Sadam Hussein (ex-presidente iraquiano deposto e assassinado), e foi precisamente graças a eles que conseguiu avançar seu projeto".

"O desaparecimento de Bagdadi é, obviamente, muito importante do ponto de vista simbólico. Foi um golpe para a organização, mas não fatal", prosseguiu.

"O Daesh (sigla árabe do EI) é uma ideologia e não pessoas. O pensamento, a ideologia de Bagdadi continuam sendo uma opção para defender a população na Síria e sobretudo no Iraque, já que as causas que deram origem a esse monstro ainda estão lá, e o desaparecimento de Bagdadi não mudará nada."

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