Jangada que sai para o mar

Legenda: A luta diária iniciada há mais de 130 anos ainda não findou, percorre os ladrilhos, desce pelas vielas e deságua no mar da Praia de Iracema.
Foto: Natinho Rodrigues

As curvas de Fausto e Leon denunciam o que parece óbvio: é ali que se esconde o tal ser mitológico. Das ranhuras de um dragão, emergem marcas que o tempo não levou. Pelo contrário, elas aparecem como se, das escamas da grande serpente alada, surgisse uma mistura de dor, liberdade e gozo. É que a luta diária iniciada há mais de 130 anos ainda não findou, percorre os ladrilhos, desce pelas vielas e deságua no mar da Praia de Iracema, passando por filhos e filhas que, muitas vezes, nem percebem que daquela incessante insistência têm muito suor e sangue dos seus.

Quando Aracati deu vida a Francisco José do Nascimento, Fortaleza já era de Nossa Senhora da Assunção. Embora o manto divino se estendesse por toda a cidade, o mar precisava de alguém que o domasse. E ele veio. Com o nome de tantos, Chico da Matilde gerenciava não só as águas bravias que viriam a formar um Poço, tempos depois. Foi ele que, ao olhar o chão da terra na qual pisava todos os dias, percebeu que ela irradiava luz.

Mas não era só isso que Chico avistava quando o sol quente daqui batia na sua pele. Ele via o preto - não o negro -, o preto mesmo. Naquela época, os pretos nem poderiam pensar em ser, quem dirá ter a ousadia de mudar. A luta, então, passou a ser verbo, e o Ceará, pela primeira vez no Brasil, usava a palavra "abolir" no presente. Fechou-se o porto, deixou-se de embarcar seres humanos e impediu-se que os irmãos de antigamente fossem levados ao sul.

Mas não acabava ali.

Rosineide Sousa, com o sobrenome de vários e várias, ocupa o espaço de incontáveis ladrilhos do Dragão. Não precisa nem avisar da chegada para receber um afago e o convite clássico: "bora beber, bebê?". O riso natural que surge ao ouvir a chamada parece se esticar com a sua presença. É naquele espaço improvisado que o mundo de Rosinha fica circunscrito. Ela trabalha todos os dias, mesmo sem clientes, para conseguir o básico para sua família ali no Poço. A filha, inclusive, como o fruto de uma árvore está ali ao lado, garantindo também o próprio sustento.

Certo dia, o sorriso fez-se lágrima e, com o coração doído, a mulher desaguou. A parceria de tantos anos foi ombro para que os sentimentos pela perda do filho estivessem ali, nus e sinceros. Ele se foi em função da violência, ante a naturalidade da vida, que insiste em surpreender o mais rico, mas massacra o mais pobre.

De luto, ela não teve alternativa a não ser trabalhar. Vestiu o preto de sempre, naquele dia especial, e saiu de casa, pisando no chão de estrelas com dificuldades. A muleta pela qual se sustenta, já deteriorada, carregava algo a mais. Eram fardo e pesar por ter que sobreviver.

Rosinha talvez nem imagine como ela lembra o Chico de outrora. Nas lutas de hoje, sorte do preto que tem como exigir o fim do preconceito racial. Sorte do preto que não é engolido todo dia pela força do sistema de classes e cores que insiste em esmagá-lo, mostrando também que ele deveria ser menos.

Ela e ele e tantos e vários são muito mais do que isso. Desconhecidos ou não seguem escrevendo suas histórias ainda que isso continue sendo uma ousadia. Chico e Rosinha são como parentes distantes. Há pouco, descobriu-se que ele descansa no São João Batista, a dois quilômetros do equipamento cultural que resolveu homenageá-lo. A jangada na qual ele velejava, chamada de Liberdade, porém, sai do Poço da Draga todos os dias, sem destino, numa infinita tentativa de fazer valer o seu próprio nome.

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