Unidades pós-Covid fizeram mil atendimentos a pacientes no Ceará

Mesmo após alta hospitalar, algumas pessoas permanecem relatando sintomas e voltam a ser atendidas em unidades de saúde. Médicos explicam que o período de recorrência e tratamentos específicos ainda são indefinidos

Legenda: Ambulatório pós-Covid no Hospital de Messejana recebe cerca de 25 pacientes por mês egressos da internação
Foto: FOTO: JESSICA FORTES

Para algumas pessoas, a alta hospitalar da Covid-19 não foi suficiente para acabar com os sintomas da doença, porque possíveis sequelas da enfermidade persistem e exigem a continuidade de atendimento médico especializado. Na rede estadual do Ceará, duas unidades de saúde são referência nesse pós-atendimento: o Hospital São José (HSJ) e o Hospital de Messejana (HM), ambos em Fortaleza. Além disso, há uma unidade municipal em Sobral. Juntas, elas já realizaram 1.069 atendimentos..

Conforme a plataforma IntegraSUS, da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), 243.267 pessoas foram consideradas curadas da Covid-19 desde o início da pandemia até a última terça-feira (17). Destas, 8.010 evoluíram para alta após internação hospitalar, segundo informado ao Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica (Sivep).

 

O HSJ iniciou o acolhimento no ambulatório para retorno de pacientes de Covid-19 no fim de abril. Desde então, segundo a coordenação, já foram realizados 318 atendimentos, com média de 50 consultas mensais. "Até o fim de novembro, a unidade tem 56 consultas já marcadas. A orientação dada pela equipe médica é que os pacientes, mesmo os assintomáticos, retornem regularmente para o acompanhamento", informa.

A periodicidade das consultas é definida caso a caso. No local, os pacientes são acompanhados por uma equipe multidisciplinar que inclui profissionais da área médica, da enfermagem, da psicologia e do serviço social. A infectologista do HSJ, Melissa Medeiros, explica que o acompanhamento das pessoas deve se dar entre seis meses e um ano, embora não se saiba por quanto tempo os sintomas podem persistir.

"Alguns se queixam de tosse, um pouco de cansaço, principalmente aos esforços médios e maiores. Outros têm dores articulares, sensação do cheiro e paladar dificultada, descontrole do diabetes ou da hipertensão", enumera a médica. Relatos comuns também incluem perda de memória, "um nevoamento do cérebro", mas Melissa aponta que isso não necessariamente ocorre pelo ataque do vírus, mas pela fadiga, "já que é uma doença que libera muita adrenalina e gera cansaço".

Diana Arrais de Souza, pneumologista responsável pelos atendimentos do ambulatório pós-Covid no Hospital de Messejana, complementa que queda de cabelo e dor torácica são outras queixas verificadas no dia a dia entre pacientes egressos da internação na unidade. De julho a outubro, o HM realizou 132 atendimentos. Segundo a médica, são recebidos entre 20 e 25 pacientes mensais.

"Não existe um tratamento específico comprovado, então fazemos tudo baseados no conhecimento prévio de outras doenças, incluindo corticoides e broncodilatadores. A maioria acaba melhorando aos poucos, mas é lento", observa. O perfil geral dos assistidos é de meia idade a idosos, em condição social vulnerável, com "leve predominância" para mulheres.

Segundo Diana, foram efetivadas poucas altas até agora, como medida de supervisão. "A ideia é acompanhá-los por, pelo menos, um ano. A gente pretende realizar exames mesmo quando os pacientes dizem que estão bem, com raio-X, tomografia de controle, para avaliar se existe algum tipo de sequela. Mas, pelo que vi, tem pacientes que vão ficar por mais tempo", constata. O retorno varia entre um e três meses depois da primeira consulta na unidade.

Busca

A vendedora de cosméticos Maria Célia Rodrigues, 56 anos, foi uma das pacientes salvas no hospital de campanha do Estádio Presidente Vargas, na Capital, onde chegou a ficar na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) com 90% dos pulmões comprometidos, no mês de maio. Aos poucos, em junho, o quadro clínico dela foi melhorando até receber alta. Contudo, cinco meses depois, Célia revela que ainda sofre as consequências da infecção pela doença pandêmica.

A queda de cabelo - "achei que ia ficar careca" - parou recentemente, com a ingestão de vitaminas recomendada após consultas médicas, mas elas não conseguiram suspender a indisposição. "Hoje vivo cansada, não tenho mais saúde. Fiquei com as pernas fracas e não aguento ficar muito tempo em pé porque elas começam a doer", relata.

Em Fortaleza, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) informou que os usuários que persistem com sintomas da Covid-19 podem buscar qualquer um dos 116 postos de saúde da cidade ou as seis Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) municipais. "Em casos de atendimento especializado, a Capital conta com quatro Policlínicas, unidades especializadas de apoio diagnóstico", completa.

Na Região Norte do Ceará, existe uma unidade pós-Covid no Hospital de Campanha Dr. Francisco Alves, em Sobral. De 28 de julho, quando iniciou as atividades, até o dia 13 de novembro, foram realizadas 619 consultas, segundo Tarciana Ferreira Serafim, diretora geral da unidade. Ela explica que não se pode fazer uma média porque "por ser um serviço novo, iniciamos com um número reduzido e estamos nos aperfeiçoando".

O serviço funciona por meio de busca ativa através de uma lista disponibilizada por hospitais que mantêm parceria com o Ambulatório. Segundo Tarciana, esse processo não gera filas porque é possível organizar a demanda de atendimento. Atualmente, 79 pacientes continuam sendo acompanhados e há 71 retornos programados.

No caso de demandas respiratórias, um fisioterapeuta realiza a avaliação do paciente junto com um médico pneumologista e as sessões fisioterápicas são realizadas no Centro de Reabilitação de Sobral, entidade parceira que oferece ainda fonoaudiologia e nutrição. Também há direcionamento a Centros de Atenção Psicossocial (Caps) para demandas nas área de psicologia e psiquiatria.

Acompanhamento

A Covid-19 levou até mesmo a uma mudança no perfil socioeconômico de atendidos no Hospital São José, segundo a infectologista Melissa Medeiros. "Nossos pacientes têm alta do hospital, embora a gente também atenda a pacientes com planos de saúde que se internaram tanto pela confiança no nosso serviço quanto pela indisponibilidade de leitos e proximidade com a residência. A maioria tem acima de 40 anos de idade", informa.

Já no HM, a demanda "varia muito", segundo a médica Diana Arrais, inclusive por um trabalho interno de divulgação dentro da unidade. "Estamos tentando deixar claro que existe esse fluxo, mas muitas vezes os pacientes não são encaminhados. No início, tínhamos muito 'primeira vez'. Agora, voltou a aumentar e temos mais retorno", diz.

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