Para evitar novo aumento da curva, Prefeitura precisa monitorar índices de Covid-19 por dia

Hoje, gestores devem definir se o Estado avança para a primeira fase de retomada de atividades econômicas, após uma semana no período de transição

Legenda: Roberto Cláudio diz que "não imagina desmobilizar" as UTIs para Covid-19 neste ano
Foto: José Leomar

No contexto em que o Estado experimenta uma reabertura gradual das atividades econômicas, a taxa de ocupação de leitos ainda não se consolidou abaixo dos 80%, entretanto, o número de óbitos diários em Fortaleza tem diminuído. No total, são 2.453 mortes e 27.074 casos confirmados até então na Capital. Se o cuidado e a cautela são exigências permanentes desta pandemia, nesse momento, esses pontos demandam ainda mais atenção.

Mortes por Covid-19 em Fortaleza

Em entrevista ao Sistema Verdes Mares, o prefeito de Fortaleza, Roberto Cláudio, enfatiza a necessidade de uma retomada responsável. O receio é que, assim como em outras cidades no mundo, a desobediência às normas sanitárias volte a agravar a pandemia. Uma das obrigações do poder público, enfatizada nesse período, é o monitoramento diário, dentre outros índices, de internações, novos casos e mortes. Além disso, o gestor assegura que as estruturas montadas para atendimento de casos de Covid-19 que, segundo ele, incluíram a criação de 800 leitos, não serão desmontadas na Capital até o fim deste ano, pois o vírus continuará circulando.

Hoje, Fortaleza tem mais de 27 mil casos de Covid, mais de 2.400 óbitos e uma ocupação de leitos de UTIs maior que 80%. Era hora de flexibilizar?

Há critérios que são mais ou menos comuns, entre nações, e unidades da federação de outros países, do momento e das condições para retomar as atividades cotidianas. Isso envolve ocorrência de casos, tendência de número de óbitos e critérios assistenciais, principalmente, de redução do número de atendimentos e redução de demandas por leitos de UTI. Nesse momento temos uma redução bastante significativa na demanda da atenção primária nas UPAs, uma redução por leitos de UTI e pacientes demandando respirador. Também entramos numa estabilização de óbitos com uma tendência de queda e o mesmo acontecendo com os casos. Eu diria que o cenário sanitário do momento permite que a gente examine o plano responsável, progressivo de retomada. Digo responsável e progressivo para não dar uma impressão que é um libera geral. De que a vida volta ao normal. Vamos discutir ao longo desse fim de semana, se vamos dar o próximo passo e se der, quais serão os protocolos e recomendações. E o mais importante é o monitoramento. Vamos ter que fazer monitoramento diário dessas informações. Se, em algum momento identificarmos alguma tendência de recrudescência da curva, é importante que a gente pare de novo e avalie qual a medida sanitária precisa ser implantada.

Nessa métrica, tem algum ideal a ser atingido? De 50% ou menos?

A ideia é uma tendência de redução de demanda nas UPAs e também uma oferta de leitos de UTI acima da demanda. Há uma clara tendência de redução de casos, de redução da gravidade dos casos e isso acaba reduzindo a demanda por leitos de internação de UTI e redução de óbitos.

Em alguns lugares, houve uma segunda onda de contágio, após a abertura gradual. Há plano para um possível cenário assim?

Só podemos iniciar o plano de retomada progressiva se tivermos implantando um sistema de monitoramento diário de indicadores. Está previsto, caso as autoridades sanitárias identifiquem uma mudança no padrão de ocorrências desses indicadores, que a gente modifique protocolos e até mesmo interrompa o processo de retomada. Está muito claro que, não pode haver motivação mais prioritária nesse momento que a defesa da vida, da saúde pública. Entendemos que há uma mudança da curva, aí sim nos sentimos seguros para iniciar o processo.

Na Capital, o poder público chegou a impor isolamento social rígido, mas ainda há descumprimento. A conscientização é um dos grandes gargalos e faltou mais rigor?

Parece fácil, mas são medidas que quando envolvem mudança no seu conforto cotidiano e que traz exigência de adaptação, acaba ganhando muita complexidade. A despeito de termos tido alguns problemas, nós só estamos conseguindo virar a chave e ter uma mudança expressiva de indicadores graças à adaptação de atitude de grande parte da população. Se parte não cumpriu como deveria, isso não foi a regra. Tivemos uma redução de 80% da demanda de transporte público em alguns momentos. Tivemos mais de 60% da redução do fluxo de carros. Claro, que temos um cenário social, econômico e de infraestrutura muito diferente. Há comunidades que temos 7, 8 pessoas morando em uma residência de 2 cômodos. Sabemos que aplicar uma lei a realidades desafiadoramente distintas, acaba tendo impactos diferentes.

A cidade inteira tem sofrido os efeitos da pandemia, mas, a periferia têm mais mortes. O que justifica esse cenário? Alta transmissão? Baixo acesso à unidades de saúde? Procura tardia?

