Prisões invisíveis

Legenda: Os outros se veem contra um argumento bastante consistente: a pandemia não passou
Foto: Camila Lima

As sentenças devem ecoar nas mentes das pessoas irreconhecíveis em aglomerações - "multidões", aliás, é palavra cafona, em desuso, com carga semântica negativa pouco simbólica para servir de condenação pelo júri popular. O senso comum se remodelou, pois as críticas não versam sobre os mesmos assuntos. Estar livre é, paradoxalmente, estar preso, mas na boca do povo ou nas notícias dos jornais. Ou em ambos.

O declínio de casos da pandemia atenuou a clausura fechada do "fique em casa" para um regime semiaberto. Já é possível sair sem a necessidade de fazer as compras da semana ou os remédios para os outros males que também assolam a vida - os quais pareceram, por um tempo, ter ficado à sombra, à míngua, como se não existissem. Já é possível correr nos calçadões, comer nos restaurantes... Uma lista enorme já tem lá sua anuência para que a saúde de corpo e mente possa vigorar. Permissão dos órgãos governamentais e sanitários, que, agora, dividem o posto de autoridade com pessoas anônimas, para as quais as infrações devem também ser justificadas.

Assim, vai-se um eterno pisar em ovos. O espaço da sala ou do quarto-cela já pode ser trocado por uma academia para a prática de exercícios. Por uma hora, e com marcação de horário. Sem deixar os aparelhos com suor e conversar para não perder tempo. Pode-se, também, ter uma happy hour, desde que cedo e com até quatro pessoas por mesa. E nada de se estender, pois há toque de recolher às 23 horas. A liberdade da volta à rotina é cronometrada e limitada. E os carcereiros estão espalhados ao redor.

Obviamente, nem todo preso é igual. Há quem tenha regalias como casas espaçosas, veículos particulares - ou dinheiro para o combustível, caríssimo, sobrando -, locais de veraneio e ofícios que, seja pelo salário, seja pela carga horária, permitam mais conforto. A contrapartida fica para aqueles que pegam quatro ônibus por dia nos horários de pico, tiveram demandas redobradas por demissões nos trabalhos e não têm acesso a terapias para cuidar de si, pois ter um emprego durante a crise do novo coronavírus virou uma dádiva. Existe o consentimento de trabalhar para que a economia seja retomada, mesmo que com salário menor e tarefas acumuladas. Estes têm de agradecer pela pandemia não ter dado pena de morte ou decretado fome. Já podem sair de casa, mas têm prisão perpétua. Nas línguas de quem não se põe no lugar desconfortável do outro. De vários deles.

Dessa forma, vários dos outros viram marginais, pois se dão o luxo que não deveriam. Parte se junta com mais gente na mesma situação em praças para afogar as mágoas da rotina que se impõe em tempos tão difíceis. Parte se rebela, consciente ou inconscientemente, contra o sistema que encontra espaço para o trabalho, mas não para o lazer, e vai a praias ou viaja. Daí, viram contraventores sanitários, e veem-se sob as blitze dos olhares que pregam cautela, ensejam vergonha e dizimam reputações por meio de lentes de vidro. Não há como ficar foragido quando o videomonitoramento se une ao smartphone.

Uma vez sub judice, os outros se veem contra um argumento bastante consistente: a pandemia não passou. Não há vacina. As vidas, mesmo que em menor número, continuam indo, deixando amores abandonados, planos interrompidos e saudades eternas. Com a Covid-19, fundou-se um novo Código Penal; desobedecê-lo é atentar contra a vida, o bem comum. O veredito, parcamente fundado nas motivações alheias, ocorre com o martelo de Júpiter, positivista, e não enxerga que há quem, de modo culposo, já tenha chegado ao limite da autorreclusão. Tem gente que se machuca por não ver as pessoas queridas há muito. Tem gente que trabalha dentro e fora do lar, mas não tem um pingo de divertimento. Tem gente cujo desconforto não pode ser resolvido. Tem gente que sofre com a falta do básico.

Tem gente que, mesmo sem tosse e falta de ar, está morrendo por dentro.

Mas viver a pandemia não é mais estar na prisão; é receber julgamento. Condenar é o novo normal. A sentença, no entanto, não pode variar? Se existe uma chancela por parte dos governos, por que ainda há quem reprove os que a aproveitam? A pena poderia ser mais educativa, tal como os fiscais - autoridades no papel - são ao notar o desrespeito às novas leis. "Use a máscara", "limpe as mãos", "evitem se tocar" surtem mais efeito e podem oportunizar a ressocialização na medida do possível. Observar sintomas pode contribuir para a prevenção e a redução de danos, a si e aos outros. E no que ajuda o apontar dos dedos? A exposição gratuita, por vezes difamatória e quase sempre apática? Divide, sim, mas não inibe a existência das falhas nem reconhece o ser e o estar de quem não partilha da mesma realidade. E, claro, faz emergir o senso de justiça, clamada por muitos e necessária ao meio social, pelas mãos de quem o faz. Sem sujá-las. Se esse fosse o caso, sem problemas: haveria álcool em gel.

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Redação 25 de Outubro de 2020