Mobilidade: Fortaleza precisa se tornar uma cidade "fisicamente ativa", defende especialista

Urbanista defende o incentivo de deslocamentos a pé ou de bicicleta para o combate de doenças associadas ao sedentarismo. Especialista participou do 4º Seminário Internacional de Políticas Públicas Inovadoras para Cidades

Escrito por Nícolas Paulino, nicolas.paulino@svm.com.br

Metro
Legenda: Fortalezenses mudam rotina, com deslocamentos a pé ou em bicicletas
Foto: Foto: JL Rosa

Se todo deslocamento começa e termina a pé, o meio também poderia ser. A premissa é básica, mas difícil de ser posta em prática pela grande utilização de veículos motorizados para transporte - só em Fortaleza, são 1,1 milhão, segundo a Prefeitura. Caminhar contra a corrente de doenças não-transmissíveis trazidas pelo estilo de vida sedentário é urgente, segundo o urbanista colombiano Gil Peñalosa, presidente do conselho da organização 8 80 Cities. Para ele, a Capital precisa se tornar "fisicamente ativa".

A transformação de Fortaleza em um espaço "mais vibrante e saudável para todos" orienta as discussões do 4° Seminário Internacional de Políticas Públicas Inovadoras para Cidades, realizado no Centro de Eventos do Ceará, até a próxima sexta-feira (6). O evento discute sete painéis temáticos: Mobilidade, Espaços Urbanos e Cidadania, Saúde, Juventude e Empreendedorismo, Economia e Cidades Criativas, Educação, Primeira Infância e Protagonismo das Cidades.

Na Capital, em 2017, 56% da população sofriam com excesso de peso; 22% com hipertensão; e 8% com diabetes, conforme dados mostrados pelo secretário-executivo da Secretaria Municipal de Conservação e Serviços Públicos (SCSP), Luiz Alberto Sabóia. Segundo Gil Peñalosa, o combate a essas condições passa por investimentos na chamada "mobilidade sustentável", realizada a pé, em bicicletas ou transporte público, como ônibus e metrô.

Para isso, o urbanista indica que as cidades devem se antecipar e desenhar seus espaços para uma população cada vez maior e cada vez mais velha. Aliás, dois opostos precisam ser contemplados na visão de futuro: as crianças e os idosos. Ou, como ele prefere chamar, "8 ou 80". "Precisamos parar de planejar as cidades apenas para pessoas com 30 anos", aponta, lembrando a necessidade de acessibilidade para pessoas com deficiência.

Nos projetos, a caminhabilidade deve ser priorizada. "As calçadas são a parte mais importante da infraestrutura de uma rua. São onde as pessoas se encontram, conversam, tomam um café, se socializam. Os pedestres vêm primeiro. Sempre pense em como qualquer intervenção pode ser melhorada para eles", explica o especialista.

Qualidade de vida

Além da melhora no condicionamento físico, as mudanças de mobilidade também têm potencial de melhorar aspectos mentais, como a solidão e a depressão. Gil é entusiasta da rua como espaço de encontro e sociabilidade, mas também recomenda a multiplicação de parques com áreas verdes e assentos para permitir a ocupação do espaço urbano e, consequentemente, reduzir os vazios espaciais onde o medo é cultivado.

Para a secretária de Relações Internacionais e Federativas de Fortaleza, Patrícia Macêdo, o seminário é a oportunidade de colher experiências capazes de serem replicadas na Capital. "As cidades no mundo enfrentam o mesmo tipo de problemas, guardadas as devidas dimensões. A desigualdade é um problema central, por isso é importante fazer essa troca. Tentamos trazer pessoas que tenham realmente transformado planos e ideias em ação", diz.

Luiz Alberto Sabóia, da SCSP, destaca que, dentro desse fenômeno, a cidade vem ampliando o acesso à rede cicloviária, hoje com 287,4 km de estrutura. Ela deve chegar a 400 km até o fim do ano. "A bicicleta tem sido uma grande aposta para o futuro, e é impressionante como a cidade tem abraçado essa política. Sempre ouvia que Fortaleza tem muito sol, mas, hoje, a Bezerra de Menezes tem 3.800 ciclistas por dia. Além disso, 50% da população mora em até 300 metros de uma ciclofaixa ou ciclovia, e cada vez mais elas se conectam com a periferia", garante.

Expansão

Outro eixo de atuação da Prefeitura é a expansão das faixas exclusivas para ônibus, hoje em 115,6 km. Afinal, quanto maior o veículo, mais gente pode ser deslocada - e com menos prejuízos ambientais. "Os transportes representam 61% das emissões de gases em Fortaleza. O uso do transporte público promove uma redução drástica na poluição da cidade", afirma Sabóia, que ressalta outras iniciativas, como os ônibus articulados, o Bilhete Único e o transporte público sob demanda, hoje em testes.

Os desafios, claro, são enormes. Fortaleza tem cerca de 4.400 km de vias, por onde trafegam 2,7 milhões de habitantes - fora a circulação da Região Metropolitana. Diariamente, segundo a Prefeitura, são realizados 5 milhões de deslocamentos. Com tantas variáveis, o urbanista Gil Peñalosa sugere que a população deve se engajar nos projetos. "Mudar é difícil, mas deve prevalecer o desejo geral. A visão tem que ser compartilhada", resume.

Nesta quinta (5), entre outras ações, o Seminário Internacional promove o painel Rede de Cidades Criativas Unesco, um debate sobre a Deliberação Cidadã e lança o Concurso Fortaleza Cidade Criativa do Design, o livro Políticas Pública Inovadora para Cidades: Fortaleza e a Agenda 2030.

65% das viagens na Capital são a pé ou de ônibus

Dados da Pesquisa Origem-Destino 2019, desenvolvida a partir de fevereiro do ano passado, pela Prefeitura de Fortaleza, mostram que 65% dos deslocamentos diários realizados na Capital já são por meio de caminhada, ônibus ou bicicleta.

As informações foram divulgadas pelo secretário executivo de Conservação e Serviços Públicos, Luiz Alberto Sabóia, durante o 4° Seminário Internacional de Políticas Públicas Inovadoras para Cidades.

A maioria das viagens (32%) é feita a pé; 28%, de ônibus; 26%, de carro; 9%, de motocicleta; e 5%, de bicicleta. Apesar de concentrar a menor parcela das viagens diárias, as conhecidas “magrelas” são utilizadas em cerca de 20% das entregas comerciais feitas na cidade. Desta forma, os chamados “modos sustentáveis” respondem por mais de seis a cada dez deslocamentos feitos por quem vive na Capital cearense.

A partir da análise, a Prefeitura de Fortaleza pretende elaborar ações de melhoria do transporte público. O último estudo semelhante foi feito para a implantação do metrô e data de 1996. Em grandes cidades, a periodicidade ideal é de dez em dez anos.

O estudo visitou cerca de 23 mil domicílios, com estimativa de que 100 mil pessoas tenham sido consultadas desde julho de 2018. A pesquisa também havia identificado que 60% dos usuários do transporte coletivo são mulheres.

A partir das demandas da população feminina, por exemplo, será possível elaborar políticas públicas específicas. Dentre elas, melhorias no botão Nina, ferramenta do aplicativo Meu Ônibus para facilitar denúncias de assédio em veículos, paradas e terminais.