Projetos sociais são base de apoio para favelas durante a pandemia

Para muitas comunidades em Fortaleza, o acesso a itens para prevenção do coronavírus, como máscaras e álcool em gel, é viabilizado por ações sociais que organizam doações e, em alguns casos, auxílio financeiro

Favela do Lagamar
Legenda: Na comunidade do Lagamar, em Fortaleza, moradores enfrentam ainda mais dificuldades durante a pandemia
Foto: Foto: Kid Júnior

Já se vão mais de três meses desde a última vez em que Liduína do Nascimento esteve diante da porta da escola onde as filhas estudam. Lá, depois de se despedir das meninas, ela garantia a renda da família vendendo dindim - até a chegada do coronavírus.

Liduína passou cada um de seus 39 anos de idade vivendo na Comunidade do Lagamar, e, como tantos outros no início da pandemia, viu faltarem recursos já escassos.

Dentro de casa, o isolamento acontece "na medida do possível", mas ela se esforça para cumpri-lo na companhia dos cinco filhos: José Mario, de 17 anos, José Marcos, de 15, Maria Lívia e Maria Lígia, gêmeas de 13 anos, e a pequena Ana Liz, 4.

"Parei de trabalhar de vez porque tenho hipertensão de difícil controle, sou do grupo de risco, então realmente tive que parar por mim e por eles, porque eles dependem de mim", lamenta. Com todos em casa, os gastos aumentaram, e mesmo recebendo o auxílio do Governo, a ajuda de projetos sociais fez - e continua fazendo - a diferença.

Liduína conta que, na comunidade, as principais ações partem de iniciativas como o Grupo JBD Lagamar, a Frente de Assistência à Criança Carente (FACC) e o Ser Ponte Fortaleza. "Eles têm distribuído máscaras e álcool em gel desde o início, e isso faz toda a diferença pra gente, pra quem não tinha como comprar", diz. Os projetos também recolhem doações de alimentos e distribuem cestas básicas entre as famílias.

A prevenção à Covid-19, porém, têm sido um desafio ainda maior em comunidades não só do Ceará, mas de todo o País. Um levantamento realizado em junho pelo Data Favela mostrou que embora 41% dos moradores busquem seguir as medidas de proteção contra o vírus, outros 39% tentam seguir, mas nem sempre conseguem. Já 12% afirmam que não conseguem seguir, enquanto 8% nem tentam. Entre os que não seguem as medidas, 72% se justificam pela necessidade de trabalhar.

O Data Favela foi criado através da parceria entre a Central Única das Favelas (Cufa) e o Instituto Locomotiva. Durante o levantamento, foram ouvidos 3.321 moradores de 239 favelas espalhadas por todos os estados brasileiros.

Desafios

A Cufa também assumiu a liderança em projetos solidários logo no início da pandemia no Ceará, distribuindo itens de higiene e alimentos.

"Atendemos em torno de 150 favelas só em Fortaleza, e outras em Maracanaú, Sobral e Juazeiro do Norte. Todo mundo recebe álcool em gel nas mãos, em fila, recebem os alimentos higienizados, tudo organizado pra não ter tumulto", explica Preto Zezé, presidente global da Central Única das Favelas.

No cenário nacional, ele afirma que a Cufa chegou a articular cinco mil favelas e mais de 100 mil pessoas voltadas para receber doações, higienizar, entregar e organizar a logística. "O ideal era que o poder público incorporasse essas coisas que a gente tá fazendo, para ampliar", avalia.

Mesmo com alguma ajuda disponível, a vulnerabilidade permanece, em especial, na área da saúde. Liduína desenvolveu sintomas da Covid-19 entre março e abril, e chegou a visitar um posto de saúde. De lá, foi encaminhada para uma UPA, onde ouviu que não havia mais testes disponíveis para diagnosticar a doença. "Me passaram antibiótico e mandaram ficar em isolamento, mas morando numa casa pequena com cinco filhos, tem que fazer o que pode. O meu mais velho também teve, mas foi muito leve. Não chegou nem a ir pro posto. Agora, estamos bem".

A lotação das unidades de saúde é apontada pelo sociólogo Antônio Lopes como um dos fatores que mais afligiram a população das favelas em meio à pandemia do coronavírus. O professor de Antropologia da Universidade Federal do Ceará (UFC) enfatiza que os primeiros desafios são as condições de habitabilidade, de moradia, a ausência de saneamento, infraestrutura e falta de atendimento médico próximo e adequado. "Ali, está presente também um índice maior de informalidade, pessoas que realmente precisam ir trabalhar e acabam se expondo ao vírus", pondera Antônio Lopes.

O sociólogo acredita que o investimento em saneamento básico deveria ser uma prioridade do poder público para melhorar as condições de vida nas comunidades.

"Também é necessário favorecer a geração da renda solidária, porque as comunidades têm esse espaço de solidariedade, de vizinhança muito forte, que muitas vezes ocupa a própria ausência do Estado. Investir na economia solidária e na infraestrutura, para além da moradia em si. Isso precisa ser pensado urgentemente".

Morador da comunidade do Barroso II há 27 anos, 'Pequeno' é membro da Cufa e atua diretamente nas ações de solidariedade da favela em especial durante a pandemia. Aos 35 anos de idade, ele se disponibiliza para encaminhar pessoalmente as demandas de outros moradores - e atende somente pelo seu apelido.

"Mandamos álcool em gel, máscara, cesta básica, gás. O pessoal entra em contato comigo e a gente faz uma triagem, vê como está a situação. Na hora de entregar, usamos protocolo de distanciamento, com cones pra colocar a distância de 1,5 metro entre as pessoas. Nesse período, essa ação é o que está salvando", afirma Pequeno.

Apoio

"Pra conseguir os materiais, teve que ter ajuda dos projetos. Máscaras a gente conseguia fazer, mas o preço do álcool em gel subiu muito. Não tinha como comprar", diz a educadora social Rubênia Santos, de 23 anos. Nascida e criada no Titanzinho, ela é engajada com o projeto Ser Ponte Fortaleza, que distribui uma renda básica para famílias chefiadas por mulheres e em situação de vulnerabilidade.

"Tá sendo um período muito delicado. Eu perdi meu pai há pouco mais de um mês, e de um tempo pra cá, uma forma de ficar mais confortável comigo mesma foi ajudando ao próximo. Felizmente, com meu trabalho, consigo manter a mim e minha mãe", diz.