Psicóloga aborda como as dores e frustrações da pandemia instigaram reflexões neste fim de ano

"O vírus nos obrigou a parar, após anos fugindo de nós mesmos", afirma em entrevista, Alessandra Xavier, doutora em Psicologia Clínica

Legenda: Alessandra Silva Xavier é uma das fundadoras do curso de Psicologia da Universidade Estadual do Ceará (Uece)
Foto: Arquivo pessoal

Ao fim de um ano sem precedentes, o que fica para trás? Entre experiências de tragédia e de superação, a ideia de "sobreviver" a 2020 traz consigo a reflexão do que deve, de fato, ser valorizado na vida.

Nesse contexto, uma das fundadoras do curso de Psicologia da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Alessandra Silva Xavier, também doutora em Psicologia Clínica, analisa como foi possível reavaliar objetivos neste ano, e como o luto pode deixar marcas para anos vindouros.

Como a pandemia pode ter afetado o psicológico das pessoas em 2020, por não terem conseguido alcançar os objetivos estipulados para este ano?

Esse contexto da pandemia acontece dentro de um contexto mais amplo. A gente vem em um modelo social e cultural em que as pessoas já nascem como se fossem "condenadas" à felicidade. Tem uma cobrança de que todo mundo tem que estar feliz, tem que atingir o sucesso. Esse modelo neoliberal que diz que se as pessoas fracassam, a culpa é delas. Que todo mundo tem que ser perfeito, em uma vida idealizada, em que todo mundo tem que atingir metas, se superar, ser incrível. Então a pandemia chega no contexto em que muitas vezes as emoções e as perdas são negligenciadas, disfarçadas, não podem ser enfrentadas. É algo que a gente chama de "cultura narcísica", de onipotência, arrogância, intolerância, que deixa o sujeito muito vulnerável porque se sente capaz de dar conta de tudo.

Quando esse vírus chegou, ele nos colocou diante da nossa vulnerabilidade, da nossa fragilidade, das nossas perdas. Ele fez muita gente ter que parar e se conectar com a vida, depois de muito tempo fugindo de si próprio. Muita gente parou e se viu sem amigos, muita gente viu que não conseguia ficar bem consigo mesmo, viu planos e metas irem por água abaixo, e que isso não era necessariamente a coisa mais importante da vida. Muitos tiveram que se deparar com a riqueza de coisas externas e um vazio de coisas internas. Ou seja, perceberam como investiam em coisas externas e como o mundo interno de amor, proteção e bem-estar era vazio.

Quantas metas que nós buscávamos não faziam o menor sentido pra nossa vida?

Esse ano trouxe uma espécie de ferida narcísica para as pessoas. A gente começou a ver que a gente não tem controle sobre tudo, que a vida é muito mais do que certas metas. Mas isso é diferente do que algumas pessoas vivenciaram, que foi um aumento dos índices de ansiedade e de depressão, e que fez com que elas passassem a perder a esperança. Esse ponto é diferente, porque a esperança, os sonhos e a criatividade são necessários pra vida.

Só que é importante ter sonhos que tenham uma verdadeira conexão com quem a gente é, com o que faz sentido pra gente. Tem sonhos que a gente importa de outras pessoas, de propagandas, e que não têm nada a ver conosco.

Mas a dimensão dos sonhos e da esperança, que são os projetos de vida, esses a gente precisa manter. Mas devem estar conectados a uma visão realista de nós, algo que faça sentido para a nossa vida, e não apenas se adequando às expectativas da família e da sociedade. É importante confiar que a pessoa que nós somos é capaz de alcançar coisas que nos fazem bem.

Outra coisa fundamental é entender que a vida tem essa dimensão do inesperado. A gente tem que aprender que precisamos nos readaptar, nem tudo pode sair exatamente como a gente planeja. Não podemos fazer exigências de dominar a situação o tempo todo. A vida é muita mais complexa e dinâmica, e exige flexibilidade. Pessoas muito rígidas são pessoas que sofreram bastante nessa pandemia, por não conseguirem se adaptar, nem se perdoar. São pessoas com dificuldade em lidar com perdas e frustrações, aí acabam reagindo de forma agressiva, ou amarga, ou apática. Aí é onde entram a criatividade e os sonhos. Temos que ser criativos para nos adaptar.

Da mesma forma que algumas pessoas podem ter conseguido repensar suas metas neste ano, também é possível que outras tenham agravado sua saúde mental por não conseguirem o que esperavam?

