Um novo olhar

Legenda: A nossa Fortaleza de prédios, avenidas, brisa e mar busca uma nova configuração no decorrer desses mais de 80 dias de pandemia
Foto: Gustavo Pellizzon

Mais um nascer do Sol na capital cearense. A nossa Fortaleza de prédios, avenidas, brisa e mar busca uma nova configuração no decorrer desses mais de oitenta dias nos quais fomos surpreendidos por essa doença que insiste em desviar os rumos de nossas vidas. Aos poucos, a cidade tenta iniciar um "novo normal", mesmo que este ainda pareça meio distante da realidade.

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As sirenes que feriam meus ouvidos quando passavam na Avenida Treze de Maio, onde eu moro, hoje parecem mais silenciosas, menos frequentes, o que também é um respiro ao meu coração aflito e ansioso por mudanças. Aliás, o que mais tenho aprendido no decorrer dessas semanas é adaptar-me à imprecisa rotina sem planos, vivendo um dia por vez.

Tudo mudou. Seja a forma de trabalho, a maneira de se confraternizar com os amigos, de transitar nas ruas, e até mesmo de se vestir. Um novo olhar termina por se configurar diante de todo o caos, a começar pelo ato de sorrir, já que agora os olhos carregam o dever de demonstrar o sentimento, pois os lábios cobertos por máscaras mal exercessem seu dever.

Olho a cidade da varanda do meu apartamento e me vem o trecho da música do Belchior: "tenho pressa de viver". Quero saborear o gosto do sal das águas de Iracema, ver as jangadas nos fins de tarde do Mucuripe, vivenciar as noites nos bares da Rua dos Tabajaras ou até mesmo a comunhão dominical nas missas da tão querida Igreja de Fátima. Porém, esse mesmo olhar me exige paciência e vai mostrando que todos esses elementos habitam em minha memória e vivem dentro de mim.

Nesses tempos difíceis, um olhar delicado e leve se torna uma tática de sobrevivência. Olho no espelho e já não sou o mesmo, barba longa, cabelo crescido... Sim, eu que sempre fui tão vaidoso vou aos poucos me desprendendo dessas amarras, meu olhar interno prevalece, meu reflexo é a imensidão de sensações que habitam no meu peito e vão se transformando em cartas de amor, versos de músicas ou espasmos de poesias.

Sonhos

Além da minha mãe, Dona Marly, amiga de vida e de quarentena, me fazem companhia sonhos, pensamentos, expectativas.

E esse olhar repleto de esperança passou a ser mais forte do que o pessimismo no qual às vezes encaro os dias "comuns". Olhar para o futuro se tornou desejo pelo passado, quero reviver todas as alegrias que tive nessa vida de tantas surpresas.

Deparo-me com a vida que agora exige a percepção de detalhes nunca vistos (ou pelo menos não valorizados). É admirar o botão da flor que nasce no quintal da vizinha da frente, os passarinhos que cedo da manhã pousam na minha janela, ou o olhar sincero da minha cadela Nina, clamando um pouco de carinho. É apreciar o silêncio do vento, e por vezes parar para escutar o que diz o meu coração. É ficar atento aos sinais, mesmo que estes não digam absolutamente nada.

A forma de ver a vida se ressignificou, assim como os sonhos, as metas e o simples. Alimentar saudade virou também uma nova visão de que nossa existência é curta e que o amanhã é sempre uma incógnita. Celebrar o hoje passou a ser parte do meu processo de sobrevivência e rememorar momentos felizes é minha força de continuar e a paciência para pazear.

Sigo aqui da varanda vendo a cidade, e no meio destas minhas palavras encerrou-se mais um dia, o sol adormece no horizonte enquanto a lua se desperta no céu estrelado. Eu prevaleço à espera de um novo nascer, de um novo sonho, um novo olhar, um novo amanhã e quem sabe até um novo amor, torcendo sempre para que estes tragam anúncios de tempos melhores!

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