A pandemia se expressa gravemente na desigualdade social. No mundo inteiro, são pessoas mais pobres, que vivem em áreas mais vulneráveis, que têm possibilidade de desenvolver casos graves. Não se sabe bem a razão e o porquê, mas esse é um dado que existe, é concreto e é, por essa razão, que desde o primeiro momento dirigimos a busca ativa pela atenção primária dos pacientes em grupos de risco através do agentes comunitários de saúde. Passamos, a partir de abril, nos postos de saúde, a ofertar uma terapia precoce à base de corticoide e antibiótico, exatamente para tentar reverter ou modificar esse itinerário que é global, de pacientes mais pobres, já não bastasse o desafio social da vida dura que levam, ainda estarem expostos a um risco maior.

Qual o momento mais difícil para a sua gestão nesses quase três meses?

O momento mais duro foi entre 8 e 12 de maio, que se demonstrou ser, nessa curva que a gente está vivendo, o pico mais grave dela. Com UPAs lotadas, todos os nossos hospitais com 96%, 98% e 100% de ocupação, muitos pacientes indo a óbito. Aqueles dias foram os mais duros. Pelo reflexo disso no sofrimento das pessoas. Já, pessoalmente, foi ter tido a experiência de estar com meu pai em uma UTI por Covid e, ao mesmo tempo, estar na fase do início da curva em que tínhamos que tomar várias decisões importantes todos os dias, ter várias reuniões. Foi muito desafiador.

Houve necessidade de aumento dos leitos de UTI e de enfermarias, situação que já era um gargalo antes da Covid-19. Há planos para a estrutura pós-pandemia?

Estamos fazendo essa discussão ao longo dessa semana. Estamos vendo que, claro, se não cuidarmos teremos todos esse leitos ocupados de novo. Estava fazendo as contas. Tínhamos em Fortaleza de leitos municipais públicos, somando tudo o que foi criado ao longo da história, o IJF, os três Frotinhas, os três Gonzaguinhas, o Hospital da Mulher, o Nossa Senhora da Conceição, o CROA, as 6 UPAs municipais, em torno de 1.100 leitos. Essa semana chegamos há 800 leitos abertos para Covid-19. Em um espaço de 2 meses. A crise, se por um lado, ela é essa tragédia humanitária global, de repercussões à vida, à sobrevivência e a economia, por outro lado, ela também nos ensinou que, em grupo, trabalhando de forma integrada, conseguimos dar respostas emergenciais eficientes. Outro dia teve um encontro de prefeitos do Brasil e da Itália e estava lá o prefeito de Bergamo. E 20 dias depois, nessa luta por respiradores, eu liguei para ele, pois a Itália estava desmobilizando boa parte da assistência. Eu liguei para saber se tinha respiradores a serem doados e ele me disse: "Olha, a gente achou que estava livre e o povo voltou à vida normal e estamos tendo um novo pico. Então, infelizmente, eu não posso ceder nenhum equipamento". É isso. No curto prazo, eu não imagino desmobilizar essa estrutura ao longo deste ano, porque o vírus continuará circulante, não terá vacina até o final do ano. Então, a nossa ideia é tanto tempo quanto necessário, manter esse sistema Covid aberto. Entretanto, em algum momento, vamos superar essa epidemia e os leitos Covid passarão a não ser mais necessários e, claro, vamos incorporar os respiradores, monitores, equipamentos para poder fortalecer, modernizar e ampliar o nosso sistema de saúde municipal.

Em relação à pesquisa para saber a porcentagem da população imunizada e que pode se contaminar. Por que não foi aplicada antes? E como, de fato, ela ajuda?

Há três elementos peculiares na resposta do Estado do Ceará que eu tenho convicção que ao final dessa pandemia serão reconhecidos como exemplos importantes. A primeira foi não titubear em instalar o isolamento social precocemente e sustentá-lo por um longo período. Segunda é ser o Estado que mais tem testado no Brasil. Isso gera, no curto prazo, indicadores que parecem ruins. Estamos testando praticamente todas as pessoas que vão a óbito. Isso é muito importante para a transparência, mas mais do que isso para a resposta epidemiológica. Terceiro é a primeira pesquisa estadual com apoio da Fiec com um cálculo amostral amplo, 3.300 pessoas no primeiro ciclo. Isso nos dará um dado riquíssimo, precioso, de rigidez metodológica de qualidade que é a gente saber qual o percentual da população que já está imunizada. Por que isso é importante? Se a gente descobrir que 20% da população está imunizada, tem 80% que pode se contaminar, e o grupo de risco dessa população vai precisar de cuidados preventivos.

Mas, por qual motivo não foi feita antes? Faltava recursos? Não era o momento epidemiológico?

No começo você certamente não teria pessoas positivando. Para fazermos uma pesquisa dessa em escala, você precisa ter um número significativo de pessoas que já tenham se contaminado para ter algum tipo de atesto. Para conseguir, de fato, identificar. O momento epidemiológico é o adequado para fazer. A gente vivenciou o pico, muito claramente temos uma tendência de queda e vamos ver qual o percentual da população se imunizou. Na minha área, que é epidemiologia, o pessoal chama isso de imunidade de rebanho, quando pelo menos 60% da população se imuniza, a contaminação passa a ser residual. Se estivermos longe disso, o conjunto de medidas precisam ser mantidas.