Sete em cada dez cidades do Ceará adotaram barreiras sanitárias contra a Covid-19, diz pesquisa

Pesquisa da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) entrevistou 82 cidades cearenses, das quais 63 implantaram os bloqueios como medida de combate à Covid-19; quase 80% das localidades decretaram calamidade pública

Legenda: Barreira sanitária com medida de temperatura na entrada do município de Nova Olinda
Foto: Antonio Rodrigues

A urgência e o avanço rápido do novo coronavírus em Fortaleza e, assim, da capital ao interior do Ceará, exigiram respostas igualmente ágeis, como as barreiras sanitárias. A medida foi uma das mais adotadas por gestores de municípios cearenses, segundo pesquisa da Confederação Nacional dos Municípios (CNM), divulgada neste mês. Das 82 cidades do Estado que responderam à entidade sobre o combate à Covid-19, 63 (76,8%) realizaram os bloqueios como formas de conter a disseminação da doença pandêmica.

O levantamento foi realizado com mais de 4 mil municípios brasileiros, entre os meses de março e agosto, por meio de um questionário com as prefeituras e secretarias de municipais saúde. No Ceará, 44% das cidades contatadas enviaram respostas, amostra que, estatisticamente, segundo a CNM, se aproxima do resultado que seria obtido caso todas houvessem respondido à pesquisa.

As providências mais praticadas pelos gestores cearenses foram, além das blitze sanitárias nas entradas e saídas das cidades, as aplicações de normas sobre obrigatoriedade do uso de máscaras de proteção e de isolamento social, e de medidas restritivas para diminuição da frota de transporte público e da circulação de pessoas.

A determinação sobre isolamento social, com fechamento de todos os serviços não-essenciais no Ceará, foi decretada inicialmente pelo Governo do Estado, em março deste ano, e reforçada, com arrochos a nível municipal, por pelo menos 69 (84%) das cidades incluídas na pesquisa, segundo a CNM. Outras restrições para diminuir a circulação e evitar a aglomeração de pessoas foram adotadas por 78 dos gestores – os quatro restantes não responderam sobre a questão.

Por política interna, a CNM não revela quais municípios responderam ou não ao inquérito. Entretanto, no Ceará, pelo menos 30 cidades chegaram a restringir ou fiscalizar a entrada de não-residentes, ainda em abril: Alcântaras, Alto Santo, Aracati, Barroquinha, Beberibe, Camocim, Cariré, Ererê, Fortim, Guaramiranga, Icapuí, Icó, Iguatu, Ipu, Itatira, Jijoca de Jericoacoara, Meruoca, Mombaça, Morada Nova, Mulungu, Pacujá, Paracuru, Paraipaba, Piquet Carneiro, Pires Ferreira, São Gonçalo do Amarante, São Luís do Curu, Senador Pompeu, Trairi e Várzea Alegre.

Outras barreiras sanitárias funcionaram sob responsabilidade da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), em mais de 20 localidades, como em Caucaia, Maracanaú, Sobral e Fortaleza. Com o movimento “natural” de dispersão dos vírus das capitais e regiões metropolitanas ao interior, o objetivo das barreiras no Ceará foi minimizar o risco de transmissão do vírus entre as localidades ou retardar a velocidade da chegada às áreas mais remotas.

Impedir a contaminação, porém, “seria impossível”, como explica Luciano Pamplona, epidemiologista e professor do Departamento de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Ceará (UFC). 

“As barreiras sanitárias, assim como aquelas feitas em aeroportos, não têm 100% de eficiência. O problema é que pessoas acreditavam que elas seriam suficientes para impedir a entrada do vírus, e isso é impossível. Não conseguimos impedir nem as pessoas de se deslocarem, imagine um vírus, que não vemos”, pondera, apontando para a necessidade de alternativas complementares ao combate.

Ir e vir

Além das barreiras sanitárias, a redução da frota de transporte público foi outra medida restritiva para bloquear o trânsito do coronavírus pelo território cearense. Das cidades que responderam à pesquisa, 45 confirmaram ter diminuído a disponibilidade da frota – e 32 delas reduziram de 76% até 100% da circulação dos veículos coletivos.

Já sobre o uso obrigatório de máscaras faciais, 76 das cidades adotaram determinações próprias para garanti-lo. A norma, aliás, é válida para todo o Ceará, e quem se recusar a utilizar o dispositivo está sujeito a multa de até R$ 300, conforme a Lei nº 17.261, praticada desde 20 de agosto. Até o dia 7 de setembro, cerca de 27 mil pessoas já haviam sido abordadas pelo uso incorreto ou não uso de máscara: 147 se recusaram a adequar a conduta e foram multadas.

Para Eduardo Stranz, consultor da área técnica de estudos da CNM, a rapidez na tomada de atitudes das gestões locais – não só do Ceará, mas de todo o País – foi decisiva para retardar a contaminação nos interiores. Por outro lado, ele destaca que um “ingrediente” fundamental para eficácia ou não das medidas foi a impopularidade delas. “Um fenômeno que ficou evidente na pesquisa é que, passadas algumas semanas das restrições, a própria população que tinha entendido que era preciso fechar (os serviços não-essenciais), começou a pressionar para abrir”, observa.

Rilson Andrade, vice-presidente do Conselho das Secretarias Municipais de Saúde do Ceará (Cosems), pontua que, embora as barreiras sanitárias tenham sido imprescindíveis para frear o avanço da pandemia, “muitos furavam, avançavam com os carros”. Além disso, a implantação delas exigia custos. “Essa medida não era tão simples como parecia: havia toda uma estrutura, com material adequado, para oferecer ambiente de trabalho seguro aos profissionais. Houve custos”, resume.

Leitos

A ampliação da rede hospitalar de alta complexidade, medida que exige ainda mais recursos públicos, foi adotada por apenas 14 dos municípios entrevistados – outros 47 (75% da amostra) afirmaram não ter aumentado o número de leitos de UTI para tratamento da Covid-19. Apesar disso, 63 das cidades confirmaram a manutenção de uma “rede de leitos exclusiva”, constituída por vagas comuns.

Para Luciano Pamplona, o cenário é justificável, uma vez que “não se pode abrir ou criar leito novo de UTI num município onde não tinha estrutura de atenção terciária”.

“Abrir leito de UTI não é só ter espaço físico, mas profissionais habilitados. Não é fácil de ser feito de forma rápida. Por isso eles são concentrados em regiões mais desenvolvidas, pra dar suporte a um maior número de municípios”, finaliza.

O vice-presidente do Cosems ressalta que “nenhum município, rico ou pobre, estava preparado estrutural e financeiramente para a pandemia”, mas que houve esforços para adequar a rede – o que precisa ficar como “legado”.

“Ampliamos consideravelmente o número de leitos. Na região de Icó e Iguatu, não tínhamos nenhum leito de UTI para quase 500 mil habitantes. Hoje, são mais de 30 leitos, quase sempre 80% a 90% ocupados. Precisamos lutar para que permaneçam no pós-pandemia”, finaliza Rilson.

 

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Redação 29 de Outubro de 2020