Mães universitárias enfrentam redução no tempo livre de estudo em meio ao retorno das aulas

Considerando o cenário da pandemia e o estudo remoto, psicóloga apresenta estratégias para mães conciliarem estudos e maternidade, apontando a importância da divisão de tarefas

Legenda: A estudante de serviço social, Melissa Toscano, 27 anos, conta com a ajuda dos familiares para cuidar da filha, Marina Toscano, 6 anos, enquanto realiza as atividades acadêmicas
Foto: Arquivo pessoal

Com a pandemia e a necessidade de evitar aglomerações, o regresso das aulas no Ceará se deu de modo remoto tanto para colégios, quanto para instituições do ensino superior. Nesse cenário, mães cursando graduação precisaram conciliar as atividades domésticas e maternas com as responsabilidades universitárias, muitas vezes enfrentando sobrecargas de trabalho. Além disso, há também a dificuldade de conseguir tempo livre e espaço adequado para estudos. No caso de Melissa Toscano, 27 anos, a ajuda dos familiares foi essencial.  

Para a estudante de serviço social da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e mãe de Marina Toscano, 6 anos, deixar a filha sob os cuidados do irmão ou dos pais foi a única forma encontrada para estar presente nas duas horas de aulas noturnas da quarta e sexta-feira. Cursando a disciplina de Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) desde o dia 31 de julho, o fim da sua graduação se aproxima, mas falta tempo livre para se dedicar integralmente à pesquisa

“É enquanto Marina está na casa do pai que eu consigo estudar por conta própria, fazer trabalho e adiantar a pesquisa. Porque quando ela está em casa eu realmente não faço, eu só consigo assistir às aulas mesmo”, explica. 

Ainda com a ajuda dos parentes, Marina às vezes interrompe as aulas, buscando a atenção da mãe. “Eu explico para ela que assim como ela tem as aulas online dela, eu também tenho as minhas”, afirma. Após a pandemia, percebe ter passado a dedicar mais tempo a filha, inclusive para ajudá-la com o ensino remoto.

Em sua visão, a rotina antes do coronavírus era difícil pela necessidade de deslocamento de casa para a universidade, o estágio e à escola da criança. Em contrapartida, na pandemia, notou um maior estresse na filha e a redução na qualidade das aulas.  

Recomendações

Conforme a psicóloga clínica e especialista em práticas parentais educativas, Jessica Rosa, a responsabilidade do cuidado dos filhos atribuída somente para as mães, resulta em uma sobrecarga com a necessidade de conciliar trabalho, maternidade e estudo. Esse cuidado, no entanto, deveria ser compartilhado com o parceiro, em caso da família conter um núcleo familiar para além da mãe e dos filhos. 

Com a pandemia, para além de todas as atividades já realizadas no núcleo familiar, Jessica aponta que muitas mães passaram a acompanhar também o ensino remoto dos filhos. “Houve uma sobrecarga para mulher nesse sentido, porque para a mulher que estuda, além de ter que assistir as próprias aulas, também precisou ter que assistir às aulas junto dos filhos, garantindo que fizessem as atividades”, declara. 

No casos em que não há com quem dividir o cuidado, recomenda principalmente o diálogo com os filhos, explicando a importância do tempo de estudo próprio, ou mesmo a realização de um estudo coletivo. Enquanto a criança realiza as atividades da escola, a mãe pode se concentrar nas responsabilidades universitárias. 

“E vai ser super bacana para a criança porque vai ver a mãe estudando e vai se espelhar nisso. A criança, aprende muito por imitação. Ela vê a mãe fazendo e é importante para desenvolver o próprio comportamento de estudo”, finaliza. 

Organização

Legenda: A estudante de arquitetura Juliana Araripe, 36 anos, precisa conciliar as atividades domésticas, profissionais e acadêmicas com o cuidado da filha, Maria Eduarda, 13 anos
Foto: Arquivo pessoal

A estudante de arquitetura da Universidade Federal do Ceará (UFC), Juliana Araripe, 36 anos, é muitas mulheres em uma. Dona de casa, professora particular, confeiteira e mãe de Maria Eduarda, 13 anos, precisa dividir o seu tempo em todas as responsabilidades, percebendo um aumento na sobrecarga após a pandemia. 

"Tenho que me virar pra trabalhar, ensinar minha filha, cobrar, educar, estar atenta às necessidades e particularidades dela e da vida materna. Ela é um indivíduo com os próprios gostos e demandas próprias, e só tem a mim para atender muitas dessas questões”, compartilha.

Por mais que nem sempre a filha compreenda a importância da mãe em trabalhar e estudar, na maior parte do tempo respeita os momentos da realização das atividades acadêmicas. Porém, com o cenário da pandemia, Maria Eduarda começou a demandar mais atenção. 

“O desafio maior é não ter privacidade mental para pensar somente nos estudos, como era enquanto eu estava na faculdade. Preciso dividir meu computador, para que minha filha assista às aulas da escola. Criança mexe em tudo, danifica. E meu computador é minha ferramenta fundamental para estudar”, finaliza. 

Enquanto perdurar a necessidade de permanecer em casa, Juliana deve manter as conversas com a filha, reforçando a importância de suas obrigações e do tempo livre para estudo. 

Quero receber conteúdos exclusivos da cidade de Fortaleza