'Sufoco' da máscara e recreio fiscalizado: as diferenças e as saudades na nova rotina nas escolas

Após cerca de sete meses distantes, o retorno às salas exige adaptações. Mesmo com restrições, comunidade se diz aliviada em recuperar parte do dia a dia

Letícia e colegas precisaram se adaptar ao distanciamento físico nos momentos de interação na escola, após retorno ao presencial
Legenda: Letícia e colegas precisaram se adaptar ao distanciamento físico nos momentos de interação na escola, após retorno ao presencial
Foto: Foto: Helene Santos

Parece que já faz tempo demais, mas não: mais ou menos em fevereiro deste ano, primeiro dia de aula era sinônimo de aglomeração nas entradas das escolas, abraços desajeitados, sorrisos imensos à mostra, rodas de conversa para falar dos acontecimentos das férias, e salas de aula repletas de crianças e adolescentes. Uma pandemia - ou sete meses - depois e está tudo diferente: é preciso manter a distância, máscara no rosto, salas quase vazias e paciência para reaprender a ensinar, no caso de professores, e a captar os conteúdos, em se tratando de alunos.

Desde o dia 1º de outubro, quando foi autorizado, pelo Governo do Ceará, o retorno das aulas presenciais às turmas de 1º, 2º e 9º ano do ensino fundamental, além do 3º do ensino médio, Angelo Terceiro, 56, tem de aprender de novo, todos os dias, um ofício que já exerce há mais de 30 anos: o de professor de História. "É uma coisa ousada, o que estou fazendo. Estou redescobrindo, de novo, a minha maneira de dar aula. Primeiro, era só por vídeo. Agora, que alguns alunos estão de volta, temos as aulas híbridas. É desafiador", pontua.

Após o impacto inicial causado pelas mudanças da volta às aulas - como o uso ininterrupto de máscara facial e de microfone, para a transmissão online dos conteúdos -, veio um respiro "aliviado" que somente a escola pode proporcionar: a presença dos alunos. "O contato com eles foi o que mais me fez falta, e mesmo com os poucos alunos que estão vindo, senti muita diferença. Apesar disso, ainda sinto saudades daquela aula interativa, participativa, discursiva, com debates", emociona-se Angelo, descrevendo a sala de aula vazia como "uma ilha" em que viveu sozinho, até o retorno dos adolescentes.

O sentimento de "alívio" de retornar a uma rotina um pouco mais próxima da normal também é mencionado pelo estudante Thyago Costa, 18, que cursa o 3º ano do ensino médio em uma escola privada da Capital. "Esse modo online de estudar, mesmo a tecnologia provendo muitos caminhos bons pra educação, não nos oferece aquela situação que só o presencial pode permitir ao aluno: a coletividade. É ótimo pode voltar pra perto dos professores e alunos".

Mudanças

A sensação esbarra, porém, em todas as adaptações obrigatórias que as instituições de ensino precisaram adotar para evitar contaminação da comunidade escolar pelo novo coronavírus. Voltar "pra perto", então, como disse Thyago, é só força de expressão. "O que mais tá pegando é a máscara, que é muito sufocante, e manter a distância de 1,5 m dos amigos. A supervisão do nosso corpo docente em relação ao que fazemos dentro e fora de sala de aula ficou maior. No intervalo, a coordenação fica todo tempo em cima da gente, pedindo que se separe, se distancie. É ruim, sim, mas nossa segurança e saúde estão acima de tudo", reconhece o jovem.

O "recreio fiscalizado" precisou se tornar realidade também na escola de Letícia Dutra, 17, estudante pré-universitária. "A gente tem que chegar no colégio, colocar álcool na mão. Tem que ficar nas carteiras, com distanciamento total, e sempre que entra e sai de sala tem que passar álcool de novo. No recreio, cada turma tem o local específico pra passar o tempo e não se misturar. Não pode encostar em ninguém, os fiscais ficam direto em cima, cobrando espaçamento. Mas aos poucos a gente se acostuma", descreve.

Outra novidade do período é a necessidade de aulas híbridas. Como estuda nos dois turnos por estar no último ano do ensino médio, Letícia vai às aulas pela manhã e cumpre outra carga horária à tarde, em casa, pelo computador. "Apesar disso, gostei muito de as aulas terem voltado. Eu tinha muita dificuldade de estudar em casa, não tinha o mesmo ritmo, várias coisas distraem a gente. Tem a cama do lado, o celular perto. Voltar ao presencial me devolveu minha rotina e meu foco pra estudar de novo", relata a pré-universitária, que pretende cursar Fisioterapia na Universidade Federal do Ceará (UFC).

Medo

Além de alívio pelo retorno e saudade do que não se pode mais ter, estudantes e professores precisam conviver, ainda, com um sentimento insistente: o medo da Covid-19, diante de uma pandemia que ainda não acabou. "Mesmo havendo todas as medidas sanitárias, a gente ainda corre risco de contrair a doença. Pelos casos de antes, por tudo o que vimos, o medo fica e é enorme", assume Thyago.

"A gente teme tudo isso, porque é um vírus que nós ainda não sabemos como se comporta em cada pessoa. Tenho uma irmã que é do grupo de risco, e fiquei com medo por ela, por eu estar saindo de casa para a escola e voltando, podendo trazer a doença pra ela. Mas é preciso entender que, aos poucos, a gente precisa voltar ao normal, com todos os cuidados", emenda Letícia.

O pensamento é o mesmo de Fátima Costa, 41, professora de educação física de turmas do ensino fundamental. "Quando fomos avisados de que iríamos voltar, fomos testados, só voltava quem estivesse negativo. Os professores, os alunos não foram. Não sei se o aluno pegou e pode passar pra gente. O medo também envolve isso. Mas a gente precisa do medo da doença pra poder cuidar dos outros e da gente. Se eu não sentir medo, não vou usar máscara. Nem álcool em gel. É uma doença desconhecida. Medo existe, mas a gente tem que dominar isso", analisa a docente de educação física.

Por ensinar uma disciplina que requer corpo, contato e presença, Fátima enxerga mais pontos positivos do que negativos no retorno às salas de aula e quadras poliesportivas, após um período em que preciso transformar a própria sala de estar em espaço de trabalho. "Tive uma certa ansiedade sobre como eu iria dar aula, me comportar perante os alunos. Mas é tranquilo, com todas as medidas de segurança. Só senti um pouco de dificuldade por causa do abraçar. Eles chegam 'tia, bom dia!' e querem abraçar, mas não podemos. A máscara também me incomodou muito, muito, muito. Mas, apesar dela, os nossos olhos sorriem, né? A gente fala, sorri e se expressa com eles", conforma-se com a atual possibilidade.

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