Facebook apresenta "Libra" e entra no mundo das criptomoedas

Código poderá ser usado por desenvolvedores em aplicativos, serviços e negócios

Legenda: CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, aposta no potencial das criptomoedas
Foto: Foto: AFP

O Facebook entrou no mundo das criptomoedas com sua própria moeda digital, concebida para economizar, transferir ou gastar dinheiro com a mesma simplicidade do envio de uma mensagem de texto.

"Libra", que é descrita como "uma nova moeda global", foi apresentada nesta terça-feira pela maior rede social do mundo como um meio de pagamento com o potencial para tirar as criptomoedas das sombras. 

Facebook e vários sócios divulgaram um protótipo da "Libra" como um código aberto que pode ser usado por desenvolvedores interessados em incluí-la em aplicativos, serviços e negócios antes de seu lançamento como uma moeda digital no próximo ano.

Uma organização sem fins lucrativos com sede em Genebra supervisionará a tecnologia blockchain da Libra para manter a estabilidade da moeda. A organização é integrada, entre outras entidades, por operadoras de cartão de crédito como Mastercard e Visa, empresas de transporte como Uber e Lyft e até a organização Women's World Banking, que ajuda mulheres desfavorecidas.

A iniciativa pretende fazer com que mais de um bilhão de pessoas de todo o mundo que não têm acesso a bancos possam contar com serviços comerciais e financeiros online, afirmou Dante Disparte, diretor de política e comunicação da Libra Association.

"Acreditamos que se você dá às pessoas a possibilidade de acesso a dinheiro e oportunidades com um custo menor, o que em parte a internet faz com a informação, é possível obter muito mais estabilidade do que a que temos até agora", disse.

"Transferir dinheiro a um amigo não deveria ser mais difícil que viajar de Uber até sua casa", afirmou Peter Hazlehurst, diretor de pagamentos e riscos da Uber.

"Libra tem potencial para ser uma ponte entre as tradicionais redes de financiamento e as novas moedas tecnológicas, ao mesmo tempo que reduz custos para todos", completou.

Facebook será apenas um dos integrantes da associação, mas separadamente está preparando sua própria carteira digital chamada Calibra.

"Vemos isto como parte do cumprimento da missão do Facebook de conectar as pessoas em qualquer lugar e isto inclui permitir a troca de valores", declarou à AFP o vice-presidente da Calibra, Tomer Barel.

"Muitos usuários do Facebook estão em países onde existem barreiras de acesso aos bancos ou ao crédito", disse.

Calibra está sendo desenvolvida para ser incluída no Messenger e WhatsApp com o objetivo de permitir aos usuários enviar a moeda Libra com a mesma facilidade de uma mensagem de texto.

Respaldo em dinheiro real

O projeto Libra aprendeu com as lições das outras criptomoedas, como o bitcoin, e foi pensado para evitar as variações abruptas de valor que afetam as moedas virtuais e que são fonte de especulação e de ruínas.

O dinheiro real utilizado para comprar a Libra será a reserva e garantia do dinheiro virtual, cujo valor refletirá o de moedas estáveis como o dólar e o euro, segundo os credores.

"Estará respaldada por uma reserva de ativos que assegura utilidades e baixa volatilidade", disse Barel.

Para que a moeda digital opere em escala global, a Libra tem como base uma plataforma de tecnologia blockchain que usa quase 100 "nós" de computador confiáveis para validar e registrar transações.

Blockchain é uma espécie de registro público que não pode ser falsificado e permite transferir moedas virtuais de forma rápida e segura.

A associação Libra será a única entidade capaz de "cunhar ou queimar" a moeda digital mantendo a oferta em sintonia com a demanda e ativos de reserva", garante Barel.

"Não se trata de confiar no Facebook e sim em acreditar nas organizações que fundaram a associação de que isto é independente e democrático", afirmou Disparte.

Novas direções

O lançamento acontece no momento em que o Facebook tenta recuperar a credibilidade e confiança perdidas após uma série de escândalos pelo vazamento de dados privados.

O CEO da empresa, Mark Zuckerberg, prometeu levar o Facebook a uma nova direção, com destaque para as mensagens privadas e os pagamentos eletrônicos.

