Jovens para o ensino superior?

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Será que a maturidade psicológica acompanha o crescimento intelectual de quem chega à universidade mais jovem?

Eles ainda são cronologicamente adolescentes, mas já assumem obrigações e responsabilidades que a liberdade de entrar no ensino superior requerem. A cada ano, mais alunos com idade inferior a 17 anos ingressam na universidade. Será que eles estão maduros o suficiente para fazer uma escolha profissional tão precoce, conviver com um universo tão distinto da tutelada escola? E mais ainda, conviver socialmente com jovens em outro nível de amadurecimento emocional?

Guilherme de Sena Brandine, de 16 anos, parece estar seguro do que quer. Ele passou no concurso para o Instituto Militar de Engenharia (IME) e em outros tantos que fez. Só não passou para o que realmente desejava, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e, por isso, vai esperar mais um ano. Esperar é modo de dizer, na realidade ele vai estudar mais um ano, sempre focando, além da paixão por Matemática, seus aspectos mais deficientes. No caso, apenas um discreto desvio em Química.

“Eu era muito desleixado no Ensino Fundamental. No 1º ano, o professor da Matemática me chamou para uma aula no nível das escolas militares e manipulou os números de uma forma tão diferente, tão impactante que me fascinou”, conta.

Mas, se o encanto pela Matemática é grande, o mesmo Guilherme não pode dizer de História. “Gosto das (ciências) exatas e tenho uma baita dificuldade com as humanas. Não gosto de decoreba”, enfatiza.

Perguntado sobre o motivo pelo qual dispensou o IME, a resposta é automática: “Não quero ser atingido por bala perdida e não tem comida de graça”, se referindo à sede no Rio de Janeiro. Passada a brincadeira, conta que optou pelo ITA, entre outras coisas, por ser o ´menos militar´ dos institutos tecnológicos militares. “Também dizem que depois do ITA tem muitas oportunidades para estudar fora do Brasil”, fala.

Sobre a metodologia de estudo, Guilherme conta que começou a se dedicar mais no 3º ano, que estuda muito para suprir suas dificuldades e, ainda, só quando está “com cabeça” para isso. Além do mais, “como é tradição nas escolas militares”, não costuma estudar dia de domingo.

E por falar em ócio, perguntado sobre o que mais gosta de fazer quando não está estudando, ri, sem jeito, e diz: “sou meio criança e tenho uma tara por vídeo game. Minha mãe agora me fez uma ‘maldade’ e me trouxe de uma viagem aos Estados Unidos um PlayStation 3 e um Guitar Hero IV”.

Com três irmãos por parte de pai, com os quais tem pouco contato, Guilherme vive com a mãe, a médica Rita de Cássia Sena, desde os cinco anos. Questionado sobre a separação tão precoce para estudar fora, ele diz: “a minha mãe é a minha melhor amiga e não penso em como vou ficar sem ela, mas como ela fica sem mim. Mas eu preciso da experiência de andar com meus próprios pés”.

Mesmo desejando o sucesso do filho, Rita afirma que, por um ponto de vista, achou bom mais este ano para prepará-lo melhor para a vida. “Imagine que ele nunca foi de ônibus para a escoa. Eu sempre levava e buscava. Agora ele está fazendo isso”, conta.

A médica admite que, com uma vida profissional muito atribulada, nunca teve muito tempo para acompanhar o filho nos estudos. Dessa forma, foi uma surpresa constatar que o garoto já sabia ler aos três anos e onze meses, sem ao menos conhecer o alfabeto, que lhe foi ensinado posteriormente.

“Nunca puxei muito e ele sempre esteve entre os dez melhores da sala. Sempre gostou de números, com a vantagem de que pegava as coisas muito fácil e não faltava às aulas. Sempre buscou aprender o máximo durante as aulas e estudava no recreio. Sabia aproveitar o tempo muito bem e, assim, pulou a 8ª série, chegando mais cedo ao vestibular”, diz.

Rita conta que Guilherme passou em todos os vestibulares nos quais se inscreveu, com exceção do ITA, e que lhe proibiu fazer a matrícula em Engenharia Elétrica, na Universidade Federal do Ceará (UFC), pois “tiraria a chance de um classificável entrar”.

MOMENTO DIFÍCIL
Dúvidas na escolha profissional

Se as dúvidas na escolha de uma profissão já são grandes para quem está na faixa etária usual, podem ser maiores para os mais jovens. Foi o que aconteceu com Antônio dos Santos Rios Neto, de 16 anos, que acaba de se matricular no curso de Ciências Atuariais, na Universidade Federal do Ceará (UFC). Ao mesmo tempo, sua irmã mais velha, de 19 anos, entrou na Faculdade de Medicina da mesma instituição superior, após a terceira tentativa.

Ambas as vitórias são motivo de um misto de orgulho, sensação do dever cumprido e emoção que leva a mãe, a professora desempregada Maria José Gomes Rios, às lágrimas.

Com especial afinidade em Matemática e História, Antônio Neto, como é conhecido na família, parece seguro, embora as dúvidas tenham sido muitas na fase de escolha, dirimidas com o apoio do pai, que é bancário, também estudioso, e que o fez desistir da idéia fixa de fazer Comunicação Social.

