Meu pai, uma fortaleza

Papai era uma figura marcante por onde passava e conseguia ser muitos em um só. Era boêmio, revolucionário, sonhador e poeta, gostava de debater pelos mais diversos assuntos e não fugia de uma boa briga

Praça do Ferreira
Legenda: O sábado era sagrado para ir ao Centro da Cidade, visitar locais como a Praça do Ferreira
Foto: Nilton Alves

"Naquela mesa tá faltando ele e a saudade dele tá doendo em mim", eram versos que eu escutava ecoar na minha casa em todos os dias dos pais. A voz potente do cantor Nelson Gonçalves tocando no som da sala se confundia com o choro sentido do meu pai lamentando a partida precoce do meu avô. Mal sabia que em um curto espaço de tempo eu que seria o protagonista desta cena escrita pela saudade.

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Esse é o sétimo Dia dos Pais que não posso abraçar "meu velho", conversar com ele na hora do almoço, rir de alguma piada ou até discutir por tantas ideias divergentes. São sete anos de um vazio imenso e diário, um pesadelo que perdura mesmo acordado, um amor que me faz viajar no mundo das lembranças para poder seguir.

Papai era uma figura marcante por onde passava e conseguia ser muitos em um só. Era boêmio, revolucionário, sonhador e poeta, gostava de debater pelos mais diversos assuntos e não fugia de uma boa briga. Ditava seu nome "Edivaldo Diógenes" como se esse carregasse uma aura, uma altivez e apesar de ser apenas um cidadão comum ele sabia o peso de ter um personalidade.

Como pai, ele não foi diferente, se mostrava vários, um para cada filho. Por vezes autoritário por outras brincalhão, seus erros sobressaíram suas virtudes. A voz que chegava a machucar e ferir era a mesma que acalentava e me tirava uma boa gargalhada. Talvez nossa relação tenha sido sempre assim entre o medo e a amizade, que somente pecou por excesso de amor.

Depois de todos esses anos, a sensação de que ele vai chegar em casa a qualquer hora ainda existe, e quando essa insiste em atormentar saio à procura do "Seu Edivaldo". Fortaleza é a cara dele e a cada palmo desta cidade revivo suas histórias e com o tempo essas viraram "nossas".

O sábado era sagrado, me acordava cedo e me levava ao Centro. A cada rua contava um causo da sua vida que hoje sei todos decorados. O destino era uma chapelaria bem antiga na frente da "Praça dos Leões", onde experimentamos os mais diversos chapéus, acessório que virou uma marca nossa.

Infância

Depois das compras seguíamos para a tal "aldeia Aldeota", bairro esse que ele nasceu e morou durante toda infância. E as paradas eram muitas! Ele começava sempre na Igreja do Cristo Rei, onde contava sobre sua primeira comunhão, depois passava na casinha na Rua Pinto Madeira, sua primeira morada, onde falava das lembranças com seus cinco irmãos e seus pais, meus avós Carmelita e Divaldo.

Sem esquecer a juventude, íamos até um barzinho reencontrar os seus primos e os amigos da Jota da Penha, aliás a Rua era o desfecho do passeio, onde fazia questão de visitar a querida Tia Vanda, no casarão que pertenceu seus avós, Aliatar e Mocinha, e rememorava mais o passado?

Quando o dia era ensolarado, dois outros locais da cidade se faziam presentes na nossa caminhada. O primeiro era o Mercado São Sebastião, onde papai ia comprar jenipapo, fruta que em casa só ele gostava. O segundo e mais marcante era a Beira-Mar, aquele oceano nos fazia mergulhar em um horizonte infinito.

Diante dos "olhares de Iracema", meu pai confidenciou segredos, vitórias, frustrações, utopias e mesmo quando ele preferia ficar em silêncio, aquele olhar já falava muito mais. Muitas são as lembranças com ele, muitas histórias e principalmente muita saudade ao longo destes anos. Nossas conversas se perpetuaram no tempo, naquele mar, e hoje caminham na eternidade.

Na nossa última conversa, já no leito de hospital e em tom de despedida "Seu Edivaldo" olhou para uma enfermeira e disse batendo no meu ombro: "esse daqui é minha continuação, minha versão melhorada". E apesar daquela responsabilidade da afirmação, vejo hoje que de alguma forma a profecia vai se cumprindo. O chapéu continua na cabeça, a música permanece tocando e os sonhos prevalecem resistindo. Meu pai vive em mim !

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Redação 23 de Setembro de 2020