Conheça a conservadora Úrsula, 1ª mulher a presidir a Comissão Europeia

Ministra da Defesa alemã foi escolhida para mandato de cinco anos

Legenda: Úrsula von der Leyen vai presidir a Comissão Europeia
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A política conservadora Úrsula von der Leyen será a primeira mulher a presidir a Comissão Europeia. Ela foi eleita, nesta terça-feira, na Eurocâmara (Parlamento europeu). A ministra da Defesa alemã, escolhida pelos líderes como presidente da Comissão a partir de 1º de novembro em um mandato de cinco anos, obteve 383 votos favoráveis dos eurodeputados, nove acima da maioria necessária. Mas quem é Úrsula, uma nova figura no cenário da geopolítica mundial?

Próxima a Angela Merkel, Úrsula chega a Bruxelas com um controverso balanço no ministério da Defesa, mas com uma imagem de europeia convencida e poliglota.

Apoiada pelo presidente francês Emmanuel Macron, com quem demonstrou se entender bem no salão internacional aeronáutico de Bourget em junho, esta francófila é apreciada pelo governo francês, especialmente pela boa cooperação em assuntos franco-alemães. 

Chefe das forças armadas alemãs há seis anos, essa mulher enérgica de 60 anos foi por um tempo considerada a sucessora da chanceler, que a nomeou ministra em cada um de seus quatro governos (2005-2019).

Uma série de escândalos atingiram o Exército e seu ministério por causa de material obsoleto, baixos investimentos, especialistas exageradamente apagados e aumento da extrema direita na instituição. O veredito dos alemães é duro: segundo uma pesquisa recente do jornal Bild, ela é considerada como uma dos dois ministros menos competentes do governo.

Legenda: Úrsula von der Leyen defende um novo "Acordo Verde" para a União Europeia
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Apesar da imagem afetada, Úrsula chegará em Bruxelas, a cidade onde nasceu e cresceu até o começo da adolescência, com um trunfo importante: tem a confiança de França e Alemanha, em um momento em que Macron e Merkel parecem não se entender.

Além do alemão, ela fala francês e inglês. Se aperfeiçoou em inglês na Califórnia, onde seu marido foi professor por anos na prestigiada universidade de Stanford. A carreira política de "Röschen" (rosinha), seu apelido familiar, é espetacular, mesmo para a filha de um barão da política regional alemã, Ernst Albrecht. 

Somente em 2002, depois de viver nos Estados Unidos, ela se lançou a candidata do mandato local na região de Hanover. Três anos mais tarde já era ministra do Trabalho.

Mulher enérgica e tenaz, alguns dirão cortante, sua personalidade não era bem aceita no mundo muito masculino do exército.  Também foi mal vista na hierarquia militar por denunciar as "debilidades" e o "espírito de corpo" não pertinente após a detenção em 2017 de um oficial suspeito de preparar um atentado contra estrangeiros.

A ministra também foi suspeita em 2015 de plágio em seu doutorado, tema muito sensível na Alemanha que causou a queda de vários políticos.  

Legenda: Úrsula von der Leyen nasceu na Bélgica, mas foi criada na Alemanha
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Exército

Primeira mulher a ocupar o posto de ministra da Defesa, Úrsula também sacudiu a venerável instituição.

Impôs o fim à tradição de honrarias aos oficiais que trabalharam para Hitler, como o general Erwin Rommel, conhecido por sua campanha no norte de África durante a Segunda Guerra Mundial e apelidado de "o Zorro do deserto".

A ministra também realizou muitas visitas às forças alemãs no Afeganistão e no Iraque.

Ela é médica de formação e mãe de sete filhos. Em um país onde continua sendo difícil para uma mulher conciliar carreira profissional e filhos, apareceu com frequência nas capas de jornais com eles até o ponto de ser acusada de instrumentalizar a prole.

No partido cristão-democrata (CDU), se opôs a seu próprio campo em alguns assuntos, como ao reivindicar cotas femininas na direção das grandes empresas.