“Quando eu li mais sobre a profissão, percebi que tinha muito a ver comigo, tanto que só fiz vestibular para esse curso”, explica o rapaz. Propenso a decidir em que vai trabalhar ao longo do curso, ele já demonstra grande interesse por áreas como previdência e seguros.

Antônio Filho admite que os pais foram muito exigentes, mas afirma que só tem a agradecer por isso.

Caseiro ao extremo, nas horas em que não se dedica aos estudos, o jovem gosta mesmo é de música, para ouvir e tocar, violão e bateria.

Durante o período de preparação para o vestibular, o hobby ficava para o fim de semana. De segunda a sexta, a rotina era rígida. Estudava das 6h30 às 11h30, ia para a aula às 12 e, de volta em casa, estudava das 21h30 às 23 horas.

Dona Maria José diz que a aprovação dos dois filhos mais velhos foi o momento mais feliz depois do nascimento deles e orgulha-se ao contar que os três filhos pertenceram a turmas especiais no colégio. “O sofrimento quando se acompanha um filho é maior do que com a gente. Por isso sofri muito quando minha filha fracassou nas duas primeiras tentativas para Medicina. Eu sou assim: dou tudo, mas também cobro muito”, admite.

Ela não demonstra qualquer preocupação em relação à pouca idade do filho. “Com certeza está preparado. É muito maduro. Só teve dificuldade na escolha. Mas agora tem certeza e está muito feliz”, afirma.

Ciências Atuariais

A graduação em Atuária pretende, através de uma base teórica aliada ao conhecimento de mercado, formar um profissional capaz de exercer atividades de gerenciamento, avaliação e cálculo de riscos nas empresas dos setores de seguros e previdência, em instituições financeiras, nos planos de capitalização e no mercado de capitais. Estruturado a partir das linhas mestras Matemática e Estatística com ênfase em negócios, tem um caráter gerencial, com o objetivo ampliar o campo de atuação profissional.

IMPORTÂNCIA DO EMOCIONAL
É preciso fortalecer a maturidade

Para a psicóloga do Pré-Vestibular do Colégio Ari de Sá Cavalcante, Alexandra Borges, a faixa etária não mudou tanto, mas a população universitária é bem maior do que há algumas décadas, o que gera uma preocupação com o mercado e com a formação continuada, o que leva a se pensar muito cedo no assunto.

Ela destaca que hoje o processo de escolarização começa muito cedo, antecipando a entrada no ritmo de rotina de estudo, que leva a um desenvolvimento intelectual precoce.

Por outro lado, ressalta a necessidade de investir no fortalecimento da maturidade, do autoconhecimento, das questões afetivas, sociais e emocionais, que nem sempre estão desenvolvidas a essa altura.

Pressão, imediatismo e cobrança, na sua opinião, podem atrapalhar um processo de definição de projeto de vida. “As coisa não são definitivas para ninguém a essa altura”, diz.

A psicóloga enfatiza, também, a importância da distinção entre informação / conhecimento / habilidade de fazer várias coisas precocemente como ser bem informado, ter um conhecimento consolidado, pois muitos sabem o que está acontecendo, mas não têm um pensamento crítico a respeito, não conseguem aprofundar. “Às vezes a matéria está em dia, mas ainda não se está preparado para fazer escolhas na vida. É preciso ter responsabilidade para corresponder à liberdade”, explica.

Psicóloga do Ensino Médio do Colégio Farias Brito, Tânia Toscano, lembra que aqueles que têm acesso a um ensino de qualidade ainda têm possibilidade de escolha. Os outros, sem essa possibilidade, acabam ingressando ainda mais cedo no mercado de trabalho, muitas vezes como aprendizes.

Ela destaca, diante inclusive do surgimento de novas profissões e do leque de possibilidades que cada uma enseja, a importância de orientação vocacional adequada a esse momento de escolha.

“A questão da maturidade vem muito do ambiente. Antigamente uma menina de 17 anos era capaz de criar filhos e gerenciar uma casa. Por outro lado, hoje as crianças são ouvidas e começam a fazer escolhas muito cedo”, ressalta.

O psicólogo Paulo Passos, coordenador do Serviço de Orientação do Pré-Univesitário do Colégio 7 de Setembro, explica que o jovem precisa do tempo dele, que nem sempre coincide com o limite de até onde a escola pode ir.

Para ele, em dois casos não há reflexão na escolha profissional. No primeiro, de muita indecisão, se opta pelo mais fácil, conveniente ou da moda para, no futuro, saber se fez a escolha correta. No segundo, a influência da família pesa tanto que não se consegue produzir os próprios questionamentos, considerando que o desenvolvimento emocional não acompanha o intelectual.

Psicólogas do Colégio Antares, Érika Monteiro e Luize Bonaparte, destacam que, mesmo com todo o aparato desde o 1º ano, acontece de o aluno chegar ao 3º com dúvidas e até mesmo de entrar na faculdade e mudar de opinião.

Maristela Crispim
Repórter

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