Menor atuação dos homens no lar sobrecarrega mulheres

Estudo do IBGE aponta que, embora a participação dos homens cearenses nos afazeres domésticos tenha aumentado nos últimos três anos, as mulheres ainda trabalham duas vezes mais em casa

Legenda: As mulheres cumprem uma jornada profissional no mercado e depois se dedicam às tarefas domésticas
Foto: FOTO: AGÊNCIA DIÁRIO

Os lares cearenses vêm passando por mudanças rápidas e importantes nos últimos anos, refletindo as recentes discussões sobre papéis de gênero e outros fatores, como rotinas com cada vez menos tempo livre, o desemprego e o envelhecimento da população. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) constatou na Pesquisa Outras Formas de Trabalho 2016-2018, divulgada ontem, que tem mais gente no Estado cuidando dos próprios domicílios ou de domicílios de parentes, mas o tempo disponível para a realização dos afazeres domésticos vem diminuindo.

Mesmo assim, as mulheres ainda trabalham, em casa, duas vezes mais que os homens. A média de tempo cedida por elas, semanalmente, era de 21,7 horas, em 2016. No ano passado, passou para 20,2 horas. Entre os homens, 11,1 horas eram dedicadas ao lar, há três anos; em 2018, a medida caiu para 9,9 horas. Porém, eles cuidam mais de atividades de gestão, como fazer compras ou pesquisar preços de bens para o domicílio, além de pagar contas, contratar serviços e orientar empregados. A elas, cabe o trabalho mais "braçal", como preparar ou servir alimentos, lavar roupas e arrumar a casa.

Na leitura da coordenadora do Curso de Serviço Social da Universidade Estadual do Ceará, Paula Brandão, a sociedade brasileira ainda é influenciada por ideias patriarcais, que opõem os cuidados com o lar, atribuído historicamente ao feminino, à virilidade masculina. Assim, muitas vezes, a mulher precisa assumir os cuidados com o lar não porque queira, mas de fato por falta de opção.

"Além do trabalho fora, ela ainda vai fazer o de casa, a chamada 'dobradinha infernal'. Depois, abre mão do lazer pra dar conta das tarefas, e isso causa adoecimentos de várias ordens, como a depressão", lamenta a pesquisadora, ressaltando que "os homens não conseguem ou não foram criados para compartilhar" os afazeres domésticos. "A casa ainda é um local de muita discussão", explica Brandão.

Embora ainda longe do índice de 89,2% das mulheres cearenses que cuidam de afazeres domésticos, cresceu, nos últimos três anos, o percentual de homens que também ajudam na manutenção das residências. Em 2016, eram 59,2%; no ano passado, representaram 69,7%. No Conjunto Esperança, por exemplo, a cumplicidade do casal Daniella Brazilino e Francisco Dutra se reflete, além dos cuidados com os filhos, na divisão de tarefas do que cada um pode fazer dentro de casa.

A artesã e capoeirista conta que sempre foi muito protegida pela mãe, que não a "deixava fazer nada". Só após a união, ela aprendeu os macetes das atividades domésticas com o marido. "Ele mais me ensinou do que eu fazia. Hoje, eu sei fazer tudo", explica.

Os dois revezam o cuidado com os filhos enquanto estão dando aula, e Dutra lava louça, varre e limpa a casa. "Fim de semana ele também faz a comida, sem problema", diz Daniella. A disciplina dos capoeiristas também é passada para a filha Kayllane, de cinco anos, e para Kayan, de um ano e dez meses.

"Eu já ponho para arrumar os brinquedos ou me ajudar em alguma coisa. Por mais que a ação seja pouca, já vira um hábito para eles, desde novinhos", destaca a mãe.

Bons exemplos dentro de casa, a professora Mariana Menezes, de 23 anos, sempre teve. Ela se enquadra na tendência apontada pela pesquisa do IBGE para sua faixa etária: que os jovens de 14 a 24 anos são o antepenúltimo grupo do País que menos ajudam, à frente somente dos estados de Sergipe e Rio Grande do Norte. Apesar do resultado, houve aumento da participação. Em 2016, apenas 60% deles realizavam alguma tarefa. Em 2018, o índice subiu para 68%.

Em janeiro deste ano, ela deixou a comida feita, a cama arrumada e a roupa lavada que tinha à disposição na casa dos pais, pelo desafio de morar sozinha. "Antes, eu não fazia quase nada lá. Como eu trabalhava e fazia faculdade, passava o dia todo fora; saía 6h e voltava 23h. Tinha que andar pra lá e pra cá cheia de mala, e era bem complicado associar tudo", justifica, ressaltando que, mesmo assim, aprendeu "a fazer tudo de casa".

Hoje, ela precisa se virar sozinha para dar aulas, ir à academia, fazer compras, limpar a casa (geralmente uma vez na semana), preparar marmitas de refeição e pagar boletos - "a pior parte", agora que sabe os produtos que pesam no orçamento. "É bem cansativo. Os períodos mais difíceis são quando estou com muito trabalho acumulado, já que trabalho em duas escolas. Às vezes, tenho crises de ansiedade por conta disso", revela.

Mudança

"Acho que o que vem mudando é como a mulher tem se colocado. Leva tempo para se construir uma nova ideia", diz a professora Paula Brandão, da Uece. Para ela, o comum aos dois gêneros é um processo ainda em curso de mudança na relação com o lar.

"Os cuidados vêm diminuindo porque as pessoas vêm procurando outras facilidades. As coisas estão mais fáceis, na palma da mão: mandam deixar as compras do mercado em casa, ou chamam serviços mais especializados de limpeza, como faxineiras", deduz.

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