A nova carteira digital Calibra promete dar ao Facebook a possibilidade de incluir serviços financeiros, comércio online e que empresas menores comprem espaço publicitário.

"Certamente vemos benefícios a longo prazo para o Facebook", disse Tomer.

A informação financeira dos usuários da Calibra está estritamente separada dos dados do Facebook e não será utilizada com fins publicitários, afirmou Kevin Weil, vice-presidente da Calibra.

A Libra será uma moeda regulamentada, submetida às leis locais sobre fraudes ou lavagem de dinheiro, de acordo com Weil, que apontou que, em sua visão, a maioria dos negócios ilegais "são feitos com dinheiro em espécie".

Para as pessoas que não têm acesso aos bancos, a moeda local poderá ser convertida em Libra nas casas de câmbio ou empresas que oferecem o serviço.

E a onipresença dos celulares abre a possibilidade de levar serviços bancários, cartões de crédito e comércio online a regiões em que tais serviços não existem.

Entenda como as criptomoedas podem substituir outras formas de pagamento

As criptomoedas vivem em um ambiente volátil, uma espécie de montanha russa que o Facebook busca mudar com sua nova moeda Libra.

A nova moeda digital será supervisionada por uma organização sem fins lucrativos e será apoiada por ativos reais para ser confiável e estável.

Como funcionam as criptomonedas 

Para usar moedas como a Libra, as pessoas precisarão instalar um software conhecido como carteira digital. 

Várias carteiras digitais estão disponíveis, mas uma chamada Calibra está sendo projetada por uma subsidiária do Facebook para smartphones dos sistemas operacionais Apple e Android e será integrada aos serviços de mensagens Messenger e WhatsApp.

Esse sistema "permite que todos guardem seu dinheiro com segurança em seus telefones", disse à AFP o vice-presidente de produtos da Calibra, Kevin Weil.

Uma carteira digital escolhida pelo usuário deve estar vinculada a contas bancárias ou cartões de crédito para transferências ou transações on-line.

"Da mesma forma que você pode recorrer a qualquer navegador para se conectar à internet, você poderá escolher qualquer carteira digital", disse Weil.

As vantagens

A Libra foi lançada como um ecossistema aberto, para que qualquer negócio, ou serviço, possa aceitá-la como meio de pagamento. As instituições financeiras também poderão oferecer empréstimos, ou créditos, em Libra.

"Imagine guardar as economias de sua vida em casa. É mais seguro levá-las com você em seu telefone", alegou Weil.

O Calibra poderá, por exemplo, ser usado para enviar dinheiro para amigos, ou familiares, em outro país. Também servirá para comprar em lojas on-line, ou no mundo real, da mesma maneira que se usa o Pay Apple, ou o Google Pay.

Atualmente, mais de um bilhão de pessoas usam o WhatsApp e o Messenger para se comunicar. Segundo essa empresa, faz sentido, portanto, fornecer a eles uma maneira de movimentar dinheiro.

"Com o tempo, à medida que o ecossistema da Libra crescer e a Libra for incorporada a produtos e serviços, haverá mais coisas que poderão ser feitas", disse Weil.

Como transformar dinheiro vivo em criptomoeda

Pessoas sem acesso a bancos poderão ir a uma casa de câmbio, por exemplo, para converter o dinheiro em Libra. Uma vez em um smartphone, a Libra poderá ser enviada como uma mensagem de texto. Os destinatários terão a opção de salvá-la em suas próprias carteiras para uso futuro, ou convertê-la em suas moedas locais.

"Faremos com que seja fácil converter para a moeda local", acrescentou Weil.

"Se você não tiver conta em banco, poderá recorrer a lugares como casas de câmbio que operem com a Libra", completou.

As comissões de câmbio de dinheiro poderão ser administradas pelo mercado, mas provavelmente serão menores do que as cobradas pelas empresas que transferem fundos.  O Calibra terá proteção contra fraudes e recuperação de senhas, e haverá um procedimento para reconhecer o cliente, por meio de documento de identidade oficial.

"Este é o dinheiro do povo. Sentimos uma grande responsabilidade de mantê-lo seguro", completou Weil.


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