Onde estão os alunos cearenses distantes das escolas há 8 meses?

Para muitos, portas fechadas restringem acesso não só a aulas, mas a esporte, cultura, lazer e sociabilidade, atividades cortadas por imposição da crise sanitária; distância expõe meninos e meninas a riscos sociais e emocionais

Milena ficou sem acesso à biblioteca da escola e adiou os planos de participar de atividades extracurriculares
Legenda: Milena ficou sem acesso à biblioteca da escola e adiou os planos de participar de atividades extracurriculares
Foto: Camila Lima

"O colégio era o espaço onde eu sabia que minha vida ia mudar, ganhar uma nova etapa. 'Tava' aguardando isso pra mim". O relato é da estudante Milena Barros, 16, que cursa o 1º ano do Ensino Médio em uma escola estadual de Fortaleza e vê, dia a dia, o calendário de atividades planejadas para 2020 escorrer entre os dedos. Ela, assim como vários jovens cearenses, amarga os efeitos da ruptura causada pela pandemia na educação - cenário que fechou as portas de acesso às salas de aula, ao esporte, à cultura, ao lazer e até à proteção social de que meninos e meninas da rede pública usufruíam.

Instituições das redes municipal e estadual estão fechadas desde março de 2020, quando foi publicado pelo Governo do Ceará o primeiro decreto de isolamento social, com suspensão dos serviços não-essenciais. De lá para cá, já são oito meses sem o universo de atividades e momentos proporcionados pela escola a crianças e adolescentes - sem o mergulho na biblioteca, sem o vôlei na quadra esportiva, sem as feiras culturais e sem as risadas com os amigos.

"No começo, pensei que ia ser só um mês de quarentena. Depois, a pandemia se espalhou, e veio a incerteza de quando a gente vai voltar, porque a vacina não chega e só estaremos realmente protegidos com ela. Já vamos concluir o 1º ano e nem sabemos se vamos começar o 2º ano dentro de casa ou na escola. Entrar no Ensino Médio gera toda uma expectativa de como vai ser, e a gente não conseguiu aproveitar nada disso", lamenta Milena, que sente falta desde os dois ônibus que pegava para chegar às aulas até o espaço onde conseguia fugir da realidade.

"A biblioteca da escola, pra mim, é um mundo. Eu vivia lá. Foi lá que fiquei muito apaixonada pela literatura. Tinha uma fichinha que você ia anotando cada livro que começasse a ler, e eu tinha a meta de conquistar a fichinha de ouro, estava muito animada. Mas aí veio tudo isso, né? E afastou a gente". A lacuna tem sido preenchida, então, com os livros que comprou pela internet e com outra paixão, intensificada durante o isolamento: a culinária.

As receitas gastronômicas ocupam o tempo livre, hoje, mas não substituem as experiências que as olimpíadas disciplinares, as feiras de ciências e de literatura e a semana de dança, teatro e de outras artes trariam. "Essas coisas envolvem todo o colégio, e é muito bom, porque integra todo mundo, a gente faz novas amizades, até com outras turmas. Nossa expectativa foi quebrada", diz.

Efeitos

As faltas que a escola fechada deixam também afetam, todos os dias, a estudante Julia Maria Rodrigues, 15, para quem a chegada da pandemia interrompeu não só a rotina de estudos com que estava habituada, mas o exercício de um amor: o esporte. "Vôlei é uma atividade que eu amo, e logo que ia começar a nova equipe de vôlei na escola, veio a pandemia, e aí foi interrompida. Foi muito frustrante, porque você procura dar o seu melhor e vem um impedimento, que acaba gerando muita ansiedade", confessa.

Sem poder ir à rua e sem o espaço que ocupava pelo menos nove horas do dia, Júlia passou a fazer exercícios físicos em casa e buscar novas distrações para amenizar os efeitos emocionais e psicológicos do isolamento - que a fizeram, inclusive, iniciar sessões de terapia, em julho. "Eu estava muito estressada, e a própria terapeuta veio conversando comigo pra que eu fizesse mais exercícios, pra focar mais em algo e diminuir os sintomas de pânico e ansiedade. Me vi numa situação que eu procurava ajuda ou ia me afundar", reconhece a estudante, que era novata na escola em que estuda.

