Pandemia evidencia necessidade de banheiros públicos na Capital

Equipamentos devem ser instalados em feiras públicas e na Avenida Beira Mar, mas espaços de grande circulação e áreas de vulnerabilidade social ainda precisam das estruturas relevantes para saúde pública, avaliam especialistas

Sete banheiros fixos estão sendo construídos na Avenida Beira Mar, em Fortaleza, para facilitar a higienização da população
Legenda: Sete banheiros fixos estão sendo construídos na Avenida Beira Mar, em Fortaleza, para facilitar a higienização da população
Foto: Kid Júnior

Ter acesso à banheiro limpo vai além de conforto para quem vai ao Centro, a praias ou a outros espaços de grande circulação em Fortaleza. O equipamento está relacionado, isto sim, à prevenção de doenças infecciosas, quando facilita a higienização da população. A Capital deve receber sete banheiros fixos na Avenida Beira-Mar, até novembro, e unidades químicas em 69 feiras livres, após licitação a ser analisada em outubro. Água limpa, papel e sabonete, neste cenário, podem evitar a propagação de doenças, como o novo coronavírus, reforçando a necessidade de maior alcance do serviço na cidade, como analisam especialistas.

Os banheiros da Beira Mar serão entregues com a requalificação da Avenida, segundo a Regional II. "Os equipamentos serão distribuídos ao longo da orla, com início nas proximidades do Mercado dos Peixes até o Aterro da Praia de Iracema, sendo dotados com sanitários femininos, masculinos e para pessoas com mobilidade reduzida, com assentos especiais e corrimãos", detalha a pasta.

Já as feiras livres de Fortaleza devem receber cabines químicas para uso dos comerciantes e clientes, como detalha licitação aberta nesta semana, pela Secretaria Municipal da Gestão Regional (Seger). Dessa forma, como informa a pasta, as atividades terão melhores condições sanitárias "por meio da disponibilização de ambientes saudáveis e devidamente organizados, proporcionando à população melhores condições básicas de higiene e prevenção". Um banheiro estará disponível para cada 20 feirantes.

Circulação

São muitos os bairros que abrigam as feiras com movimento diário de pessoas, que podem ter contato com objetos contaminados ou, estando doentes, infectar as mãos e transmitir o vírus. "Se você sai e passa o dia inteiro fora de casa, você precisa de locais para fazer higienização. Fortaleza é uma cidade com um contingente enorme de pessoas pobres e que tem, então, trabalhos em feirinhas, nas ruas, barracas e precisam de local tanto para higiene pessoal como dos materiais que estão manipulando", explica Lígia Kerr, professora Programa de Pós-graduação em Saúde Pública da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Além da instalação ou construção de banheiros públicos, manter as unidades limpas e com estoques de produtos de higiene, como ressalta a especialista, faz com que a ferramenta seja eficiente. "Não só a presença do banheiro, mas eles tem que estar completos e a gente quase não vê isso. Tem que ter papel higiênico e sabonete, de preferência, líquido porque é muita gente usando", observa.

Improviso

Marcos Antônio de Paula, 68, permanece das 15h às 23h na tradicional Feira da Beira Mar para comercializar as redes que produz e precisa da parceria de comerciantes quando tem a necessidade de um banheiro. "A gente vai nas lanchonetes, mas até lá a gente está no calçadão e a gente vai se virando, mas que é ruim, é. Às vezes você quer usar o banheiro e precisa se dirigir a um local adequado", comenta.

O artesão tem a mesma dificuldade há 35 anos, quando começou a comercializar as redes no local. "Vai ficar melhor com os quiosques, os nossos pontos (fixos) vão entregar em setembro do ano que vem e aí vai ficar bom", conclui. Há quase um mês, Marcos Antônio voltou ao trabalho até então suspenso por causa da pandemia de Covid-19, que limitou o comércio da Capital.

Durante a pandemia, foram instalados dois equipamentos em formato de contêiner com banheiros masculinos, femininos e sociais, além de espaço para lavagem de roupas e depósito para pessoas em situação de rua, na Rua Pedro Segundo, na Parangaba, e na Avenida Dom Manuel, no Centro. Além destes, outra unidade do chamado Higiene Cidadã está disponível na Avenida Almirante Barroso, na Praia de Iracema.

Os banheiros sociais também possuem sala de coordenação e os usuários recebem orientação para buscar o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop) para serviços e encaminhamento socioassistencial. As unidades funcionam todos os dias, entre 9h e 19h, com gestão da Secretaria dos Direitos Humanos e Desenvolvimento Social (SDHDS).

Aplicação

Com a manutenção correta, as cabines químicas ou espaços físicos são seguros para uso. "Embora a gente tenha medo, não é fácil acontecer transmissão de doenças via banheiro, não é habitual, só que banheiro não higienizado afasta as pessoas. Locais públicos têm que ser limpos várias vezes por dia porque senão passar a produzir odor desconfortável", pondera Lígia Kerr.

Mariana Lima, professora do Departamento de Arquitetura, Urbanismo e Design (Daud) da UFC, analisa que os incentivos para evitar o contágio pelo novo coronavírus mostram o desafio antigo de acesso aos itens básicos de higienização. "Normalmente as pessoas buscavam algum comércio só que, durante o período de isolamento, muitos dos estabelecimentos estavam fechados e se evidenciou essa necessidade porque não tinha a opção dos meios privativos", acrescenta.

O planejamento para instalação de banheiros públicos deve considerar características do ambiente e da demanda, bem como a proximidade da rede de água e esgoto. "Não é só o lavatório ou banheiro individualmente, mas dentro dos espaços públicos, como se conecta com a praças, espaços de permanência e parques. Que tipo de atividades vão ser desenvolvidas no espaço urbano que vão demandar acesso a esses equipamentos?", propõe a professora Mariana Lima.

Considerar os usos da população também pode ser ampliado, ressalta a professora, para a adequação e criação de espaços convidativos à permanência. "Nossa cidade é carente de espaços públicos de qualidade, de um modo geral. Muitas vezes a gente só associa a espaços de circulação, ruas e calçadas, e a gente usufrui muito pouco dos espaços públicos, proporcionalmente ao tamanho e densidade urbana da nossa cidade", avalia a professora.

Quero receber conteúdos exclusivos da cidade de Fortaleza


Redação 30 de Outubro de 2020