Trânsito da Capital está em 90% da média registrada antes da Covid

Regionais III, IV e V possuem maior movimentação na cidade com 92,7%, 91,6% e 95,4%, respectivamente, da média observada antes da propagação do novo coronavírus e concentram bairros com maior número de óbitos

Legenda: Trânsito em Fortaleza está voltando, aos poucos, a níveis de antes da pandemia do novo coronavírus atingir a Capital
Foto: Helene Santos

Quase três meses após o início do plano de flexibilização das atividades econômicas em Fortaleza, no dia 1º de junho, as ruas e avenidas da Capital registram 89,1% do fluxo veicular observado antes da propagação do novo coronavírus. Este é o índice mais recente do monitoramento da Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC), feito entre os dias 13 e 19 deste mês. No detalhamento da cidade, observa-se maior uso dos carros e motos nas Regionais III (92,7%), IV (91,6%) e V (95,4%) com médias bem próximas daquelas anteriores às recomendações de distanciamento. (Veja no gráfico abaixo)

As localidades coincidem com os espaços onde a Covid-19 evidencia maior preocupação pela concentração de mortes, contabilizadas no último boletim epidemiológico da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), divulgado no dia 14. "Observa-se a presença de diversos aglomerados concentrados em bairros das Regionais I, ocupando quase toda área, e II. Outros 'clusters' (grupos) dispersos são identificados em bairros das regionais III (Quintino Cunha, Autran Nunes e Pici), IV (Vila União e Serrinha) e V (Grande Bom Jardim, Planalto Airton Sena, Parque São José e José Walter)", detalha o documento da Prefeitura.

Os dados de trânsito são gerados a partir dos equipamentos de fiscalização eletrônica das principais vias da Capital e estão em estabilidade há duas semanas, como observa Dante Rosado, coordenador da Iniciativa Bloomberg de Segurança Viária Global em Fortaleza. "São retratos das vias arteriais. Existem ainda as vias coletoras e vias locais. Porque normalmente quando a gente observa uma situação de congestionamento, os condutores acabam procurando rotas alternativas para tentar evitar aquele congestionamento, então, mesmo o fluxo aumentando, ainda tem essa pequena sobrevida que as vias coletoras podem absorver", explica o gestor.

Juliana Coelho, gerente da Central de Monitoramento de Tráfego da AMC, analisa que as Regionais V e VI registraram os menores índices de isolamento social mesmo no pico da pandemia do novo coronavírus na cidade. "Agora o volume continua praticamente normal nessas regiões mais isoladas. Eu vejo que essas pessoas que moram mais distantes da região central geralmente trabalham no Centro e na Aldeota, e precisam se deslocar para o seu trabalho".

Na tela do monitoramento atual da cidade há um cenário semelhante ao visto durante as férias escolares, como destaca a gerente. "Em janeiro, julho e dezembro, a gente teria uma queda normal de 15%. Então, agora em agosto, é como se tivesse nesse período, mas tem algumas regiões da cidade que concentravam um fluxo grande, como o Centro e a gente ainda está percebendo que não voltou ao normal". Na Regional Centro, os índices estão cerca de 22% abaixo do comumente observado.

Adaptação

Dante Rosado observa que entre as mudanças nas rotinas de deslocamentos da cidade está a priorização do carro e da moto. "Há tendência de migração do transporte público coletivo para transportes individuais. As pessoas naturalmente, por receio, aos que conseguirem fazer isso, vão tender a evitar o transporte público, porque é considerado potencial de transmissão (da Covid-19)."

Nessa linha de pensamento, Camila Corrêa, de 35 anos, resolveu trocar os ônibus pelo transporte privado e a caminhada para fazer o trajeto Centro-Aldeota desde que retornou ao trabalho presencial em junho. "Por eu morar com minha mãe, do grupo de risco, estou procurando me precaver de todas as formas. Antes de voltar a trabalhar no escritório, tinha visto nos jornais que os ônibus estavam lotados. Como não consigo acreditar que todos ali estão se cuidado, busquei uma alternativa", ressalta a analista de Recursos Humanos.

Desde então, os gráficos que mostram o aumento progressivo do número de carros e motos nas ruas são acompanhados pela Camila em sua rotina. "Em junho ainda tava tudo bem parado. Do meio de julho pra cá tenho visto um movimento normal. Eu trabalho até 17h. Quando vou caminhando na rua, vejo todas as paradas e ônibus cheios. Vejo que muitas empresas estão encerrando as atividades às 17h, talvez por isso tenho visto um movimento maior quando saio do trabalho".

Ainda assim as viagens costumam ser tranquilas e rápidas, como avalia Camila, por morar perto do trabalho. O impacto da alternativa é sentido no bolso com o aumento do valor das viagens neste período, mas deve continuar sendo a escolha até que seja garantida a imunização da sua mãe. Quem não pode recorrer ao transporte privado encontra nas ruas 75% da frota de ônibus, de acordo com a Empresa de Transporte Urbano de Fortaleza (Etufor).

Em nota, a Etufor informa que solicitou o retorno de 100% da frota ao Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Ceará (Sindiônibus) e "aguarda a adoção dos ajustes necessários a serem realizados, como a mobilização da mão de obra, revisão de veículos, dentre outros". Conforme os dados da Etufor, a demanda de passageiros na fase 4 da retomada gradual da economia "mantém-se em 49%, ou seja, 450 mil passageiros/dia, enquanto que antes da pandemia chegava a 1 milhão de passageiros/dia".

O dimensionamento da quantidade de ônibus é feito de acordo com a demanda dos usuários em consideração aos horários diferenciados de funcionamento das atividades liberadas, como explica a Empresa. "A Etufor acompanha diariamente a movimentação para reforçar as linhas de maior demanda com ônibus extra em todos os terminais. Todas as medidas de segurança e higiene continuam sendo adotadas, como organização da frota para evitar aglomeração, higienização dos veículos nos terminais e nas garagens, fornecimento de álcool em gel", acrescenta.

Consequências

Priorizar os carros ou motos como transporte pode ter efeitos não só na ampliação do congestionamento, mas na poluição do ar e nas taxas de acidente de trânsito, como avalia Dante Rosado. "Essa migração preocupa porque se isso acontecer para motocicleta, por exemplo, a probabilidade é que os acidentes aumentem. A cidade nos últimos cinco anos tem grandes progressos na redução de mortes e a gente não queria que esse progresso fosse revertido em função do aumento da motocicleta".

Quando possível, o uso da bicicleta e da caminhada aparecem como as alternativas mais indicadas, mas em todos os casos as orientações de segurança, conhecidas antes da pandemia, continuam válidas. "É importante que a fiscalização dos comportamentos de risco seja mantida para garantir que, de fato, quando a situação estiver retomada, as pessoas não esqueçam esses velhos hábitos. É importante que a população absorva os novos hábitos de lavar as mãos e usar máscaras, mas é importante também que quando elas tiverem se deslocando, elas lembrem dos velhos hábitos como não beber e dirigir, respeitar o limite de velocidade, promover uma direção segura", conclui.

 

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Redação 29 de Outubro de 2020
Redação 29 de Outubro de 2020