"Eu não conhecia ninguém ainda, estava em todo o processo de me enturmar. E eu, muito tímida, tinha muito medo disso, de não fazer amizades. E logo quando eu estava fazendo novas amizades, socializando, a pandemia veio e eu perdi contato com várias pessoas. Foi outra frustração, outro desespero, porque é como se tivesse que fazer tudo do começo", afirma Júlia.

Para Pedro* (nome fictício para preservar identidade), 17, ficar sem as aulas presenciais não foi o mais impactante - mas sem a merenda escolar e sem o futebol com os amigos, nos intervalos, sim. "Minha casa é muito pequena, não tem quintal nem área. Pra quadra do bairro a gente não podia ir. Fiquei sem treinar, e meu sonho é ser jogador, né? Fora a merenda, que era muito boa. Minha mãe trabalha o dia todinho, eu não sei fazer comida? É muito ruim, só quero é que (o ensino presencial) volte logo", reclama.

Ticiana Santiago, psicóloga e psicopedagoga, avalia que "perder a interação entre pares, que é constitutiva da identidade de crianças e adolescentes", tem sido um dos maiores desafios para os estudantes da rede pública. Mas a distância gerada pelo fechamento das instituições, segundo ela, deixa meninos e meninas vulneráveis não só a riscos emocionais, educacionais e psicológicos, mas também sociais.

"A escola não é só espaço de instrução, mas, principalmente, para populações de maior situação de risco e vulnerabilidade socioeconômica, é referência para proteção social. Tem famílias com casos de abuso, exploração, omissão ou mesmo de precariedade. Os alunos faziam refeições lá, e eram cuidados. Pra muitas famílias, é na escola que eles têm projeto de vida. Fora da escola, muitas crianças estão sujeitas à situação de rua, trabalho infantil, e seria muito difícil resgatá-las", analisa Ticiana Santiago.

A psicopedagoga, que atua como consultora da Secretaria da Educação do Ceará (Seduc), destaca que foram criados grupos em redes sociais para que as escolas mantenham contato com alunos e famílias, na tentativa de mantê-los focados em atividades. "Mas os riscos não diminuem. Essa pandemia reforçou os hiatos, os abissais de desigualdades que marcam a educação. O desafio é criar estratégias reais e efetivas, incentivar a resiliência nos jovens", conclui.

Carolina Ramos, psicóloga e analista do comportamento, frisa que "a escola tem o papel de ensinar as matérias básicas, mas também de impor regras, disciplina e prover uma rotina", principalmente por meio de atividades extracurriculares, que preenchem o tempo e o conhecimento dos estudantes. "Elas trazem o sentido de aprender o novo, de perceber no outro o interesse por algo. Podem ainda trazer satisfação, lazer, distração, além do sentimento de ser útil e produtivo. As escolas públicas têm uma estrutura que, se retirada, muitos alunos não conseguem suprir, diferentemente da particular. Quando a criança ou adolescente se vê sem isso, é impactada", finaliza.

Para combater o abandono escolar

As dificuldades impostas pela pandemia a estudantes, como falta de estrutura e de incentivo para acompanhar as aulas remotas, são motivos para um aumento preocupante: o da evasão. No intuito de manter os jovens na escola, a Seduc informou, em nota, que "tem orientado as escolas a promoverem a busca ativa, e também ações para manter o vínculo entre escola e alunos para que se sintam apoiados".

Outro projeto que "está em fase de implantação" são os Grupos de Apoio à Permanência Estudantil, "para os alunos oferecerem apoio mútuo à permanência e integração dos demais em aulas e atividades propostas, sempre em parceria com os professores diretores de turmas e Gestão Escolar". A ideia, complementa a Pasta, é que "estudantes, professores, gestores e comunidade desenvolvam esse espírito de cooperação, impactando diretamente na redução das taxas de abandono".

Já a Secretaria de Educação de Fortaleza (SME) afirmou, também por nota, ter criado "um sistema de acompanhamento diário da frequência, como instrumento de erradicar a evasão escolar e efetivar o direito de aprender". O sistema registra as "estratégias de busca ativa", que são comunicação com a família ou com o estudante, envio de comunicado escrito, visita domiciliar e, por último, "esgotados os meios de busca", envio de ofício ao Conselho Tutelar. Segundo a SME, 98,1% dos alunos do ensino fundamental realizaram atividades e interagiram com os professores.

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