Busca por vacina contra novo coronavírus enfrenta obstáculos

Da falta de ratos de laboratório à disputa acirrada entre países para descobrir a imunização, a corrida científica para prevenir a Covid-19 deve demorar meses

Cientistas do mundo inteiro lutam para encontrar um tratamento ou uma vacina contra o novo coronavírus, que infectou mais de meio milhão de pessoas com um saldo crescente de mais de 23 mil mortes no planeta, até ontem. O caminho para desenvolver meios de imunização é, no entanto, demorado (não menos de um ano), desperta rivalidades entre laboratórios multinacionais e enfrenta obstáculos.

Exemplo: os cientistas procuram ratos de laboratório e nem todos servem. Devem ser roedores transgênicos, atualmente em escassez.

"Os ratos de laboratório habituais não podem ser utilizados para estudar o Sars-CoV-2 (nome técnico do vírus que causa a doença Covid-19)", explica Christophe D'Enfert, diretor científico do prestigioso Instituto Pasteur de Paris.

Eles não possuem um receptor sensível ao coronavírus, o que permite a este penetrar nas células: portanto "não somos capazes de infectar estes ratos de maneira eficaz", acrescenta D'Enfert.

Por este motivo são necessários ratos especiais, chamados ACE2, geneticamente modificados e fornecidos por empresas especializadas, que neste momento enfrentam uma demanda extremamente elevada. Este tipo de roedor foi utilizado para estudar a Sars, que afetou a Ásia entre 2002 e 2003, mas uma vez superada a epidemia "ninguém se interessou mais por eles" e os laboratórios deixaram de ter estes animais, segundo D'Enfert.

"Fizemos um pedido e vamos recebê-los, mas vai demorar um tempo", completa. "São necessárias três semanas de gestação e três meses para contar com uma geração", ou seja, com ratos capazes de se reproduzir, observa.

Fertilização in vitro

Com sede nos EUA, o Jackson Laboratory é um grande fornecedor de K18-hACE2 - seu nome completo - e está acelerando a produção para suprir a demanda dos super-ratos. As demandas procedem de laboratórios e organizações de todo o mundo há várias semanas. Geneticamente modificados para poder contrair o coronavírus, os ratos "reproduzem as complicações respiratórias provocadas pela infecção, o que significa que representam um bom modelo para (estudar) a doença", segundo Cathleen Lutz, diretora da área de "Ratos" do Jackson Laboratory. Estarão, portanto, destinados "a testar os (possíveis) tratamentos e vacinas", completa Lutz.

Para acelerar a produção, o Jackson Laboratory recorre à fertilização in vitro, ao invés da reprodução tradicional: o esperma de apenas um macho permite fecundar centenas de ovócitos, que depois são transferidos aos embriões das fêmeas para gestação.

A empresa espera fazer as primeiras expedições limitadas "no início de maio", antes de uma entrega mais ampla "algumas semanas depois".

Novos modelos

A boa notícia é que estes prazos não impedem o trabalho dos cientistas sobre o novo coronavírus, afirma D'Enfert.

"Desacelera um pouco a investigação, mas não nos impede de avançar", explica. É possível, por exemplo, testar uma vacina em um rato normal e ver se produz anticorpos eficazes, explica o cientista.

Sua equipe tenta desenvolver os próprios ratos modificados e examina se alguns roedores disponíveis no Instituto Pasteur não teriam, por caso, genes sensíveis ao Sars-CoV-2.

Paralelamente, a empresa de biotecnologia GenOway, com sede em Lyon (França), busca criar outros modelos transgênicos, "mais pertinentes" que os ACE2. "Estamos em uma segunda geração, com um modelo 'relevante', que permite prever com precisão o que pode acontecer no organismo do homem", explica o diretor da empresa, Alexandre Fraichard, que espera contar com o novo rato no segundo semestre do ano.

"Além disso, tentamos preparar instrumentos mais vastos visando as próximas pandemias. Mas é um desafio a médio prazo, de vários anos. Os modelos de ratos não são produzidos tão facilmente, como se fosse um simples celular", observa.

China, Rússia e Austrália

Entre os países mais poderosos do mundo, há uma disputa acirrada. A China já começou os testes clínicos de uma vacina contra o novo coronavírus com 108 voluntários. Em um tom nacionalista, um editorial do jornal chinês em língua inglesa Global Times publicado afirmou que "desenvolver uma vacina é uma batalha que a China não pode permitir-se perder".

Multinacionais farmacêuticas já se comprometeram a desenvolver uma vacina contra a Covid-19 em um tempo estimado de 12 a 18 meses no mínimo. A Rússia também começou a testar uma vacina em animais. Os primeiros resultados devem ser conhecidos em junho. A China forneceu à Rússia o genoma da Covid-19.

Ontem, uma equipe de cientistas australianos anunciou que decidiu testar em larga escala uma vacina usada durante décadas contra a tuberculose para comprovar se é capaz de imunizar profissionais de saúde para o novo coronavírus. O teste desta vacina, a BCG, será feita com 4 mil trabalhadores de hospitais para verificar sua capacidade de reduzir os sintomas da Covid-19, informaram os pesquisadores do Instituto Murdoch em Melbourne. Serão feitos testes similares na Holanda, Alemanha e Reino Unido.

Suicídio preocupa Cruz Vermelha

Enquanto os cientistas buscam uma vacina, movimentos humanitários começam a se preocupam com o agravamento da saúde mental no planeta e os maiores riscos de suicídio devido à pandemia do novo coronavírus.

A Cruz Vermelha fez um chamado, ontem, para que se aumente o apoio psicológico às equipes de saúde e para o resto das pessoas envolvidas no combate à pandemia. O presidente da Federação Internacional de Sociedades da Cruz Vermelha e da Crescente Vermelha (IFRC), Francesco Rocca, explicou, ontem, que "o risco de suicídio aumenta quando as pessoas estão isoladas".

O isolamento eleva os níveis de depressão e ansiedade. Para "as pessoas frágeis, o isolamento tem inúmeras consequências", disse, ao dar como exemplo o caso de uma enfermeira italiana que se suicidou após testar positivo para a Covid-19.


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