'Precisamos estar preparados para novos acidentes, eles vão acontecer', diz pesquisador do Labomar

Pesquisador explica o impacto das manchas de óleo nos ecossistemas marinhos e critica a falta de coordenação nacional e recursos para pesquisas. As limitações, segundo ele, dificultam achados importantes para elaborar planos de ação

Legenda: Até o momento, 999 localidades foram atingidas pelo óleo, em 130 municípios no Nordeste e Sudeste do Brasil
Foto: FOTO: HELENE SANTOS

Um vazamento que afetou todos os estados do Nordeste, o Rio de Janeiro e o Espírito Santo, ambos no Sudeste, no segundo semestre de 2019. Ao todo, 999 localidades foram atingidas em 130 municípios, segundo o último levantamento divulgado pelo Ibama. Um desastre de dimensão e impactos gravíssimos. Petróleo cru no mar, cuja origem segue desconhecida.

No Ceará, pesquisadores do Instituto de Ciências do Mar da Universidade Federal do Ceará (Labomar/UFC) seguem investigando a ocorrência e os efeitos dessa catástrofe ambiental, apesar da baixa disponibilidade de recursos.

Na última semana, pesquisas que tratam sobre o impacto do derramamento de óleo nas praias brasileiras foram divulgadas na revista norte-americana Science -uma das publicações mais conceituadas do mundo no campo científico.

Um dos autores da pesquisa é o cearense Marcelo de Oliveira Soares, biólogo e mestre em Ciências Marinhas Tropicais pela UFC, doutor em Geociências e professor do Labomar/UFC. O especialista acompanha com apreensão, desde setembro, a dispersão das manchas de petróleo cru pelo litoral. Ele conversou com o Sistema Verdes Mares sobre o "maior acidente da história dos oceanos tropicais".

A escassez de verbas para pesquisa, a falta de informação, até o momento, sobre a origem do óleo e a lentidão na criação de políticas públicas efetivas para recuperação do mar são algumas das preocupações evidenciadas por Marcelo. Além disso, alerta ele, as atividades de exploração de óleo em águas profundas realizadas no Brasil são riscos constantes, bem como a localização do País, com a maior costa do Atlântico Sul - rota constante de navios. "Pode ocorrer naufrágio, despejo irregular. Esses acidentes podem acontecer a qualquer hora, e inevitavelmente", destaca.

Desde outubro, as pessoas ouviram muito sobre "desastre". Mas, na prática, como isso impacta a nossa vida?

Não podemos subestimar esse acidente. Muita gente pensa que só limpando a praia a gente está livre dos problemas, mas isso não é verdade. O petróleo é como se fosse um plástico: ele vai se fragmentando e ficando com componentes invisíveis a olho nu, mas com certeza está contaminando nossas águas, praias e alimentos. São poluentes persistentes, porque ficam décadas.

O que se sabe sobre o percurso do acidente?

Este é o ponto. Vão fazer quatro meses do acidente, e não sabemos de onde veio esse óleo, quanto foi liberado, quanto tem no fundo do mar. É uma situação grave. Essa incerteza gera uma série de problemas. As pessoas acham que o maior dano foi pelo volume e pela extensão que ele pegou- 3.000 km. No caso Deepwater Horizon (plataforma petrolífera no Golfo do México, em 2010), foram 2.100. A diferença é que, nos Estados Unidos, foi investida uma quantidade de dinheiro absurda que permitiu a criação de políticas públicas para recuperar algumas coisas. Aqui, está tudo muito solto.

Houve descrença dos órgãos públicos no tamanho dessa tragédia? Havia como proceder de uma forma mais reativa para minimizar os danos?

Com certeza. É uma coisa grave dizer que não tem contaminação em peixe, ou que só limpar a praia é uma coisa ok. A pior parte é quando ele está a olho nu.

Essa dispersão ainda vai durar muito?

São anos, décadas. A gente não sabe até agora quanto óleo foi liberado. Isso é um absurdo. Se alguém sabe, não está dizendo. Criticamos essa falta de transparência. No Brasil todo, ninguém teve dinheiro pra ir para o mar e ver quanto tem no fundo.

