Habitantes das próprias origens

Legenda: A identidade sertaneja sobrevive em Fortaleza, ainda que se transformem com a dureza da urbe
Foto: Foto: Kid Júnior

Tomar banho em olho-d’água, subir em árvore, brincar com ossos de boi que, “encantados” pela força da imaginação, tornavam-se bonecos nas pequenas mãos sertanejas que os manejavam para protagonizar histórias, correr no meio das baixas (terreno de plantação) sentindo as brisas... Da infância, além dos sabores, havia também a lembrança dos afazeres. Colher algodão, cozinhar no fogão a lenha, “barrer” o terreiro, cuidar dos irmãos mais novos, alimentar os bichos pequenos... 

Crescer. Casar. Mudar de cidade. Deixar o sertão para trás. Ficaria ele distante? Há quem pense que sim. Em Fortaleza, os migrantes intermunicipais, cuja rota predominante, em décadas passadas, fazia da Capital o núcleo atrativo, testemunham, na roda da história, que não. 

O sertão de dentro não arrefece, nem tampouco dá tréguas, ainda que as percepções se transformem com a rigidez do urbano. A identidade sobrevive. É talvez por isso e, por meio disso, que o interior segue perseverando de geração em geração na terra do asfalto, do trânsito intenso e das árvores poucas. O interior sustenta-se personificado nos hábitos de Franciscos, Josés, Marias, Antônios, Martas, Ritas, Josefas... residentes de uma capital-metrópole e habitantes das próprias origens. 

Das brenhas de terras continuamente padecentes de água à urbe erguida sob lógicas de cidade-concreto. Prédio, avenida, barulho, carro! Água encanada. Energia. Não há que se rivalizar. O jeito, pra quem vinha do interior, em tempos de ontem, era aceitar o novo. Tentar acostumar-se faz a cidade assemelhar-se à terra natal. Farturas e faltas evidenciando abismos e encontros de mundos. Interior(es) e Capital. 

Na década de 1970, quando Fransquinha chegou a Fortaleza – formiguinha no exército de migrantes – trouxe consigo, além das expectativas de moça matuta anônima, um sertão por dentro, revelado inclusive nas marcas da oralidade. “Riba”, “rai”, “rem”. Dizia invertendo “c” e “v” por “r”. Linguagem e certezas próprias. 

Na casa de Fransquinha tinha pote com água coada em pano, peneira de palha para catar o feijão. Os modernos eletrodomésticos “vestiam” crochê. As panelas, “atrepadas” em baterias de aço, tinham de ser areadas uma vez a cada três dias. A foto de busto do casal, pendurada na sala, firmava devotamente na Capital a tradição do campo. Os hábitos incluiam sentar em cadeira de balanço na calçada e rezar o terço em família. 

Dos costumes, um, em especial, denunciava o drama sertanejo da qual não se libertara, nem mesmo na velhice, após décadas de vida na cidade grande. Aparar água do céu em baldes e bacias. Bastava chover, não importava se pouco ou muito, para que Fransquinha dispusesse os apetrechos pela casa erguida em bairro periférico. Água encanada nunca faltou na zona urbana. Mas, talvez a força do inconsciente a impedia de livrar-se do medo da estiagem. Sentimento inexplicável e absolutamente compreensível. 

Fransquinha era minha avó. E eu, nativa de Fortaleza, conheci o sertão tantas vezes sem o percorrer diretamente. Penso eu: o que seria dessa cidade-concreto-praia-asfalto não fossem as tantas outras cidades que a integram? Do pouco que sei do interior do Ceará, conheço muito pelas melhores memórias e sentimentos de quem veio dele. 

Entendo a cultura de meu povo como minha e também, por isso, a imagem do interior migrante me resigna. O sertão que carrego é aquele que dona Fransquinha me fez sentir. Tantas vezes. Fortaleza é um universo de pessoas com suas próprias cidades por dentro. Não fosse isso, a gente amargava a mesmice de ser metrópole, sem gosto, sem rosto, sem costumes e sem medo que água não caia do céu. 
 

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