Conflitos e guerras deixam rastro de morte e destruição pelo mundo

As guerras internacionais mudaram. Nada de grandes conflitos mundiais envolvendo várias nações ou blocos. O que temos nas últimas décadas são confrontos internos após crises de governabilidade que às vezes se transformam em guerras civis ou disputas entre países vizinhos.

Os motivos para a matança são os mais diversos, desde a disputa territorial ou controle da produção de algum bem de consumo, como petróleo e diamante, até os enfrentamentos étnico-religiosos.

O Instituto Internacional Heidelberg de Pesquisa para Conflitos (HIIK), na sigla em inglês, realiza todos os anos o estudo "Barômetro de Conflitos". Entre as ocorrências globais verificadas pela instituição, em 2012, foram anotados 43 conflitos altamente violentos no mundo dentre 396 casos de crises, conflitos, guerras ou disputas latentes entre as nações.

Esses 43 casos se caracterizam, conforme o Instituto, pelo uso maciço de violência, bem como, pelas graves consequências humanitárias. Entre esses conflitos, 18 atingiram o maior nível de intensidade de uma guerra, em 15 países, espalhados ao longo de quatro regiões do mundo.

A África Subsaariana (que corresponde à região do continente africano ao sul do Deserto do Saara) possui a maior quantidade de conflitos. Nigéria, Sudão, Congo e Sudão do Sul concentraram os principais focos de guerras e crises humanitárias. Esses movimentos geraram um contingente de milhares de refugiados, segundo o HIIK.

O professor de Direito e Relações Internacionais da graduação e pós-graduação da Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP), Marcus Vinícius de Freitas, afasta a generalização dos conflitos na área, mas identifica três causas comuns nas crises na região: fronteiras; etnias diferentes; e controle das riquezas naturais. "A questão das fronteiras é relevante porque as potências coloniais, ao desenharem os mapas da África, desconsideraram, muitas vezes, a existência de discórdia entre os grupos que formariam as novas nações, que teriam históricos intensivos de violência. Esta discórdia decorre, muitas vezes, das diferenças étnicas, outras vezes da questão religiosa por grupos islâmicos mais radicais. A questão do controle das riquezas naturais é importante, particularmente, considerando o fato de a China estar investindo pesadamente na região, sem buscar contrapartidas de controle efetivo da corrupção, o que gera uma luta enorme entre grupos, principalmente na questão do petróleo, como é o caso do Sudão do Sul e do Sudão", afirmou o especialista.

Mortes

Apesar de o continente africano registrar o maior número de conflitos, a maioria das mortes ocorre nos confrontos no Oriente Médio em países como Iraque, Afeganistão e Síria.

Segundo as Nações Unidas, somente na guerra civil síria, que se arrasta por três anos, mais de 130 mil pessoas perderam a vida, até o fim do ano passado, nos confrontos entre as tropas leais ao presidente Bashar al Assad e os rebeldes, que também contam com o apoio de grupos ligados a Al Qaeda. Sobre os principais combates travados atualmente no Oriente Médio, Freitas novamente descarta uma abordagem homogênea desses povos e dos conflitos que ocorrem na região. "Cada um dos países mencionados apresenta características e peculiaridades em sua situação interna, o que não permite generalizar ou até mesmo atrelá-los à questão religiosa, em razão da diversidade de sua origem ou objetivo", disse.

Américas

Apesar da aparente tranquilidade no continente, alguns países das Américas vivem situação de graves violações, como o confronto entre o governo mexicano e os carteis de narcotraficantes fortemente armados.

Esses grupos têm desafiado o governo e a imprensa, que registrou vários jornalistas mortos pelo tráfico nos últimos anos. Somente em 2012, mais de 12 mil pessoas foram mortas na região.

Já em El Salvador, organizações de tráfico de drogas também têm sua parcela de contribuição para o clima de terror naquele país. As gangues (Maras) têm aterrorizado a população salvadorenha.

O professor Marcus Vinícius de Freitas salienta que a situação encontrada em países como México, Colômbia e El Salvador não são caracterizadas por uma insurreição popular contra o Estado, mas uma demonstração de força contra uma autoridade central que, por desleixo ou por falta de políticas apropriadas, deixou que a questão do narcotráfico assumisse uma relevância e um enorme descontrole.

Conforme o estudo do HIIK, a Europa, desde 2012, é cenário para conflitos sócio- econômicos devido a crise financeira. A situação gerou embates entre a oposição e os governos de alguns países como Grécia, Ucrânia e Romênia, com crises constitucionais e confrontos violentos.

Freitas alerta que tensões na Europa estão sempre presentes nesse contexto. "Como o continente mais velho, sua história tem sido permeada por conflitos internos que, muitas vezes, transcenderam as fronteiras, com gatilhos algumas vezes imperceptíveis", destacou o professor.

Ele cita a ascensão de grupos radicais ao poder, em razão da crise do Euro, como motivador de situações preocupantes na região. No entanto, o especialista afirma que o processo de neutralização e negociação por meio da União Europeia e da própria OTAN, favorece uma resolução negociada.

Refugiados

O Relatório Global do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), divulgado em 2013, revela número recorde de pessoas refugiadas ou deslocadas internas no mundo desde 1994, tendo a crise na Síria como novo grande fator de deslocamento global.

O documento mostra também que, no final de 2012, mais de 45,1 milhões de pessoas estavam em situação de deslocamento - em comparação aos 42,5 milhões no final de 2011.

 

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