Mães adiam matrículas escolares em meio a incertezas e medo no cenário da pandemia

Entre o medo de contaminação no ensino presencial e as dificuldades enfrentadas pelos filhos no modelo à distância, pais sentem inseguranças na decisão de efetivar a matrícula

Legenda: Por medo de contaminação da Covid-19, a dentista Rosana Dias, 47 anos, irá manter seu filho no ensino remoto, mesmo com a opção de aulas presenciais
Foto: Arquivo pessoal

Se o ano passado foi marcado por mudanças para os estudantes de ensino particular, com a adaptação para o ensino remoto e o posterior retorno gradual às escolas, 2021 também carrega incertezas. Como será a volta presencial para o 1º e 2º ano do Ensino Médio? As medidas de segurança adotadas serão eficazes para evitar o contágio da Covid-19? Em meio a essas e outras dúvidas dúvidas, mães adiam a matrícula dos filhos enquanto se organizam para tomar uma decisão.

No caso da chefe de Recursos Humanos, Cristiane de Oliveira Neves, 47, o temor pela Covid-19 fez com que optasse por manter a filha em casa, mesmo quando a 9ª série foi liberada em 2020. Neste ano, a estudante Thaiane de Oliveira Neves, 14 anos, irá cursar o 1º do Ensino Médio, um dos grupos ainda não liberados em decreto estadual

Apesar da boa adaptação da filha ao ensino à distância, não esconde a preferência pelas aulas presenciais. “O presencial é bem melhor, porque prestam atenção, mas com essas inseguranças, prefiro que fique online”, conclui. Para ela, uma determinação mais assertiva sobre a situação dos estudantes de ensino particular facilitaria o momento de tomar a decisão de matrícula.

“Ainda não matriculei, porque está nessa incerteza de como vai ser daqui para frente. Isso (o retorno presencial) influi em várias coisas. Tem que acionar o motorista, se for presencial, ou garantir um outro aparelho eletrônico se continuar remoto”, explica. 

Legenda: Mesmo a série de sua filha ter sido liberada em 2020, Cristiane de Oliveira decidiu manter a jovem no ensino remoto
Foto: Arquivo pessoal

Grupo de Risco 

Por sua vez, a dona de casa Maria Eliete Ferreira, 41 anos, também prorrogou o momento de matrícula, já que seu filho, José Marllon Ferreira Nogueira, 7 anos, faz parte do grupo de risco por ter diabetes. “No ano passado, a gente manteve ele na aula online. Como ele é do grupo de risco, ficamos com receio de mandar para as aulas presenciais”, explica. 

No entanto, agora Maria avalia a possibilidade de mudar o modelo de ensino, por perceber que seu filho tem sentido dificuldade com as aulas remotas e sido prejudicado por isso. Segundo aponta, o jovem teve problemas de concentração e no acompanhamento das atividades realizadas no novo modelo.

“Ele não aprendeu a ler. Era para ele ter saído do primeiro ano lendo. Então, em questão de concentração, ele não acompanhou. A gente está preocupado como vai ser o segundo ano, se ele foi tão prejudicado pelo anterior”, comenta. 

Em meio a todos esses fatores, Eliete busca uma forma de se tranquilizar para conseguir tomar a decisão da matrícula. “Cada dia a gente vê que está se agravando mais aquele risco, tento encontrar algo para tranquilizar a gente”, diz.

Continuar remotamente

Assim como Cristiane e Eliete, a dentista Rosana Dias, 47 anos, também compartilha os medos de contaminação da Covid-19. Trabalhando diretamente com pacientes, receia que o filho pegue a doença ou que ela mesma se torne agente de contágio. 

Temo que as pessoas não respeitem e tratem a pandemia como ela deve ser tratada. As pessoas nem sempre têm a consciência que deveriam ter sobre a questão que estamos vivendo hoje”, declara, compartilhando a preocupação de pais e mães enviarem filhos com sintomas da Covid-19, apesar da não confirmação.

Porém, apesar das angústias, realizou a matrícula logo no começo de dezembro. “Vejo que Gabriel não pode ficar fora da escola. Não sei se vou mantê-lo o ano inteiro no remoto, mas nesse primeiro momento vou deixá-lo só nas aulas online”, aponta. Conforme explica, a escolha também partiu dele, que pediu para continuar no modelo de ensino à distância. 

Legenda: Para não afetar os estudos do filho, Rosana optou por realizar a matrícula apesar das inseguranças devido ao cenário dos casos de coronavírus
Foto: Arquivo pessoal

Impacto nas matrículas

Em 2021, o coordenador da comissão de volta às aulas do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino (Sinepe), Henrique Soárez, explica que as matrículas estão abaixo do esperado para o período em estabelecimentos de ensino privado. Ele avalia que a indefinição do Governo do Estado sobre a liberação de atividades educacionais prejudica o planejamento das famílias.

“De fato, as matrículas estão menores nesse momento, e a gente acredita que é um efeito temporal porque as famílias estão em casa esperando o que vai acontecer. Tão logo o Governo seja claro, específico de como isso vai acontecer daqui pra frente, as famílias vão responder e vamos seguir com a vida", declara.

O diretor executivo do Colégio Provecto, Osvaldo Campos, de fato percebeu o cenário de redução das matrículas. “O contexto da pandemia traz um percentual menor de matrículas sim, o que já era de certa forma esperado”, afirma. Porém, apesar disso, declara que as matrículas seguem ocorrendo com uma procura maior em comparação ao estimado. 

Além disso, com a possibilidade de ensino híbrido, tendo parte das aulas remotas e outra presencial, os pais têm optado mais por essa modalidade. “Nenhuma criança pode ficar afastada de sala de aula. O que acontece, também é comprovado cientificamente e estatisticamente, que o percentual de contaminação nas escolas foi reduzido”, finaliza. 

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