Derrota de Macri indica maior aposta em volta da esquerda ao poder

A centro-esquerda largou na frente na eleição primária argentina, sinalizando uma possível derrota do presidente Mauricio Macri em outubro próximo. Caso o cenário se confirme, será um revés para Jair Bolsonaro

Legenda: Chapa liderada por Alberto Fernández, tendo Cristina Kirchner como vice, vence primária e pode tirar Governo alinhado aos EUA do poder
Foto: Foto: AFP

A derrota do presidente argentino Mauricio Macri nas eleições primárias de domingo (11) sinalizou para um retorno da esquerda ao poder no país, que é o principal parceiro comercial do Brasil no Mercosul.

Com a ex-presidente Cristina Kirchner como vice, Alberto Fernández, peronista de centro-esquerda, estabeleceu uma ampla vantagem sobre o presidente liberal nas primárias de domingo na Argentina e se tornou o grande favorito para a eleição presidencial de 27 de outubro.

Ele obteve 47% dos votos, com uma vantagem de 15 pontos sobre Macri. Com as candidaturas definidas por consenso, as prévias no país tornaram-se um termômetro da disputa presidencial. Assim, o prognóstico para a reeleição de Macri é sombrio.

O mercado financeiro reagiu mal ao resultado da eleição. A Bolsa de Comércio de Buenos Aires caiu mais de 10% no início das operações, ontem. O peso argentino chegou a despencar 14% em relação ao dólar na abertura do mercado de câmbio ontem.

Em um dia de nervosismo nos mercados, a moeda foi negociada a 53 pesos na abertura das casas de câmbio, 14% acima do fechamento da sexta, quando foi cotada a 46,55.

"O mercado agora está assumindo que Macri perderá no primeiro turno", disse Jorge Piedrahita, presidente-executivo da Gear Capital Partners, consultoria com sede em Nova York. "A reação do mercado foi brutal, já que os resultados foram totalmente inesperados", acrescentou.

Brasil

A vitória da chapa de oposição nas primárias presidenciais argentinas representou um revés para o presidente Jair Bolsonaro, na avaliação de integrantes da cúpula militar e da diplomacia brasileira.

O diagnóstico feito por aliados de Bolsonaro é que o presidente brasileiro se equivocou ao ter se envolvido de maneira ativa na disputa do país vizinho e que seria adequado, neste momento, reavaliar o discurso, moderando o tom.

Desde maio, Bolsonaro tem feito reiterados ataques a Cristina e pedido à população argentina que não votasse nela. Para ele, o retorno da hoje senadora ao Poder Executivo pode fazer com que "a Argentina se torne uma Venezuela".

A avaliação de auxiliares é de que a manutenção do discurso belicoso, diante da chance de vitória da oposição, pode dificultar uma composição entre Brasil e Argentina no futuro, no momento em que se negocia o acordo entre Mercosul e União Europeia.

Bolsonaro lamentou a vitória da oposição no país. "A turma da Cristina Kirchner, que é a mesma de Dilma Rousseff, que é a mesma de Hugo Chávez, de Fidel Castro, deram sinal de vida aqui. Povo gaúcho, se essa esquerdalha voltar aqui na Argentina, nós poderemos ter no Rio Grande do Sul um novo estado de Roraima", disse, referindo-se à migração venezuelana no Estado do Norte.