Sesa busca propostas de ferramentas para prever curva da Covid-19

A pandemia reforça o uso de modelos matemáticos em projeções da área da saúde. Um concurso da Secretaria da Saúde recebe até 19 de novembro projetos de tecnologias que ajudem a antever a dinâmica da doença no Ceará

Escrito por Thatiany Nascimento, thatiany.nascimento@svm.com.br

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Legenda: Atualmente, a Secretaria da Saúde não utiliza formalmente nenhum modelo de análise para antever o comportamento da Covid-19 no Estado
Foto: Camila Lima

Usar dados do que ocorreu em meses anteriores e do que está acontecendo agora para prever como uma doença incidirá na população no futuro. Embora, no dia a dia, nem sempre a aplicação da matemática na saúde seja visualizada, em epidemias, ela é uma opção para antecipar o que poderá ocorrer. Os modelos preditivos, baseados em cálculos e estatísticas, são capazes de antever e simular, por exemplo, tendências de aumento de casos de doenças como a Covid-19.

No Ceará, onde, até terça-feira (9), havia 279 mil contaminações confirmadas, a Secretaria Estadual da Saúde (Sesa) está com um concurso aberto até 19 de novembro para acolher propostas de tecnologias e ferramentas que ajudem a entender o comportamento do novo coronavírus no Estado e possam prever o número de novas infecções.

Atualmente, a Secretaria da Saúde não utiliza formalmente nenhum modelo de análise para antever o comportamento da doença. O que tem sido feito é a avaliação das informações do IntegraSUS, plataforma digital da Sesa, na qual consta, dentre outros dados, a quantidade de pessoas contaminadas, mortas, internadas e recuperadas a cada dia, nos 184 municípios do Estado. Conforme o IntegraSUS, além das 279.322 confirmações de Covid, o Ceará teve 9.416 mortes devido à doença, até a manhã de terça-feira (9).

O coordenador de Tecnologia da Informação e Comunicação da Sesa, Ramsés Felipe de Oliveira, explica que o uso de dados do IntegraSUS garante a realização de análises descritivas e tem servido para orientar a tomada de decisão dos governos a partir do que se registrou nas semanas anteriores. É por meio desta avaliação que, se decide, por exemplo, se haverá avanço ou recuo na reabertura das atividades econômicas e sociais.

"Agora, quanto às análises preditivas nenhuma está sendo utilizada ainda, mas em estudos que estão acontecendo dentro da Secretaria da Saúde, a tendência é que a gente melhore esses estudos para validá-los", relata Ramsés.

Seleção

O concurso, lançado pela Sesa em 5 de outubro, conforme o edital, tem dentre os objetivos principais "entender o comportamento do SARS-CoV-2 no Ceará para prever o número total de pessoas infectadas, considerando a dinâmica populacional do processo saúde doença e disponibilizar informações para a sociedade, para ajudar na tomada de decisão dos governos municipal e estadual". As propostas serão acolhidas até dezembro.

A intenção é estimular pesquisadores a propor modelos que possam ser incorporados à rotina da Sesa e, com isso, ajudar no controle do cenário epidemiológico. O resultado será divulgado no dia 19 de dezembro.

Ao final do concurso, conforme Ramsés, não é possível assegurar que a Sesa terá um produto. No entanto, o edital garante que os participantes devem ficar cientes de que as ferramentas e tecnologias propostas poderão ser utilizadas pela gestão pública. Bem como, um modelo, para uso posterior, poderá ser elaborado por profissionais da Sesa com base nas propostas.

Esse tipo de iniciativa, geralmente, reúne epidemiologistas, estatísticos e cientistas de dados. O professor do Departamento de Engenharia de Informática da Universidade Federal do Ceará (UFC), André Férrer de Almeida, avalia que "essa conexão entre a área da saúde e universidade se intensificou com a pandemia exatamente pela necessidade que os órgãos do Governo têm de fazer previsão". Para ele, o desenvolvimento dessas análises comprova que "a universidade soube se mobilizar e aproveitar o momento".

Editais dos governos e das universidades, argumenta, refletem essa aproximação. "A pandemia fez as instituições perceberam a necessidade de a ciência estar junto. Nesse caso é a conexão entre a linguagem matemática e a área de saúde".

Nos modelos, a ser recebidos pela Sesa, os participantes podem usar dados disponíveis no IntegraSUS, como casos confirmados, idade, gênero, quantidade de óbitos e exames realizados, e também informações públicas, como as divulgadas pela Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, que faz monitoramento global da pandemia.

Variáveis

Questionado sobre quais dimensões (casos, mortes, taxas de exames, recuperados) o modelo preditivo deve levar em conta, o representante da Sesa, Ramsés explica que, cada proposição é específica para uma situação. Portanto, afirma ele, ainda não é possível dizer o que a proposta mais adequada irá considerar.

"Um exemplo, quando a gente mostrou num fórum de saúde o modelo para prever os incidentes no Samu, treinando o modelo de 2018 para ele prever para 2019, usamos variáveis x, y e z. Um outro estudante pode pegar por município, dia e a quantidade que teve, com três variáveis, e ter uma assertividade muito boa. Teremos pessoas que vão pegar só a quantidade de casos por dia e tentar montar um modelo, outras vão pegar números de internações, como a velocidade de um outro país pode influenciar na velocidade aqui do Ceará", reforça.

Estudo projetou pico de casos em maio na Capital

Um modelo matemático preditivo criado, no início da pandemia, pelo engenheiro elétrico e professor do Departamento de Engenharia de Teleinformática da Universidade Federal do Ceará (UFC), André Férrer de Almeida, chamado Sistema de Monitoramento Preditivo (Simop), acompanha a evolução da Covid-19 em Fortaleza.

Os sistemas clássicos de cálculos para antecipar cenários nas epidemias, explica ele, consideram, geralmente, as pessoas infectadas, as suscetíveis (que não contraíram a doença) e as recuperadas. No caso do Simop, André aprimorou essas dimensões e integrou também as informações sobre os pacientes assintomáticos, os testes, as hospitalizações, a saturação dos leitos e o impacto da subnotificação da doença na Capital.

Ainda em maio, o professor explicou que, se analisados somente os casos confirmados, o platô de infecção do novo coronavírus em Fortaleza ocorreria na segunda quinzena do mesmo mês, com estabilidade de casos em junho e redução nos meses seguintes. O pico do registro de casos da doença, de fato, em Fortaleza, ocorreu em maio, com redução no período subsequente.

O professor reforça que a utilização dos modelos matemáticos em favor da saúde só é possível, de modo geral, graças a dois fatores: a disponibilidade de dados aliada ao maior poder de processamento dos computadores na atualidade. "Sem dados confiáveis não tem como validar esses modelos preditivos", reforça. No caso do sistema criado pelo pesquisador, as informações utilizadas são da Secretaria Estadual da Saúde (Sesa). Caso os dados não estivessem disponíveis, qualquer análise preditiva, ressalta André, teria que ser feita de forma manual, o que dificultaria a aplicação dos modelos matemáticos e tornaria o trabalho de previsão bem mais complexo de ser executado.

Hoje, Fortaleza já registra 57 mil casos da doença e 3,9 mil mortes. Além disso, o professor ressalta que a Covid tem uma dinâmica muito específica, portanto, requer um modelo de análise mais aperfeiçoado. "Gripes e viroses não têm essas características", completa.

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