Leitos insuficientes ampliam espera de pacientes no Hospital Mental

Número médio de pessoas que passaram mais de 24 horas na emergência da unidade de saúde é quase seis vezes maior que a meta estabelecida pela gestão; taxa de ocupação dos leitos também ficou acima da meta em 2019

Escrito por Theyse Viana, theyse.viana@svm.com.br

Metro
Legenda: No Hospital de Saúde Mental de Messejana, 274 pacientes passaram mais de 24 horas na emergência em outubro
Foto: FOTO: ISANELLE NASCIMENTO

Estar no mundo é desafiador, complexo, exigente - e pesado. A sanidade pode se perder na complexidade da mente, das relações ou do cotidiano, de modo que cuidar da saúde mental deixou de ser opção para ser necessidade básica. O reflexo dos tempos atinge em cheio o sistema público: no Hospital de Saúde Mental de Messejana (HSM), o número de pacientes que passaram mais de 24 horas na emergência chegou a 274, em outubro. A média de 2019, de janeiro até aquele mês, foi de 316 pessoas - 5,7 vezes maior do que a meta de 55 preconizada pela gestão estadual.

Os dados são do Integra SUS, plataforma de transparência da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), e apontam que o HSM sequer se aproximou do número ideal de pacientes na emergência neste e no ano passado. Em 2019, o mês com maior número foi maio, que registrou 392 pacientes nessa situação. Até o mais favorável dos cenários foi quatro vezes pior do que o ideal: em fevereiro, 239 pessoas permaneceram na emergência por mais de um dia.

Os números deste ano, em geral, se mostraram piores, se comparados a 2018. No ano passado, o pico de pacientes que vivenciaram espera superior a 24h por internação foi de 241 pessoas, quantidade menor do que a registrada em nove dos dez meses deste ano analisados pela reportagem. A média, ano passado, foi de 212 - quase quatro vezes mais que o ideal.

O psiquiatra Davi Queiroz, diretor técnico do HSM, explica que esse indicador é composto por pessoas que estão no setor de "observação" da unidade, recebendo cuidados enquanto esperam por vaga em um dos 180 leitos próprios de internação disponíveis - 160 gerais e 20 da unidade de desintoxicação - ou nos hospitais parceiros do HSM (São Vicente de Paulo, Nosso Lar e Sopai, para crianças e adolescentes). Segundo o médico, o tempo médio de espera, atualmente, é de cerca de 34 horas, mas pode chegar, em casos excepcionais, a até dez dias.

Internações

A meta estabelecida pela Sesa é de que a taxa de ocupação dos leitos esteja sempre entre 85% e 95% - mas no ano passado, a média foi de 96,4%. Já em 2019, os meses entre fevereiro e junho registraram superlotação, com mais de 100% dos leitos ocupados. No mês passado, a taxa totalizou 98,5%, e em todos os demais meses entre janeiro e outubro a meta foi fracassada.

A aposentada Irene Pereira, 57, sente em cada parte do corpo e da mente o desconforto do aguardo por uma vaga para o filho de 32 anos, dependente de álcool e drogas. Na quinta-feira (28), quando conversamos com ela, os dois já estavam na "triagem" do hospital há cinco dias, esperando "um leito que não surge". "Às vezes, tem um canto pra se deitar, às vezes não tem. Fico sentada nas cadeiras lá dentro ou venho pra fora? É uma rotina muito pesada", desabafa a aposentada, acompanhante do filho no HSM pela terceira vez.

Para ela, a preocupação com a agressividade do rapaz só não supera a que tem com o esposo, também paciente psiquiátrico. "Peço a Deus pra que abra logo essa vaga, porque meu marido também tem problema mental e ficou lá em Beberibe, onde a gente mora. Quando consigo a internação aqui, meu filho fica sozinho e volto pra lá, pra cuidar do meu marido e dos meus netos", relata Irene, assumindo, entre risos tímidos, que não sobra tempo algum para cuidar de si nem da própria mente. "Tenho problema de nervo, sou doente também. Quando ele surta, às vezes não tenho nem condições de acompanhar, mas preciso vir, porque a mãe sou eu".

Situação semelhante é vivenciada pela cuidadora Valquíria Santos, 42, que alugou uma casa próxima ao hospital, em Messejana, para facilitar as internações do filho de 23 anos: já foram cinco em menos de dois anos.

"Na primeira, ele passou quatro meses no hospital. Mal saiu, voltou. A gente sempre fica na observação uns cinco, sete dias, esperando vaga. Mas não tenho do que reclamar, não", conforma-se.

O perfil de internação do hospital, geralmente de longa permanência, dificulta a rotatividade dos leitos e, "apesar de não ser o principal fator", também contribui para os impactos da insuficiência, como reconhece o diretor técnico da unidade. O tempo médio que um paciente permaneceu no HSM em outubro deste ano foi de 25 dias, em conformidade com a meta da Sesa, que é de 26 dias. Mas tempos médios maiores foram verificados em janeiro (29 dias), março (35 dias, maior período do ano) e junho (34 dias).

"O transtorno psiquiátrico requer tratamento mais longo, a medicação demora para fazer efeito. Um antidepressivo demora quatro semanas; um antipsicótico, até seis ou oito semanas. Além disso, temos, hoje, pelo menos dez pessoas que estão de alta, mas permanecem há mais de 100 dias no hospital porque a família não vem buscar ou vivem em situação de rua. As questões sociais e econômicas influenciam na superlotação", aponta Davi Queiroz.

Ampliação

Conforme a Lei Estadual 12.151/93, são proibidas, no território cearense, a construção e a ampliação de hospitais psiquiátricos, públicos ou privados, e a contratação e financiamento estatal de novos leitos nesse perfil. Por isso, o psiquiatra do HSM sugere a criação de leitos psiquiátricos em hospitais gerais, "para funcionarem como retaguarda", e o fortalecimento da rede de atenção primária à saúde mental como principais ferramentas para solucionar as deficiências do Hospital de Saúde Mental de Messejana.

"O hospital deve ser uma parte da rede de atenção psicossocial, e não a rede toda. Atenção psiquiátrica é uma demanda que sempre existiu e vai sempre existir, mas quando não é contida por uma rede suficientemente boa, ela acaba indo para o hospital. Se eu não trato diabetes e hipertensão, por exemplo, loto o Hospital do Coração. É fundamental atentarmos a isso", alerta Davi Queiroz.

Na quinta-feira (28), o titular da Sesa, Dr. Cabeto, visitou todos os setores do HSM e propôs mudanças estruturais na unidade, além da aquisição de novos equipamentos. Segundo o secretário, deve ser feito um "plano diretor com as prioridades mais urgentes", a serem sanadas em 2020. As informações são da assessoria de comunicação do hospital.