Então a verba para pesquisas é escassa?

Não tem, não tem. Teve um edital brasileiro da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) de R$ 1,3 milhão. Esse valor é ridículo. Você tem 11 estados, então cada proposta vai ter R$ 100 mil. O que dá para fazer com isso? Nada. Uma análise química de água, de sedimentos e peixes é cara, se gasta facilmente R$ 1 milhão. Pegar um barco e ir pro mar, você gasta fácil R$ 20 mil, R$30 mil. Só aqui no Ceará, temos 573 km de costa (maior que o litoral de 67 países). Mas não temos esses recursos para investigar melhor.

Mesmo assim, em âmbito, vocês conseguiram colher amostras?

Coletamos algumas coisas, mas nossos equipamentos estão quebrados por falta de investimentos. A gente faz do próprio bolso. Pega o carro e vai. Mandamos amostras para os Estados Unidos com dinheiro nosso. Eles estão finalizando as análises lá para saber a origem do óleo, porque ninguém viu relatório sobre isso.

Biologicamente falando, como esse fenômeno tem afetado a vida marinha?

São vários ambientes tropicais. Mangue, recifes de corais, praias. Todos eles são impactados. Temos evidências de fotos, mas não de análises químicas, de óleo na base da cadeia alimentar, no plâncton. São organismos minúsculos com óleo neles, que você só vê no microscópio. Outro come e vai subindo na cadeia. Ou seja, se não é por ingestão direta, é por indireta.

Vocês chamam atenção para o impacto nos bancos de rodolitos. Por que eles são chamados de berço da vida marinha?

São algas calcárias como se fossem bolinhas. Tem um monte no fundo do mar e eles atraem invertebrados e peixes. É um oásis de vida marinha que fica lá, de três a 130 metros de profundidade. O caso Deepwater afetou ambientes marinhos de até 3 mil metros de profundidade. Mas lá investigaram com robô, barco, submarino? A gente não tem. Essa é a diferença.

Há risco de desastres semelhantes?

Precisamos estar preparados para novos acidentes, porque eles vão acontecer. O Brasil está explorando óleo em águas profundas, e é uma atividade de risco. Também temos a maior costa do Atlântico Sul - 9.500km -, então o tempo todo vai ter óleo atravessando porque é rota dos navios. Pode ocorrer naufrágio, despejo irregular. Aqui em Fortaleza, o Seawind (navio) afundou (o caso ocorreu em 2012) e ninguém fez nada. O óleo bateu até no Pecém. Esses acidentes podem acontecer a qualquer hora, e inevitavelmente.

Que políticas deveriam ser implementadas para agir em casos de derramamentos de óleo?

Você reduz os riscos ao aplicar planos. Os governos têm que se preparar. O ideal é que existam planos nacionais, regionais, estaduais e municipais de contingência para acidentes ambientais.

Que outros achados sobre o mar do Ceará vocês podem compartilhar?

Uma das pesquisas mapeou o fundo do mar da costa Oeste, entre Jericoacoara e Camocim, que é uma região com áreas de possível exploração de minerais e hábitats para pesca, nos casos de Acaraú e Itarema. A gente descobriu que, no fundo do mar, tem banco de gramas marinhas com muita larva de peixe vivendo por lá, por isso é uma região boa de pesca.

Algum cenário preocupante?

Tem os microplásticos. Sacola, garrafa pet, canudo? Com o tempo, luz do sol, ação de onda, eles vão se degradando, virando micropartículas invisíveis a olho nu. Na água do mar de toda a costa do Ceará, tem pedaço de acrílico, vidro, tinta, fibra de roupa. Encontramos mais em Fortaleza, Icapuí, Acaraú, Itarema e Camocim. É um problema ambiental gravíssimo que não conhece fronteira. O plástico tem vários contaminantes de características cancerígenas. Ainda não sabemos os efeitos na saúde humana. Alguns estudos dizem que eles naturalmente saem nas fezes e urina. Outros, que estão se alojando nas células.

Legenda: Marcelo ressalta a ausência de recursos para investigar o fundo do mar

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