"Por incrível que pareça, eu senti mais medo da Covid", compara motorista que sobreviveu a tsunami

O paulistano, que mora há oito anos no Ceará, passou sete dias internado por complicações da doença; ele sobreviveu a um tufão, terremoto e tsunami quando vivia no Japão

Vivendo no Japão, Marcio viveu a experiência de dois terremotos em províncias litorâneas
Legenda: Após enfrentar tufão, terremoto e tsunami, morador do Ceará aponta que o maior medo ocorreu quando teve Covid
Foto: Arquivo pessoal

De tufão, terremoto e tsunami enfrentados no Japão a recuperação da Covid-19 no Ceará, o motorista de aplicativo, Marcio Leite, 52 anos, já coleciona mais de cinco experiências em que poderia ter perdido a vida. No entanto, foi a infecção pelo coronavírus, em Fortaleza, que o deixou com mais medo. 

O paulista que mora há oito ano no Ceará ficou internado por sete dias, em maio de 2020, até vencer a doença. Os pensamentos para o futuro lhe ajudaram a resistir aos medos e sentimentos desesperançosos vividos no leito  para pacientes com Covid-19 do Frotinha do Antônio Bezerra. 

“Mas em questão de medo, por incrível que pareça, eu senti mais medo da Covid, porque ela me pegou aos poucos. Me deixou com febre, com tosse, com dor de cabeça. Ela foi me pegando aos pouquinhos. O terremoto ‘vai ali’, um, dois minutos e acabou, já era. Você pode se proteger. A Covid não. Ela pode levar sua vida em questão de semana. Te mata aos poucos”, compara. 

Legenda: Em maio de 2020, o motorista de aplicativo apresentou exame positivo para Covid-19, precisando ficar 7 dias internado
Foto: Arquivo pessoal

 Nesse período em que ficou internado, ele experienciou desde os sintomas mais leves da doença, como febre e tosse, até as ocorrências mais graves, como falta de ar. Mas, o motorista relata, os efeitos psicológicos são tão impactantes quanto os físicos.

“Quando eu fui transferido para a UTI, tive a sensação de morte. Na UTI, três pessoas morreram ao meu lado, e passa na sua cabeça ‘será que sou o próximo?'. O psicológico influencia muito nessa hora”, diz.

 Tsunamis no Japão

Foi em 2009, após 2 anos vivendo no Japão, que Marcio enfrentou seu primeiro terremoto em terras asiáticas. Sem alerta de tsunami, o tremor registrou magnitude de 6,9 graus a uma profundidade de 340 quilômetros no oceano. Na época, ele morava com sua esposa de descendência japonesa na província de Yaizu, localizada há cerca de 200 km de Tokyo. “Às 5h da manhã, levantei para ir ao banheiro, quando foi 7h, as coisas começaram a cair em cima de mim e me machuquei”, relata. 

A sensação do terremoto lhe remeteu às vivências da infância, quando, deitado sobre um lençol erguido por amigos, era balançado no ar sem perspectiva de retornar ao chão. Sem treinamento para lidar em episódios de terremoto e com medo de se machucar de forma mais grave, sua reação foi sair do prédio e correr para a rua.

“Quando eu cheguei na rua, não tinha ninguém. Minha esposa, lá em cima, ria de mim, dizendo que era bicho nervoso. O treinamento dado era para ficar em casa, porque é pior ir para a rua, mais coisas podem cair em cima da gente”, explica.

No entanto, foi o tsunami de 2011 que fez nascer um novo medo, acarretando seu posterior regresso ao Brasil, no segundo semestre do mesmo ano. Era 11 de março quando o terremoto de magnitude 9 ocorreu, deixando 18.500 mortos e provocando o acidente nuclear de Fukushima

Marcio vivia na cidade de Ibaraki e, logo após os tremores, organizou seus pertences e viajou de carro até Yaizu, seu antigo lar.

“Eu quis sair de lá logo. Depois descobrimos que o tsunami havia chegado (em Ibaraki). Estávamos fugindo. Eu podia ter ficado, os terremotos são coisas normais, mas não queria ficar. Se eu tivesse em casa, teria sofrido mais”, finaliza.

Essas experiências, reconhece ele,  podem contribuir para que as pessoas enfrentem situações desafiadoras com mais tenacidade. “Não pense no passado quando estiver à beira da morte, pense no que você ainda pode fazer. Isso que é importante. O seu combustível será seu futuro, não seu passado”, compartilha. 

Passagem de tufões

Além das vivência de terremotos e tsunamis, o motorista de aplicativo também viveu a experiência de acompanhar a passagem de um tufão por Yaizu, em 2008. “Eu estava dormindo, comecei a ouvir um barulho muito estrondoso. O tufão balançava todos os postes da rua e eu pensava que iam ser destruídos, arrancados, que ia ter um vazamento nuclear”, relata. 

No dia seguinte, viu os resquícios da destruição, com telhas arrancadas, árvores caídas, rachaduras nas paredes. “Eu fiquei com muito medo, me perguntava se o prédio ia aguentar”, comenta. Porém, relembra descobrir, ainda nos primeiros anos no Japão, o quão resistentes eram as estruturas nas cidades, construídas para suportar os tremores. 

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