Mudança no uso de espaços públicos marca período de isolamento em Fortaleza

Moradores da Capital relatam a falta das vivências em áreas públicas da cidade, agora restritas como forma de evitar a disseminação do coronavírus; especialistas avaliam os efeitos da pandemia sobre o uso dos espaços

Legenda: Até o último domingo (21), o índice de isolamento no Estado era de 47,3%, segundo a empresa de tecnologia In Loco.
Foto: Natinho Rodrigues

Domingo, 15 de março de 2020. O dia era de descanso para a advogada Nahiana Araújo, 38. Um dia ideal para andar de bicicleta pelo Parque do Cocó, refúgio de lazer na natureza em meio à cidade. No resto da semana, a bicicleta também fazia parte do dia a dia, nas idas e vindas do trabalho – dependendo do ritmo, o caminho pelo bairro São João do Tauape levava cinco minutos.  

 

“Não tem coisa melhor do que sentir o vento no rosto. Como Fortaleza é uma cidade muito quente, e o meu trabalho é muito formal e exige roupa social, mesmo toda arrumada, é muito legal ‘quebrar’ isso pegando a bicicleta e saindo no meio do mundo. Quando tem aquele vento maravilhoso, principalmente nas descidas, dá aquela sensação de liberdade”, lembra. 

As caminhadas também eram uma opção. Com supermercado e farmácia em ruas próximas, pequenas viagens a pé já resolviam qualquer necessidade. Mas a realidade precisou mudar. Na sexta-feira, 20 de março, cinco dias após os três primeiros casos do coronavírus serem confirmados no Ceará, Nahiana já havia começado a trabalhar em home office, e o impacto na rotina não tardou. 

“Outra coisa boa de andar de bicicleta é essa sensação de pertencimento da cidade, ao coletivo, ver que tem gente perto de você e poder cumprimentar, isso é muito bom. E foi difícil pra mim, estar dentro de casa o tempo todo”, lamenta a advogada. Ela convive com hipertensão, e, por isso, faz parte do grupo de risco da Covid-19. “Primeiro, me senti triste e ao mesmo tempo tentando compreender que era um momento e que ia passar, mantendo o pensamento positivo. Mas depois da segunda semana, começou a apertar”. 

Nesse mesmo período, o índice de isolamento social no Ceará estava em 43,8%, de acordo com os dados da empresa de tecnologia In Loco. Pouco depois, no dia 22 de março, o Estado alcançou o maior índice desde o início da epidemia: 63%. O ideal orientado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) era de 70%. 

Foto: Natinho Rodrigues

A psicóloga Zulmira Bomfim, especialista em espaços públicos e professora do programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC), avalia que a ocupação das áreas comuns ocorre de formas diferentes de acordo com o que representa para a população que frequenta cada espaço. Dependendo da classe social, segundo ela, a pandemia não modificou a situação de forma geral. 

“A pandemia acentuou a ocupação ou não do espaço de acordo com a classe social, e o espaço continua apontando e refletindo essa segregação, de quem já está em situação de vulnerabilidade. Os moradores de rua, por exemplo, continuam ocupando esse espaço porque não têm outra alternativa. E também as pessoas que precisam estar na rua para ganhar o pão de cada dia”, pondera. 

Ela explica que esses locais são pontos de convivência, trocas e encontros humanos, fatores restritos pelo isolamento. Para outros grupos sociais, porém, continuam sendo meio de sobrevivência. “Em bairros mais nobres, cada um fica em seu apartamento. Já em bairros populares, onde as pessoas colocam as cadeiras na calçada, por exemplo, a casa e a rua são quase uma extensão uma da outra. Há essa diferença”, diz a psicóloga. 

Zulmira Bomfim destaca, ainda, que ao caminhar pela cidade ou percorrer o meio urbano no transporte público ou particular, as pessoas constroem seus trajetos mentalmente. Esses trajetos geram o sentimento de “pertencer” e se relacionar com a cidade onde se vive. 

Hábitos 

Quinta-feira, 7 de maio. A sensação de pertencimento, para Nahiana Araújo, precisou ser transferida logo nas primeiras semanas do mês. A advogada se mudou para um sítio em Caucaia, para continuar cumprindo o isolamento social junto a outros membros da família; e ela não espera voltar “tão cedo”. 

