Para sociólogo, protestos no Líbano lembram clima da Primavera Árabe

Especialista em política internacional, Lejeune Mirhan se mostra cético com o futuro do Líbano após as explosões

Legenda: Após a tragédia das explosões no porto de Beirute, as ruas foram tomadas por protestos violentos exigindo mudanças políticas no Líbano
Foto: AFP

O primeiro-ministro do Líbano, Hassan Diab, anunciou sua renúncia, na última segunda-feira, ao cargo em discurso transmitido em rede nacional. Em meio aos protestos e consequências da explosão de um depósito de 2.750 toneladas de nitrato de amônio na terça-feira passada, cinco ministros e 10 dos 128 deputados já renunciaram. Em entrevista ao Sistema Verdes Mares, o sociólogo e escritor Lejeune Mirhan pontua que não vê, nesses protestos, alternativas melhores para o país, que enfrenta uma das maiores crises econômicas de sua história. 

"Eu não vejo nesses protestos o sentido de construir para o Líbano uma alternativa mais avançada do que este governo pôde ser. Esses protestos me lembram a chamada Primavera Árabe que, para os árabes, foi um inverno", afirma, em referência à série de manifestações que derrubaram governos autoritários no norte da África e no Oriente Médio, a partir de dezembro de 2010. 

Esse é o segundo primeiro-ministro que renuncia pelos movimentos. Em outubro do ano passado, Saad Hariri, então chefe do cargo, também renunciou. Agora, os manifestantes acreditam que as explosões no porto de Beirute é fruto da irresponsabilidade do governo.

Lembrando as recentes ameaças de Israel ao Líbano, o escritor não descarta a possibilidade de a causa da explosão ser um míssil, no entanto, teme essa responsabilidade. "Israel vai ter que pagar o preço de 5 mil feridos, 300 mil desabrigados e quase 200 mortos. Vamos torcer para que isso não aconteça, se acontecer, vai ficar insustentável a situação política na região".

Lejeune lembra que o governo libanês atual não é alinhado aos Estados Unidos e acredita que esses protestos tenham influência do conluio entre o vizinho Israel e o país norte-americano. "Não tenho a menor dúvida que esses movimentos não são necessariamente para trazer o bem ao povo libanês. O que está em jogo ali é uma peça como se fosse a rainha do xadrez", diz.

O atual governo libanês tem um sistema político confessional, onde o poder é segmentado por cotas para as principais religiões. "Esse modelo faliu. Eles não dividem só o parlamento, mas os cargos do governo no primeiro, segundo e terceiro escalão", destaca Mirhan. 

Crise econômica

Imerso na crise econômica, o Líbano acumula hoje a terceira mais alta dívida pública do mundo, e um déficit fiscal avaliado em 11,5% do PIB do país, segundo o Banco Mundial. 

Na perspectiva do sociólogo, a saída para a crise política e econômica que o país ultrapassa, é um novo governo de união nacional, como sugeriu o presidente da França, Emmanuel Macron, em sua visita ao Líbano na última semana.

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