Acordos entre governos de países ricos e laboratórios de vacinas contra Covid-19 se multiplicam

EUA e União Europeia fecham contratos para garantir acesso ao antídoto. Há o risco de os países mais pobres ficarem no fim da fila da vacina da Covid-19

Legenda: Países mais ricos correm para assegurar doses das futuras vacinas em desenvolvimento
Foto: AFP

A competição entre as nações mais ricas para tentar garantir acesso a uma possível vacina contra a Covid-19 alimenta os temores de que os países mais pobres ou em desenvolvimento, que não têm os meios para financiar contratos tão grandes com os laboratórios farmacêuticos, sejam os últimos a receberem o antídoto.

Em meados de julho, o Conselho de Direitos Humanos da ONU adotou uma resolução, declarando que qualquer vacina contra a pandemia da Covid-19 deve ser considerada "um bem público global". O órgão insistiu na necessidade de "acesso rápido, justo e sem obstáculos a medicamentos, vacinas, diagnósticos e terapias seguros, acessíveis, eficazes e de qualidade".

De lá para cá, no entanto, multiplicaram-se os contratos das potencias mundiais para garantir doses de uma futura vacina. Os EUA, por exemplo, fecharam um acordo de US$ 2,1 bilhões com as farmacêuticas Sanofi e GlaxoSmithKline (GSK) para a produção de 100 milhões de doses de uma futura vacina contra a Covid-19, de acordo com comunicado divulgado ontem.

Do montante disponibilizado pelo Governo norte-americano, mais da metade vai financiar o desenvolvimento da vacina. O restante equivale ao fornecimento das doses.

Pelos cálculos das farmacêuticas, as fases 1 e 2 devem acontecer já em setembro deste ano, e a fase 3, até o fim de 2020. Se os dados forem positivos, a aprovação regulatória pode ser solicitada na primeira metade de 2021.

Sanofi e GSK informaram ainda que pretendem ampliar gradativamente a capacidade de produção do antígeno e oferecer até um bilhão de doses por ano globalmente, caso os estudos se mostrem eficazes.

"A necessidade global de uma vacina para ajudar a prevenir a Covid-19 é enorme, e nenhuma vacina ou empresa será capaz de atender sozinha a demanda global", diz Thomas Triomphe, vice-presidente executivo da Sanofi.

Recentemente, os EUA fecharam um acordo com as farmacêuticas Pfizer e BioNTech para entrega de outras 100 milhões de doses de uma futura vacina contra o coronavírus.

Antes desse novo acordo, os EUA já haviam gasto mais de US$ 6 bilhões desde março para financiar projetos competitivos, em laboratórios como Johnson & Johnson, Pfizer e AstraZeneca (de cujos ensaios o Brasil participou), e em duas pequenas empresas de biotecnologia, Novavax e Moderna.

União Europeia

Também ontem, a Comissão Europeia informou que reservou, em nome de seus 27 Estados-membros, 300 milhões de doses da vacina contra a Covid-19 que está sendo preparada pela Sanofi.

O Executivo europeu também mantém "intensas negociações" com outros fabricantes, conforme declaração divulgada ontem. "O contrato com Sanofi dará uma opção a todos os Estados-membros para comprarem a vacina", explicou a Comissão.

"Embora não saibamos, na data de hoje, qual vacina será a mais eficaz, a Europa investe em um portfólio diversificado de vacinas promissoras, baseadas em diferentes tecnologias. Isso aumenta nossas chances de obter rapidamente um remédio eficaz contra o vírus", afirmou a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen.

OMS

A disponibilidade de uma vacina eficaz é aguardada com muita ansiedade. Ontem, completaram seis meses desde o primeiro alerta da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 30 de janeiro.

"Essa pandemia é uma crise de saúde que só se vive uma vez por século, e seus efeitos serão sentidos por décadas", disse o chefe da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

Desconfiança

O infectologista Anthony Fauci, conselheiro de saúde da Casa Branca, expressou, ontem, preocupação com a segurança das vacinas contra a Covid-19 que estão em desenvolvimento pela China e Rússia.

“Espero que os chineses e os russos estejam realmente testando a vacina antes de aplicá-la de fato em alguém”, disse.

“As alegações sobre ter uma vacina pronta para ser distribuída antes de que os testes sejam feitos é algo que, na melhor das hipóteses, é problemático. Não acredito que existirão vacinas tão a nossa frente a ponto de termos que depender de outros países para conseguir vacinas”.

 


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