“Estamos em home office por tempo indeterminado, e eu pagava um valor de aluguel muito caro. Perdeu o sentido, porque o legal de morar ali é que era tudo perto e acessível, tinha ciclofaixa por todo lugar, dava pra fazer tudo a pé”, lembra. Nesse período, o índice de isolamento no Ceará oscilava entre pouco mais e pouco menos que 50%.  

Assim como Nahiana, outros moradores da Capital sentiram ausência do espaço público no dia a dia. Para o servidor público Bráulio Carvalho, 36, o hábito de pedalar era rotina desde julho de 2019, com trajetos diários de ida e volta para o trabalho, cada um em seis quilômetros.

Ele utilizava o sistema Bicicletar Corporativo e planejava comprar a própria bicicleta, mas precisou adiar a aquisição. Suas atividades presenciais foram interrompidas completamente em março, quando passou a trabalhar em home office. 

“A gente cria o hábito tanto do movimento quanto de apreciar o passeio, e realmente ‘tá’ muito ruim. Ainda não me acostumei, todo tempo querendo voltar ao movimento e os espaços públicos estão fechados”, diz Bráulio. “Eu não estou fazendo nenhum tipo de exercício, e estou sentindo o impacto, o desconforto dessa mudança. O ciclismo, pra mim, trazia um bem-estar que, por enquanto, está inexistente. Estou aguardando que seja liberado para poder voltar a andar”. 

Foto: Natinho Rodrigues

Embora o número de viagens no meio urbano tenha diminuído em Fortaleza, foi observada uma diferença em relação ao uso de cada modal. Entre abril e maio, a utilização das bicicletas diminuiu 37%, enquanto o uso do transporte público caiu aproximadamente 80%, e os veículos individuais – carro e motocicleta – reduziram em cerca de 60%.

Os dados foram informados pela Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos (SCSP), e, de acordo com secretário executivo da Pasta, Luiz Alberto Sabóia, refletem uma decisão intuitiva dos usuários. "Eles passaram a entender que, na necessidade de um deslocamento, a bicicleta é o meio mais seguro, por ser ao ar livre. Estando de máscara, tomando seus cuidados e utilizando sozinho, é um modo de transporte que minimiza o risco de contaminação na pandemia. A própria OMS explica isso", afirma.

Mobilidade 

A psicóloga ambiental Karla Ferreira, coordenadora do Laboratório de Estudo das Relações Humano-Ambientais (LERHA) da Universidade de Fortaleza, considera que a procura por espaços públicos como parques urbanos e praias deverá ser ainda mais intensa no período pós-pandemia. Para isso, segundo ela, é preciso que a cidade “esteja preparada”. 

“Acredito que agora é o momento de o Governo dar suporte nas questões de saúde, mas em breve será o momento de apoiar o sistema de transporte público, e, com uma certa urgência, voltar o olhar à mobilidade urbana. Fortaleza tem trabalhado essa mudança há um tempo com o Bicicletar e as ciclofaixas, e agora é hora de ampliar. Investir na possibilidade de caminhar e andar de bicicleta é essencial”, diz. 

O investimento nos bairros, segundo Ferreira, também será uma fator-chave nesse momento, fortalecendo equipamentos de saúde, mobilidade e lazer, tornando-os mais acessíveis. “Isso não deve impedir que as pessoas circulem pela cidade, e sim para que tenham opção”. Ela enfatiza, ainda, a necessidade de incrementar parques urbanos e incentivar o uso de áreas verdes para o lazer em prol da saúde física e mental. 

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Qualidade de vida

Para o prefeito Roberto Cláudio, a pandemia cria uma contradição a respeito do que é a qualidade de vida nas cidades. Ele cita que, para urbanistas e planejadores urbanos, o conceito de planejamento ideal é o de adensamento e diversidade do uso do solo, ou seja, ter muitas pessoas em pequenos espaços públicos com usos diversos. "Esse conceito de qualidade de vida urbana, no caso da pandemia, é a pior circunstância para a transmissão da doença", avalia.

O gestor municipal afirma que enquanto o vírus estiver circulando e não houve na cidade uma "imunidade de rebanho" ou uma vacina, o conceito de qualidade de vida urbana e ocupação do espaço público continuarão sendo afetados.

"Não tenho hoje condições de definir quanto tempo vai levar (para voltar ao normal). Muito dificilmente nos próximos 100 dias a gente poderá ter o tipo, a qualidade e a diversidade da ocupação do espaço público que a gente tinha antes da pandemia. De alguma maneira, isso ficará ainda afetado. Vamos ter que conviver com esse conceito do novo normal", diz Roberto Cláudio. 

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