Sim. Pessoas que às vezes têm uma baixa autoestima, que se sentem muito culpadas ou fazem uma desvalorização das suas conquistas. Gente que era muito eficiente no presencial e que, quando foi pro ambiente doméstico, viu que não conseguia ter a mesma performance. Gente que se compara com os outros o tempo todo, que se exige demais. Esse universo de trabalho remoto é mais cansativo, a pandemia deixou todo mundo mais estressado, porque todos estão diante de uma situação que gente chama de transtorno de estresse agudo. O medo de ser contaminado, de perder alguém. Isso às vezes acarreta dificuldades de dormir, dificuldade nas relações, irritabilidade.

Mas também, para outras pessoas, a pandemia foi um momento de reinvenção. Teve gente que descobriu que estava em um trabalho que detestava, que pediu demissão, que se reinventou quando teve esse momento pra parar e pensar. Eu vi pessoas idosas que aprenderam a usar smartphone e rede social. Se a gente consegue, nos momentos de perda, elaborar esses lutos pra poder direcionar a energia para outras coisas, é quando a gente realmente consegue "aproveitar" experiências traumáticas para crescer na vida. Mas não é todo mundo que consegue fazer isso sozinho. Às vezes, precisa de ajuda profissional, que nem sempre é acessível. Isso nos faz pensar nas políticas públicas de saúde mental, também.

É preciso, ainda, mudar a cultura que a gente tem, que trata sofrimento psíquico como "besteira", que trata doença mental como frescura e desqualifica a dor das pessoas. Os amigos e a família também devem apoiar. Quanto mais cultivarmos uma cultura egoísta, indiferente e pouco solidária, mais desamparados ficamos diante de uma situação como a pandemia.

Neste ano, também houve a oportunidade de as pessoas não só desenvolverem a criatividade, mas também se tornarem mais empáticas para com o próximo?

Houve, sim. E a gente viu que o que salvou boa parte das situações de isolamento social foram justamente as lives dos artistas. Como shows, teatros virtuais, exposições, como a arte tem uma dimensão valiosa para o que chamamos de 'desenvolvimento do pensamento simbólico'. E por que isso é tão valioso? Porque esse pensamento permite que a gente lide com algo que nos acontece se simplesmente descarregar de uma forma imediata. Quando eu consigo me identificar com um filme, quando eu posso extravasar um sentimento através de uma música, isso me ajuda tanto a conectar com outros seres humanos quanto a encontrar alternativas para lidar com o que eu sinto. A arte tem uma dimensão valiosa.

Teve gente que começou a escrever ou pintar. Alguns passaram a bordar, a cozinhar. Criaram blogs. As pessoas começaram a ver que quando a gente desenvolve a criatividade, a gente se sente capaz de fazer algo, de contribuir.

Considerando os altos números de mortes por coronavírus não só no Ceará, mas em todo o Brasil, podemos afirmar que vivemos um luto coletivo? Como isso impactou as pessoas neste ano, e como pode vir a afetar em 2021?

O luto faz parte da vida. As perdas vão nos constituindo. Só que existem quadros chamados de 'lutos patológicos', que não foram elaborados e vão permanecer como uma âncora, deixando a pessoa amarrada à perda sem conseguir seguir em frente. O fato de a gente estar vivendo uma pandemia, em que não é possível velar adequadamente os mortos, sem o suporte social necessário para os rituais de despedida, as missas de sétimo dia ou o apoio pra chorar junto, pode ser um elemento deflagrador de que esse luto possa não ser corretamente elaborado. E o que não é corretamente elaborado não desaparece. Ele passa a se deslocar pra outras manifestações de sofrimento.

O luto precisa tanto do suporte coletivo, da cultura, da família, amigos e colegas de trabalho quanto de um trabalho individual. Não é indissociável. As experiências de perda dependem da idade da pessoa que perdeu, do contexto social, da situação. Depende muito do tempo, também. Varia entre as pessoas. Não depende só de "ser forte" ou confiar em Deus. É um processo psíquico muito complexo.

As metas para 2021 podem ser fonte de esperança no contexto atual?

Podem, se forem metas realistas, verdadeiramente pensadas e conectadas com as experiências emocionais da pessoa, em que ela avalie seus aspectos físicos, emocionais e cognitivos. Veja a ligação dessas metas com a realidade. Quando colocamos uma meta impossível pra nossa vida, isso vira mais um autoboicote, um ato de desamor com a gente. O mesmo ocorre quando importamos metas de outras pessoas. Seja dos pais, dos amigos ou de uma celebridade. Às vezes, o desejo é agradar ao outro, não necessariamente fazer aquilo. Para 2021, é importante fortalecer os vínculos verdadeiros com pessoas que lhe respeitam, amam e em quem você confia. Esse suporte social é extremamente protetivo. E trabalhar onde você se sente valorizado.

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