Governo provisório da Bolívia começa sob protestos nas ruas

Senadora de direita Janine Añez assume a presidência interina, preenchendo o vácuo de poder deixado pela renúncia de Evo

Legenda: Proclamação de Jeanine Añez como presidente interina fez Evo Morales falar em confirmação do "golpe" contra ele, um ato fora da legalidade
Foto: Foto: AFP

Violentos confrontos foram registrados, nesta quarta-feira, no centro de La Paz entre manifestantes leais ao ex-presidente Evo Morales e efetivos policiais e militares, que levaram às ruas pelo menos um blindado, no primeiro dia do Governo provisório da Bolívia. Os manifestantes, muitos vindos de El Alto, cidade vizinha habitada sobretudo por migrantes, exigem a restituição de Morales ao poder e o respeito aos seus símbolos, como a "whipala", bandeira multicolorida que representa as nacionalidades indígenas e que foi desrespeitada por policiais nos últimos dias.

Policiais atiraram bombas de gás lacrimogêneo na direção dos manifestantes, que se concentraram na Praça de San Francisco, cenário de históricos eventos políticos, enquanto um blindado percorria o perímetro, sem efetuar disparos, aparentemente com fins dissuasivos. Os confrontos foram registrados a três quadras da Praça Murillo, onde no mesmo instante a presidente interina, Janine Añez, empossava seu novo comando das Forças Armadas e pedia para os militares pacificarem o país.

O "Estado precisa de nós mais do que nunca para manter a paz", reafirmou o general Carlos Orellana, novo comandante das três Armas (Exército, Marinha e Aeronáutica). As manifestações se concentraram em La Paz, Cochabamba, Sucre e Santa Cruz, onde os indígenas fizeram cortes viárias em apoio a Morales, asilado no México, que nesta quarta-feira se disse disposto a retornar para apaziguar seu país.

Repercussão

Já o governo venezuelano rejeitou a "autoproclamação" da senadora de direita como presidente interina da Bolívia, considerando-a uma "paródia" para legitimar um "golpe de Estado". "A Venezuela expressa sua firme rejeição à paródia representada ontem  na Assembleia Legislativa da Bolívia, que resultou na autoproclamação ilegal de uma parlamentar como suposta chefe de Estado", disse a nota do Ministério das Relações Exteriores. Com o ato, acrescenta o texto do governo de Maduro, "se pretende dar legitimidade à deposição forçada do legítimo presidente da Bolívia", Evo Morales.

Já o chanceler brasileiro Ernesto Araújo declarou que o Brasil reconhece Jeanine Añez como presidente interina da Bolívia, de acordo com a Constituição daquele país.

"Intefrinamente, claro, acho que é importante o compromisso de convocar eleições. Então nossa primeira percepção é que está sendo cumprido o rito constitucional boliviano, e queremos que isso contribua para a pacificação e a normalização do país", disse Ernesto Araújo em um jantar com membros de delegações estrangeiras prévio à cúpula dos Brics em Brasília.

A onda de protestos na Bolívia deixou sete mortos, incluindo quatro baleados, em 23 dias de conflitos após as polêmicas eleições de outubro que levaram à renúncia de Morales, informou o procurador-geral, Juan Lanchipa. Dois cidadãos morreram em La Paz (oeste), outros dois em Santa Cruz (leste) e três em confrontos em Cochabamba (centro).

A proclamação da senadora de oposição Jeanine Áñez como presidente interina da Bolívia e a ida do ex-presidente Evo Morales para o México não foram suficientes para acalmar os ânimos em La Paz

Bíblias nas mãos

Jeanine Añez, a senadora de direita que na terça-feira se proclamou presidente interina da Bolívia, exibiu orgulhosa não uma mas duas Bíblias ao assumir o cargo, prova da força dos cristãos no cenário político boliviano.

Glória a Deus

"Deus permitiu que a Bíblia voltasse a entrar no Palácio. Que Ele nos abençoe", afirmou a senadora no momento em que ingressava na sede presidencial em La Paz, exibindo um exemplar do livro sagrado aos gritos de "Glória a Deus". Evo Morales, líder indígena esquerdista e ateu confesso deixou os rituais de linha cristã de lado.

Quero receber conteúdos exclusivos sobre o mundo