Fala do presidente do Líbano reforça escalada de tensão com Israel

O presidente do Líbano, Michel Aoun, levantou, ontem, a possibilidade de um "míssil" ter causado as explosões em Beirute que deixaram mais de 150 mortos

Legenda: Michel Aoun, presidente do Líbano, rejeitou uma investigação internacional sobre a gigantesca explosão no porto de Beirute e disse que poderia ter sido provocada por "negligência" ou por um "míssil", enquanto continua a busca por sobreviventes entre os escombros
Foto: AFP

Três dias após a tragédia da explosão no porto de Beirute, que deixou mais de 150 mortos, pela primeira vez uma autoridade libanesa passou a considerar a hipótese de um atentado, como insinuou o presidente dos EUA, Donald Trump, na última terça-feira (4).

O presidente libanês Michel Aoun disse, ontem, que a terrível explosão foi causada "por negligência" ou "intervenção externa", citando a hipótese de "um míssil".

"É possível que tenha sido causado por negligência ou por uma ação externa, com um míssil ou bomba", declarou o chefe de Estado, durante entrevista a jornalistas.

O Governo de Beirute havia afirmado antes que a tragédia tinha sido provocada por um incêndio em um enorme depósito de nitrato de amônio, uma substância usada na produção de explosivos.

No dia das explosões, grupos anti-Israel chegaram a especular que Israel estaria por trás das explosões. O Governo hebreu negou ter tido alguma ligação com a tragédia.

Antes das explosões, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, havia advertido o Hezbollah libanês, grupo armado e partido político no poder, contra qualquer operação que tenha Israel como alvo. O premiê acusou o Hezbollah de colocar bombas ao longo da fronteira norte, limítrofe com Líbano e Síria,

Ontem, o líder do movimento libanês Hezbollah, Hassan Nasrallah, negou, que sua organização tenha um armazém de armas no porto de Beirute.

"Nego totalmente, categoricamente, que haja algo nosso no porto, nem armazém de armas, nem armazém de mísseis nem uma única bomba, nem uma única bala, nem nitrato de amônio", afirmou o chefe do Hezbollah, em um pronunciamento transmitido pela televisão, após acusações disseminadas por jornais e pela opinião pública locais.

Protestos de rua

A hipótese de a catástrofe ter sido causada por uma ação externa surge após o Governo libanês enfrentar a fúria popular, que realizou protestos, reclamando da corrupção da classe política e da crise econômica crescente, enquanto enfrenta ainda os danos provocados pela pandemia.

Os últimos tempos têm sido marcados por manifestações nas ruas do país contra o modo como o Governo lida com aquela que é considerada a pior crise econômica desde a guerra civil de 1975-1990.

O Líbano, que tem uma dívida pública de US$ 90 bilhões, importa a maioria da sua comida, e o porto de Beirute, fundamental no armazenamento de grãos, está agora destruído. O Banco Mundial informou estar disposto a mobilizar recursos para ajudar o país.

Para analistas, os dois lados estão cientes de que um conflito não seria interessante no momento. No lado libanês, o descontentamento popular e os protestos contra o Governo "não podem ser ignorados", diz Didier Leroy, especialista no grupo armado. Leroy afirma que o Hezbollah está sob pressão financeira, como seu aliado iraniano, o que influencia na estratégia "militar".

Israel tem melhor situação econômica, mas enfrenta outros problemas, como a pandemia, o desemprego e os protestos contra o Governo. O último grande confronto entre o Hezbollah e Israel foi em 2006. Em um mês, mais de 1.200 pessoas morreram do lado libanês, principalmente civis, e 160 entre os israelenses, em sua maioria militares.

Incidentes entre Líbano e Israel

7 de agosto - O Exército israelense anuncia que derrubou um drone não tripulado que cruzou sua fronteira com o Líbano, região onde há uma forte presença militar após os recentes confrontos. Um oficial militar israelense confirmou que o drone era do Líbano

27 de julho - Disparos da artilharia israelense na fronteira. O Exército israelense informou que frustrou "uma tentativa de infiltração de uma célula terrorista" em seu território e abriu fogo contra homens armados logo após cruzarem a fronteira norte com o Líbano

20 de julho - Ataques na Síria, atribuídos a Israel, mataram cinco combatentes pró-Irã ao sul de Damasco, incluindo um combatente do Hezbollah. Desde 2011, Israel realiza ataques à Síria, cujo regime é apoiado militarmente pelo Irã e pelo Hezbollah

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