Com mais conexões internacionais, Ceará amplia rede de consulados

Estado abriga representações diplomáticas de 23 países, um número crescente; Prefeitura de Fortaleza e Governo do Estado explicam esse avanço

Quantos países possuem representantes diplomáticos no Ceará? Atualmente, são 23, segundo a Sociedade Consular do Ceará, uma associação civil sem fins lucrativos e sem vínculos político-partidários, criada em 1991. De lá para cá, esse número mais que duplicou, informa o presidente da Sociedade, José Maria Zanocchi, que é cônsul honorário do Uruguai em Fortaleza.

Com essa maior presença diplomática nas últimas três décadas, o Ceará ainda ostenta a terceira maior rede consular do Nordeste. Perde para Pernambuco (37 representações diplomáticas) e Bahia (26).

Legenda: 23 países que possuem representação diplomática no Ceará

Para Zanocchi, o aumento da rede consular do Ceará reflete as maiores conexões do Estado com o mundo. Ele descreve os consulados como elos entre países e cidades. Dos 23 países presentes no Ceará, 22 mantêm consulados honorários (os cônsules não são servidores públicos). Apenas o de Portugal é um consulado de carreira.

“Se um turista estrangeiro é roubado ou perde os documentos, ele procura o consulado, que dá assistência. Esse é um dos serviços prestados pelos consulados”, exemplifica.

A descoberta do Ceará por um maior número de países e seus turistas também contribui para a necessidade de abertura de novas representações diplomáticas. 
A Copa do Mundo de 2014 é um divisor de águas nessa realidade, já que Fortaleza foi uma das sedes do campeonato de futebol e recebeu turistas de diversos países, lembra a titular da Coordenadoria Especial de Relações Internacionais e Federativas (Cerif) da Prefeitura de Fortaleza, Patrícia Macêdo.

Visitas e intercâmbios

Ela destaca a importância dos governantes de abrir canais com autoridades de outros países, a fim de estreitar relações diplomáticas, de troca de experiências e de oportunidades de intercâmbios.

Em Fortaleza, o prefeito Roberto Cláudio (PDT) tem mantido uma agenda de contatos com autoridades diplomáticas, segundo a coordenadora. Na última sexta-feira, por exemplo, ele recebeu a visita do embaixador do Vietnã no Brasil, Do Ba Khoana.

“Vamos começar agora uma exposição da cidade no exterior por meio da Secretaria de Turismo”, informa Patrícia Macêdo.

Entre as experiências bem-sucedidas de integração com outros países, ela aponta a Suécia, na Escandinávia. Alunos da rede Cuca já foram a Estocolmo participar de debate sobre protagonismo juvenil, graças ao programa internacional de liderança juvenil Peace Leaders (Líderes da Paz), realizado pela Prefeitura de Fortaleza, em parceria com a organização sueca Fryshuset.

“Esses jovens retornam capacitados e atuam como mediadores em áreas vulneráveis, tornando-se coaches, líderes da paz na periferia”, observa Patrícia Macêdo.

Efeito hub

Já a Secretaria de Relações Internacionais do Governo do Ceará atribui o avanço da rede consular ao desenvolvimento econômico do Estado. 

Desde que o Aeroporto de Fortaleza passou a concentrar conexões das empresas aéreas Air France-KLM e Gol, as nacionalidades dos turistas que desembarcam por aqui se diversificaram. 

Hoje, as origens dos visitantes, considerando uma pesquisa sobre os turistas estrangeiros no Ceará em 2018, são da França (19,7% do total), Itália (11%), Alemanha (10%), Argentina (10%) e Portugal (7,8%), mas há outras nacionalidades despontando nessa lista como Holanda (7%), Suíça (4,9%), EUA (3,8%), Reino Unido (3,7%), Espanha (2,9%), Colômbia (2%), Bélgica (1,9%), Polônia (1,8%), Noruega (1,6%) e Cabo Verde (1,3%) e Áustria (1,3%). 

“Com a instalação do hub, que ampliou as frequências aéreas para a Europa e Américas, as relações comerciais dos países desses continentes com o Ceará estão mais fortalecidas e isso faz com que as representações consulares presentes aqui ganhem nova relevância devido ao aumento da projeção internacional do Estado, da situação favorável da sua economia e competitividade, além de possibilidades de intercâmbio e cooperação. Com a abertura de novos mercados, as relações com os consulados estão bem mais ativas”, comenta César Ribeiro, titular da Secretaria do Estado.

Ainda há países que ganham espaço na economia do Ceará e que ainda não contam com consulado. É o caso da Coreia do Sul, presente em projetos siderúrgicos no porto do Pecém. Nesses casos, os coreanos que precisam de assistência necessitam se dirigir aos consulados de Manaus (AM) ou Salvador (BA).

Bélgica

A Bélgica estuda abrir uma representação diplomática em Fortaleza, apurou o Diário do Nordeste. Se concretizado, isso elevaria para 24 o número de países com presença consular no Ceará. Atualmente, as relações comerciais com os belgas são favorecidas pela nova rota de exportações de frutas do Estado, por meio do porto belga de Antuérpia.

Não é do dia para a noite que esse tipo de decisão é implementada. A abertura de um consulado dos EUA, em Fortaleza, a fim de evitar a viagem a Recife para entrevistas para se obter o visto, é uma reivindicação antiga dos cearenses, mas as autoridades diplomáticas não fazem acenos positivos sobre a ampliação de sua rede consular no Nordeste. Atualmente, a Capital conta apenas com uma Agência Consular dos EUA, que não é autorizada a conceder visto aos potenciais visitantes do país americano.

“O processo de articulação e implantação de um consulado – ponto fulcral da diplomacia consular – envolve negociações bilaterais de alta densidade entre os Ministérios das Relações Exteriores e outros atores políticos de relevo (e muitas vezes também a própria Presidência). Tal articulação está baseada, antes de tudo, no princípio do consentimento mútuo dos dois países (Art. 2 da Convenção de Viena sobre Relações Consulares)”, ensina o livro “Breve Esboço Consular Honorário e Diplomático”, de Thiago de Menezes.

O Ministério das Relações Exteriores também tem um papel nas negociações com outros países, já que atua com as embaixadas. No Nordeste, Recife é a única capital a contar com um escritório regional de representação do Itamaraty. Além da importância econômica e política, a tradição de Pernambuco na diplomacia se justifica pelo pioneirismo: Joaquim Nabuco, nascido em Recife, foi o primeiro embaixador do Brasil nos EUA, cargo que ocupou até seu falecimento, em janeiro de 1910.

Atrair agências de promoção de negócios e câmaras de comércio de vários países também ajuda uma cidade a explorar sua vocação internacional e a ser um centro de intercâmbio, promovendo eventos de interesse mundial.