Quando seremos inteiros de novo?

Legenda: Quanto tempo falta pra gente deixar de estar assim, incompleta, sucumbindo todo dia ao medo?
Foto: Foto: Helene Santos

É a pergunta de um milhão de dólares, embora essa moeda ou qualquer outra valha muito menos agora: quando vamos ser completos de novo?

A cidade tá toda assim, pela metade. Metade dos carros na rua, metade do movimento dos pés que iam e vinham todos os dias, metade da porta do comércio aberta. O outdoor da Domingos Olímpio também tá só pela metade. "Feliz Dia da Mulher", a mensagem. Reflexo rasgado e manchado de um tempo que parou.

Até o sol só vem na metade do dia - na outra, o céu assume aquela expressão triste, sombria. E, às vezes, até chora. A cidade tá toda assim, pelo meio, e a gente tá meio assim como a cidade, vivendo todo dia não-inteiro.

Com metade do rosto coberta, e o resto escondido no receio, mascarado de proteção. Os sorrisos saindo só pela metade, também, com espaço emprestado pelos olhos. É bonito demais um olhar que sorri - e grita! -, mas mais linda ainda é alegria que se mostra por inteiro. Quanto tempo falta pra gente deixar de estar assim, incompleta, sucumbindo todo dia ao medo?

Quando foi que, antes de tudo isso, um simples toque deixou de ser banal? Quando fez tanta falta? Quanto demorou pra gente perceber que, sem abraço, o peito bate pela metade, os cheiros não se misturam, o tempo não para nem por um segundo e a calma não vem? De quanta dor precisamos pra perceber que, sem abraço, cara, só a saudade fica inteira?

Tem gente até vivendo só com meio coração. A outra parte foi embora com quem não conseguiu - ou não podia mais - ficar nesse mundo todo quebrado. O nó na garganta, em vez de meio, fica completamente atado.

No Dia das Mães, então, não é preciso nem falar. O choro brotou das janelas, das varandas, da escada do apartamento, das meias-distâncias. E as telas, então, se partiram em duas metades na tentativa de juntar um amor que tem ânsia de ser completo.

Eu mesma vivo metade aqui, no meu apartamento, metade lá na casa da minha mãe. Às vezes tô toda lá, em pensamento, e nenhuma vez tô toda aqui. Não tô inteira em nenhum lugar, nem mesmo dentro de mim.

Quando vamos ser completos de novo?


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Redação 04 de Junho de 2020