Setembro Dourado: resistência e otimismo para vencer o câncer infantil

No Ceará, neste ano, 2.462 crianças e adolescentes foram atendidos pelo Centro Pediátrico do Câncer, no Hospital Peter Pan. Conheça histórias de luta e resistência de crianças que enfrentam o câncer

Legenda: Juan Yure descobriu o câncer aos seis anos, mas supera o tratamento com aulas de surfe
Foto: Foto: Camila Lima

Aos seis anos de idade, Juan Yure Carneiro teve de enfrentar um desafio muito mais difícil do que escolher um brinquedo, saber qual a brincadeira do dia com os amigos da rua ou a fazer tarefa da escola. Ele foi diagnosticado com osteossarcoma, um tipo de câncer ósseo que ataca as células formadoras dos ossos. Durante um jogo com seus primos, o pequeno acabou machucando a perna, o que mais tarde o levou a um raio-x que "não era algo muito bom", nas palavras de sua mãe, Jenniffer Gomes Carneiro.

Desde 2014, ano da descoberta, foram 25 sessões de quimioterapia no Centro Pediátrico do Câncer ou Hospital Peter Pan, unidade referência em tratamentos de crianças com câncer no Ceará. Hoje, Yure é uma das 2.462 crianças de 0 a 19, período em que se enquadra câncer infanto-juvenil, acompanhadas pela unidade, que surgiu de uma entidade sem fins lucrativos, a Associação Peter Pan.

O tratamento aconteceu entre dois anos de muita luta e uma amputação da perna direita de Juan devido a complicações em seu quadro de saúde. "Foi um momento terrível. Não tem outra palavra. Aquilo acabou com a gente no primeiro momento. Nós só vivíamos para ele quando ele estava internado. Foram dois anos de muita dor e aflição, mas nós tivemos muito apoio de familiares e do hospital", desabafa Jenniffer.

A chave para superar as fases de dificuldade, que já são difíceis por ser tratarem de câncer mas, mas se mostram muito dolorosas quando acontecem com os pequenos, foi a própria vontade de viver de Juan, segundo conta a sua mãe. "O próprio Juan nos deu força, sempre foi alegre e tinha fé". Jenniffer aponta ainda uma outra razão bem especial que serviu de incentivo e conforto durante o tratamento de Juan: o nascimento de sua segunda filha. "Foi uma surpresa para mim quando eu engravidei. A irmã dele foi uma terapia pra ele, ele sempre quis ter uma irmãzinha", comenta.

Sandra Emília Prazeres, médica oncologista e gerente técnica da Associação Peter Pan, explica que o câncer infantil não tem uma causa clara como em alguns casos da doença em adultos. "Na infância, os tipos de câncer que predominam são a leucemia e os tumores do sistema central. Acredita-se que estejam ligados às questões genéticas, mas não se pode afirmar concretamente", esclarece.

Ela destaca que o diagnóstico precoce, reforçado pela campanha do Setembro Dourado, é fundamental para aumentar as chances de cura das crianças. Segundo a especialista, normalmente os sintomas são confundidos com o de doenças simples que são recorrentes na infância como febre e dor de cabeça. "Qualquer sinal, sintoma, que a criança apresente de forma persistente é preciso pensar na possibilidade de câncer", alerta Sandra.

Entre os indícios, a médica oncologista fala em casos de febre persistente e dor de cabeça que não apresentam uma origem identificada. "Não é um sinal isolado, uma criança que está com um quadro desse fica mais quieta sonolenta e perdendo peso", acrescenta. Ela recomenda que um médico especialista em saúde da família ou pediatra sejam consultados para investigar a doença.

Superação

O acidente durante um momento de diversão levou a um diagnóstico que mudaria a vida de Juan e de sua família, mas que não limitaria, nem um pouco o seus sonhos. Em 2016, ele teve alta do hospital e passou a ser acompanhado em casa. Agora, ele faz exames a cada seis meses para monitorar o seu quadro de saúde.

Com tempo para desenvolver outras atividades, o menino engatou em um sonho que sempre teve: surfar. De família de surfistas, seu pai e seu tio, o menino, hoje com 10 anos, o morador do Bairro Cais do Porto, tem aulas de surfe semanalmente na PF Surf School, localizada na Praia do Futuro, por meio do Projeto A Maré Vida, que viabiliza a prática do esporte por pessoas com deficiência. Mesmo apenas com uma perna, Juan surfa do jeito que pode: sentado ou pé com ajuda de instrutores.

Ele conta ao Diário do Nordeste que o importante é estar no mar. "Me sinto livre e muito bem surfando. É muito bom saber que pessoas como eu podem surfar. Sempre foi meu sonho, já ganhei até medalha em campeonato", relata. A prática da atividade contribuiu para a autoestima da criança, segundo a mãe Jenniffer Gomes: "Ele diz q no mar se sente livre pra fazer o que quiser, não sente nem que tem só um perna".

Tal qual Juan, força e resistência são o combustível de Regis Feitosa Mota, 49, e de sua família. Devido a uma doença genética e hereditária, o economista e corretor de imóveis, repassou para os seus filhos, sem saber, uma alteração genética no gene TP53, que propicia o surgimento de cânceres, a Síndrome de Li-Fraumeni, descoberta após o aparecimento de câncer em seus três filhos.

Ana Carolina, a mais velha, teve leucemia aos 12 anos; Pedro Regis teve osteossarcoma aos 17 e sua mais nova, Beatriz Feitosa, também foi diagnosticada com leucemia, aos nove anos. O câncer da caçula foi descoberto em 2017 e acabou culminando em seu falecimento no ano seguinte, após um transplante de medula óssea que não foi bem-sucedido. Atualmente, Pedro luta com a volta do osteossarcoma desde 2018.

"O falecimento da Bia nos fez ficar mais próximos, nos fez ver que temos que viver a vida intensamente. Ele nos ensinou a ter garra e força para superar esses eventos. A partida dela nos ensinou muito por conta da força, da resiliência e resignação que a própria Bia teve durante o tratamento", pontua Regis Feitosa.

O economista fala sobre as dificuldades de lidar com o câncer de seus filhos, mas é categórico ao afirmar que o otimismo impera: "A gente não quer jamais ver um filho ou sofrer ou perder um filho, que foi o caso da Bia, mas a gente tem que ter muito otimismo. O apoio é fundamental. É tentar transformar sua dor em amor".

Desafios

Um grande desafio no tratamento das crianças está no tempo, conforme a médica Sandra Prazeres. Em alguns casos é preciso fazer uma pausa na medicação contra o câncer para que o corpo da criança possa se recuperar já que, além das células afetadas pela doença, as substâncias também afetam partes saudáveis. "O tratamento é longo, tem uns que chegam a durar três anos, porque vai depender muito da resposta do paciente. Se for um tratamento muito intensivo, com internamento hospitalares, precisa interrompido", conta.

Depois o paciente receber alta o acompanhamento segue por 10 anos para identificar possíveis indícios da doença. A especialista conta que nessa rotina, os profissionais da saúde acabam por criar vínculos com as crianças. "Na realidade, nós acabamos sendo escolhidos para trabalhar com essas crianças, que apesar de toda a dor, tem muito a ensinar para gente". Sandra reforça que câncer não significa morte e que hoje, com a estrutura de tratamento desenvolvida, "nós temos uma possibilidade de cura muito alta".

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Redação 23 de Setembro de 2020