Ex-líder das Farc diz que parte do grupo retomará luta armada na Colômbia

O ex-líder da guerrilha disse que o desarmamento foi em vão, "em troca de nada", uma vez que o Estado não teria cumprido sua parte do acordo, que era a de proteger os ex-guerrilheiros

Legenda: Iván Márquez (ao centro) durante anúncio
Foto: AFP / Youtube

Em um vídeo de 32 minutos divulgado na manha desta quinta-feira (29), Iván Márquez, antigo número dois das Farc (Forcas Armadas Revolucionarias da Colômbia), anuncia que "se inicia uma nova etapa da luta armada".

"Anunciamos ao mundo que começou a segunda Marquetalia", diz Márquez, no vídeo, em referencia ao local em que as Farc nasceram, em 1964. Ele acrescenta que o grupo não foi vencido ideologicamente, "por isso a luta continua. A história registrará em suas páginas que fomos obrigados a retomar as armas".

O ex-líder da guerrilha disse que o desarmamento foi em vão, "em troca de nada", uma vez que o Estado não teria cumprido sua parte do acordo, que era a de proteger os ex-guerrilheiros — já são mais de 150 os assassinados por inimigos da guerrilha desde então.

Márquez ainda anunciou que estão sendo realizados contatos e conversas com o ELN (Exército de Libertação Nacional), que segue ativo e cometendo atentados, para que atuem juntos em algumas operações.

No vídeo, Márquez aparece ao lado de Jesús Santrich, outro ex-líder das Farc. Ambos tem várias coisas em comum: participaram da negociação de paz, em Cuba, passaram a integrar o Congresso colombiano por determinação do acordo de paz, estão foragidos e têm pedido de extradição por tráfico de drogas solicitado pelos EUA.

Autoridades colombianas localizaram o ponto onde o vídeo foi gravado: a área do rio Inírida, na região amazônica da Colômbia, próximo às fronteiras com a Venezuela e com o Brasil.

O líder das Farc, hoje convertidas em partido político, Rodrigo "Timotchenko" Londono, disse que não está de acordo com a decisão tomada por esses dissidentes, e que seguirá o compromisso de paz com o governo. Ele instou os dissidentes a que não usem o nome das Farc, "porque estas, agora, são forças de paz". Na última semana, Timotchenko esteve com o presidente Iván Duque.

Antes um crítico do acordo e que militou na campanha do "não" antes do plebiscito de 2016, Duque prometeu que não desistirá do pacto. No entanto, algumas atitudes suas, como tentar intervir no tribunal especial de paz, estabelecido pelo acordo e que confere penas alternativas (nunca de prisão) e anistias, e a redução da segurança oferecida aos ex-combatentes, são vistas por muitos setores das Farc como um abandono. 

A guerrilha, desmobilizada no fim de 2016 por meio de um acordo de paz aprovado pelo Estado e pelo grupo, tem tido cada vez mais dissidentes que estão se rearmando, alguns no próprio território colombiano, outros do outro lado da fronteira com a Venezuela. As estimativas oficiais são que já existem por volta de 2.000 dissidentes. Em 2016, foram registrados 7.000 integrantes desmobilizados.

O ditador Nicolás Maduro tem acolhido estes combatentes, assim como os integrantes do ELN, com quem o atual presidente colombiano, Iván Duque, suspendeu as negociações de paz. Até o acordo de paz ser assinado, mais de 200 mil pessoas tinham sido mortas por conta de atos da guerrilha.