Em um país afetado pelo envelhecimento da população e onde a natalidade está em forte queda, ela  é também a "mãe" do salário parental do qual se podem beneficiar os alemães durante os 14 meses depois do nascimento.

Legenda: Úrsula von der Leyen tem o apoio do governo da França
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Confira as propostas de Úrsula

Acordo Verde

Úrsula se comprometeu a transformar a Europa, até 2050, no "primeiro continente" com neutralidade de carbono, ou seja, com um equilíbrio entre emissões e absorção de gases causadores do efeito estufa.

Antes, para a Alemanha, a União Europeia (UE) deve reduzir suas emissões de maneira mais drástica. "Nossa meta atual de 40% para 2030 não é suficiente", admitiu, elevando a exigência até 50%, ou mesmo 55%.

Ela vai propor "um Green Deal" (Acordo Verde) e "a primeira lei europeia sobre o clima". Nela, ficará estabelecido o objetivo de se atingir a neutralidade de carbono.

Salário

Úrsula quer um marco legal que permita que os trabalhadores em tempo integral tenham, no bloco, "um salário mínimo que lhes permita uma vida digna".

Em uma UE com altos índices de paralisação, sobretudo, nos países do sul e entre os jovens,  ela aposta em "um seguro-desemprego" que funcione "em tempos de impactos externos".

A proteção da infância será reforçada, prometeu, com uma "garantia" que assegure o acesso à saúde e à educação de crianças em risco de pobreza e de exclusão social.

Igualdade salarial

Ela se comprometeu a lutar contra a desigualdade salarial e a garantir a paridade de seu futuro colégio de comissários.

Úrsula pediu que se "fale abertamente sobre a violência contra as mulheres" e prometeu incluir este tipo de agressão "como crime na lista definida pelos tratados".

Estado de Direito 

Úrsula defendeu a ideia de um novo mecanismo de Estado de Direito ampliado que vigie o respeito à lei na UE e condicione a chegada de recursos europeus a esse cumprimento.

Esta condicionalidade, aprovada pela Eurocâmara em abril passado, permitirá cortar as ajudas europeias a governos que descumprirem os tratados. Já há procedimentos em curso contra Polônia e Hungria por violarem o Estado de Direito.

Legenda: Chefe das forças armadas alemãs há seis anos, Úrsula foi por um tempo considerada a sucessora da chanceler
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Asilo

Ela prometeu "um novo pacto pela migração e pelo asilo", assim como a reforma do sistema de Dublin. A atual Comissão do luxemburguês Jean-Claude Juncker se propôs a realizar a mesma tarefa, destinada a descongestionar os países de chegada dos refugiados no sul da Europa, mas sem chegar a concluí-la.

Úrsula também quer antecipar para 2024, três anos antes do que o previsto, a mobilização de 10.000 guardas fronteiriços e agentes da Guarda Costeira da agência Frontex.

Fim da unanimidade

Úrsula se mostrou favorável a pôr fim à exigência da unanimidade entre os governos do clube para tomar decisões em matéria de política externa. Uma maioria qualificada permitiria "agir mais rápido", defendeu.

Mais poder para a Eurocâmara 

A política conservadora prometeu organizar uma "Conferência sobre o futuro da Europa" e reunir propostas de reformas da UE procedentes de cidadãos, representantes da sociedade civil e dos próprios líderes comunitários.

Ela ofereceu um "direito de iniciativa para a Eurocâmara", o que aumentaria a influência da instituição. O direito de propor novas leis é, hoje, monopólio da Comissão Europeia.

Uma nova prorrogação do Brexit? 

Úrsula está disposta a conceder mais tempo ao Reino Unido para abandonar a UE, desde que os britânicos façam essa solicitação e desde que exista "uma boa razão" que justifique a prorrogação. Em relação ao atual acordo, três vezes rejeitado pelo Parlamento britânico, Úrsula diz que é "o melhor e o único possível".


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