Biden e Sanders se chocam em política externa no último debate antes das primárias nos EUA

Apesar das expectativas dos últimos dias de que os candidatos trocariam farpas e acusações, o debate transcorreu dentro de uma fria cordialidade

Legenda: Joe Biden e Bernie Sanders, da esquerda para a direita
Foto: AFP

Seis pré-candidatos democratas voltaram a se enfrentar, nesta terça-feira (14), no último debate antes do início das primárias nos Estados Unidos, marcado pela disputa entre o ex-vice-presidente Joe Biden e o senador progressista Bernie Sanders.

Apesar das expectativas dos últimos dias de que os candidatos trocariam farpas e acusações, o debate transcorreu dentro de uma fria cordialidade, rompida apenas no final, quando Elizabeth Warren pareceu se negar, na despedida, a apertar a mão de Sanders.

O último debate antes do "caucus" em Iowa, no mês de fevereiro, começou centrado na política externa: o papel das tropas americanas distribuídas pelo mundo, no momento da crescente tensão entre Estados Unidos e Irã.

Biden, vice de Barack Obama, chega como favorito em nível nacional, com 28%, seguido de Sanders (20%), conforme a média de pesquisas coletada pelo site RealClearPolitics (RCP).

"Como Nação, temos que enfrentar o fato de que os dois maiores desastres desta era na política externa - a Guerra de Vietnã e a Guerra do Iraque - estavam baseados em mentiras", disse Sanders, ao advertir que a atual tensão com o Irã pode desencadear outro conflito deste tipo.

Sanders recordou seu voto em 2002 contra a Guerra no Iraque, enquanto Biden teve de explicar novamente seu aval a esta intervenção militar. O ex-vice de Obama recordou que seu filho, já falecido, serviu como militar.

Biden lembrou que foi o governo de Obama que firmou o acordo nuclear com o Irã, o pacto multilateral que o atual presidente americano, Donald Trump, rompeu.

Em terceiro nas pesquisas, Warren lembrou ser a favor da retirada das tropas americanas do Oriente Médio.

Em outro momento, Biden e Sanders voltaram a se chocar em matéria comercial. Para o senador progressista, os acordos foram escritos para aumentar os lucros das "grandes corporações multinacionais".

Com 7,5% das intenções de voto, o ex-prefeito de South Bend Pete Buttigieg afirmou que suas credenciais como veterano no Afeganistão vão ajudá-lo na Casa Branca. Também defendeu que é impossível derrotar Trump "com a mesma mentalidade de Washington".

A senadora moderada Amy Klobuchar, com 3%, destacou seu conhecimento do contexto mundial e sua experiência no Congresso. Já o magnata Tom Steyer, com 2%, apontou sua visão de empresário que defende o meio ambiente.

A campanha teve início com um número recorde de aspirantes à indicação do partido para disputar a Casa Branca com o presidente em busca da reeleição em novembro, o republicano Donald Trump. Desta vez, apenas seis candidatos atingiram os critérios mínimos para subir ao palco na Universidade Drake, em Iowa.

Isso equivale a menos de um terço dos que se qualificaram para participar do primeiro debate transmitido pela televisão, em junho passado. Foram tantos nomes que o programa teve de ser dividido em dois dias, com dez pré-candidatos em cada um.

Além do Irã, o debate abordou mudança climática, luta contra a violência pelas armas de fogo e reforma do sistema de saúde dos Estados Unidos.

Sanders avança 
Iowa será o primeiro estado do país a se pronunciar nas primárias, em 3 de fevereiro. Nas pesquisas, neste estado rural que decide seu candidato por meio do "caucus" (uma espécie de assembleia), há um empate técnico entre Biden (20,7%), Sanders (20,3%), Buttigieg (18,7%) e a senadora Elizabeth Warren (16%).

Sanders deslanchou nos últimos meses, superando as dúvidas, após sofrer um infarto em outubro. Depois de fechar 2019 com números impressionantes de arrecadação, no fim de semana, sua equipe de campanha se lançou contra outros candidatos, apontando o dedo para Biden com seu voto a favor da guerra no Iraque em 2002.

O senador progressista defende um sistema de cobertura de saúde universal, um plano de luta contra o aquecimento climático e o cancelamento de parte das dívidas estudantis. "Meu socialismo democrático consiste em acreditar que a saúde é um direito humano", sentenciou, diante dos questionamentos de Biden.

Além disso, propõe uma moratória para as deportações e um sistema migratório aberto para os refugiados, em um momento no qual o governo Trump restringe as chegadas de estrangeiros.

Sanders x Warren

Com seu avanço nas pesquisas, surgiram vazamentos sobre sua campanha que complicam sua posição. Até agora, Sanders evitou se chocar com Warren, já que são politicamente próximos e dizem ser amigos de longa data.

No último fim de semana, porém, o site Politico publicou uma matéria, descrevendo como os voluntários da campanha de Sanders são treinados para destacar pontos fracos da senadora. Warren reagiu, manifestando sua "decepção" à imprensa.

Os moderadores do debate buscaram estimular e expor sem sucesso as divergências entre Sanders e Warren, ainda que, na despedida do programa, a linguagem corporal de ambos tenha sido um indicativo bastante expressivo da tensão atual.

Enquanto isso, Trump parece se comprazer com os conflitos, os quais comenta com frequência. "Todo mundo sabe que sua campanha está morta", afirmou, referindo-se ao declínio de Warren nas pesquisas. Depois, divertiu-se com um possível distanciamento entre Warren e Sanders.

Já Biden chegou fortalecido ao debate. Vem contando com o apoio de vários congressistas jovens, que defendem-no como a melhor opção para recuperar eleitores que decidiram votar em Trump em 2016. Mas aos 77 anos, o ex-vice precisa superar as reservas quanto à sua idade e a seu equilíbrio e saúde mental, alimentadas por suas gafes recorrentes.

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