Sem escolas, volta ao trabalho é dilema para mães chefes de famílias

Além da sobrecarga de tarefas laborais e domésticas, mulheres cearenses lidam com desafio de garantir cuidados aos filhos na volta às atividades. Na periferia, dificuldades econômicas agravam cenário

Quando ficar em casa era possibilidade para a maioria, logo após o decreto de isolamento social no Ceará; para outra parcela, essa sempre foi uma realidade inimaginável. Já no retorno ao trabalho, as desigualdades se repetem: enquanto vários cearenses voltam gradativamente a seus postos, as mais de 1,4 milhão de mulheres chefes de família do Estado se veem em meio ao dilema: sem creches nem escolas, como garantir o sustento e, ao mesmo tempo, os cuidados aos filhos?

A diarista Naira Nascimento, apesar dos breves 19 anos de idade, conhece cada obstáculo imposto às mães solo antes e durante a pandemia. Em 2019, ela já representava um dos 1.476.000 domicílios comandados por mulheres no Ceará, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, mas viu as dificuldades serem ampliadas com a chegada do novo coronavírus.

"Eu só parei de trabalhar por uma semana, na pandemia. Mas a gente não pode parar, né? Não dá. Depois, voltei a trabalhar como diarista, em várias casas, mesmo com medo de pegar a doença. Tive que ficar revezando com quem deixaria meu filho", descreve a jovem. "Ele tá ficando com a minha vó, mas é complicado, porque ela já é uma senhora, tem artrose, fica cansada", lamenta.

Artur, de 1 ano e 8 meses, é matriculado em uma creche pública do bairro Bom Jardim, periferia onde mora com a mãe. Com a instituição fechada e a necessidade de manter a casa sozinha, Naira recorre, hoje, à avó e a uma tia, que cuidam do pequeno de segunda a sábado, de 9h às 18h, período do expediente dela em um apartamento no bairro Meireles, o mais nobre de Fortaleza. Para chegar ao trabalho, desistiu da espera de até duas horas por um "ônibus superlotado", e recorre, agora, a um "táxi amigo" para preservar as saúdes física e mental.

"É um gasto que eu nem poderia ter, mas é o jeito. No começo da pandemia, foi muito difícil, faltou dinheiro. Mas aí recebi o auxílio (emergencial). Se não tivesse recebido, não sei o que teria sido da gente. Têm dias que me pergunto como eu aguento toda essa rotina, sabe? Trabalhar pra pagar aluguel, água e luz não é viver, é sobreviver. Mas já vivi situações muito piores e melhorei, hoje tô na minha casa. E quando tudo isso passar, quero fazer minha faculdade", projeta a jovem.

Saúde mental

Em abril, no Ceará, quase 519 mil mulheres chefes de família receberam a primeira parcela do auxílio emergencial do Governo Federal, e outras 9 mil tiveram o benefício aprovado pela primeira vez em maio. Os números foram extraídos do Portal da Transparência da União pelo Núcleo de Dados do Sistema Verdes Mares, e consideram a quantidade de benefícios pagos no valor de R$ 1.200, concedidos apenas às chefes de família.

Para a vendedora ambulante Cristiane Soares, 41, o benefício teria sido providencial - mas nunca foi solicitado, porque ela perdeu o RG e ainda não conseguiu receber a segunda via. Sem nenhuma fonte de renda atualmente, já que trabalha vendendo bebidas em eventos, a mulher, moradora da periferia da cidade, precisa da ajuda de familiares para sustentar os filhos de 11 e 18 anos. "Meu companheiro trabalha fora, e mantinha a casa junto comigo, mas por eu não querer mais ele aqui, pra não passar a doença para os meus filhos, ele deixou de dar as coisas", declara.

As preocupações, então, vão além do financeiro, atingindo em cheio a saúde mental. "Minha filha de 11 anos tirava boas notas, tinha gosto de ir pra escola. Agora, tá estressada, porque estudar online não é a mesma coisa de estar com as coleguinhas. Eu também estava fazendo uma formação, e agora é online, é muito ruim. Às vezes, tomo até remédio pra dormir, por ter que cuidar de adolescente e de uma criança com a rotina toda mudada. Mas tenho que estar forte pra fortalecer eles", afirma Cristiane.

Para Celecina Sales, especialista em Políticas Públicas e coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Gênero, Idade e Família (Negif) da Universidade Federal do Ceará (UFC), a sobrecarga histórica de tarefas designadas às mulheres tende a piorar, no atual momento, agravando os efeitos à saúde mental. "Muitas mães estão sem sustento, principalmente as trabalhadoras autônomas e informais, e isso tem impactos econômicos, psicológicos e afetivos muito fortes. Isso acaba gerando violência das mães contra os filhos, desgastes nelas mesmas, avalia.

Conforme a especialista, as políticas públicas não podem ser generalistas: devem atentar às especificidades das chefes de família, para não penalizá-las diante do contexto. "O Estado sofre pressão pra que o comércio seja reaberto, e temos mesmo que pensar na questão da pobreza - mas também na de gênero, na territorial. Onde as mães vão deixar seus filhos?", frisa Celecina.

Diferenças

O dilema também impactou a família da advogada Adely Freitas, 38, diante do anúncio de que a empresa onde trabalha voltaria às atividades presenciais - mas, felizmente, pôde ser resolvido em diálogo com o esposo. "Tenho uma filha de 4 anos, e a minha sorte é que meu marido pode ficar com ela, em home office. Mas não foi fácil escolher quem ia ter que abrir mão de trabalhar no escritório e quem iria ficar em casa, se dividindo entre trabalho e a criação da nossa filha. Tivemos que sopesar", relata a advogada.

Apesar de ter como contar com o companheiro, Adely afirma ter sentido a dificuldade imposta pelo home office, nos dois meses em que permaneceu em isolamento domiciliar. "Eu me senti sobrecarregada inicialmente, mas depois as coisas foram se ajustando, fui me adaptando com o novo. A criança tendo a mãe dentro de casa fica querendo chamar atenção, dividir trabalho e criança no mesmo ambiente foi difícil".



Redação 09 de Agosto de 2020