Frota de carros cresce e falta de estacionamento é gargalo na Capital

Queixas perpassam bairros como Montese, Centro, além de vias importantes como Beira Mar e Bezerra de Menezes. Prefeitura aposta

Legenda: A frota da Capital cresceu 20% nos últimos cinco anos. Política de mobilidade não privilegia o transporte individual
Foto: FOTO: JOSÉ LEOMAR

Os anos passam e o redesenho urbano segue promovendo mudanças na estrutura viária de Fortaleza. Mas embora as recentes políticas de mobilidade urbana tenham priorizado o uso do transporte público coletivo e o não motorizado, a presença dos carros nas ruas permanece massiva, resultando em uma carência: locais para estacionar.

Como solucionar a demanda por espaços numa cidade estruturalmente deficiente, mas que, por outro lado, vê seu número de veículos aumentar dia após dia? Nos últimos cinco anos, por exemplo, a frota da Capital cresceu aproximadamente 20%, ultrapassando 1 milhão de unidades até agosto de 2019, segundo dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran-CE).

O resultado dessa equação é percebido nas ruas, com queixas que perpassam bairros como Centro, Parangaba, Montese, Varjota, além de grandes avenidas como Beira Mar, Bezerra de Menezes, entre outras. "Eu chego a dar dez voltas aqui para achar uma vaga e não consigo. Aqui no Montese, a briga é feia. O fluxo de carros aumentou muito, e Fortaleza não acompanhou. As avenidas são muito precárias", diz o eletricista Juvenildo da Cunha, 42.

A reclamação se iguala a da corretora Francisca Alexandra Alves, 54, alegando ultrapassar os 15 minutos de busca, isso quando não desiste de procurar. Para a designer de interiores Samara Alves, a alternativa na região é optar por estacionamentos privados, ainda que os gastos com a locomoção acabem bem maiores no fim do dia. "Quando não tem estacionamento, tem espaço na calçada, mas fica ruim para os pedestres", pontua a designer.

No que compete ao poder público municipal, diversas foram as iniciativas testadas nos últimos anos, na tentativa de minimizar o problema. O Plano de Ações Imediatas de Transporte e Trânsito (Paitt), lançado em 2013, teve como premissa aprimorar a operação do Sistema de Zona Azul, reordenando os estacionamentos irregulares e o utilizando soluções tecnológicas para um uso mais racional das vagas até então existentes, entre elas, os parquímetros instalados em 2014, equipamentos descontinuados por apresentar vulnerabilidades. Tecnologias via SMS e por Sensor também chegaram a ser implantadas em fase de teste em áreas específicas da cidade, como nas avenidas Beira Mar e Monsenhor Tabosa, respectivamente.

Construção

Sancionada em 22 de outubro de 2015, a Lei 10.408, mais conhecida como Lei dos Estacionamentos, autorizava a exploração de áreas públicas para a construção de estacionamentos na cidade, criando espaços subterrâneos no subsolo de bens públicos ou de logradouros públicos como praças e avenidas, assim como a construção de edifícios-garagem. O objetivo anunciado, na época, era expandir a oferta de vagas, melhorando a mobilidade nas vias municipais. A estratégia, contudo, não foi colocada em prática.

A aposta atual é a modernização do sistema de Zona Azul através da compra do Cartão Azul Digital (CAD) por meio de seis aplicativos, assim como a expansão das vagas, chegando, atualmente, a 6.100 unidades. Para a Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC), trata-se de um modelo que vem para suprir a defasagem histórica de estacionamentos, garantindo a rotatividade em áreas bastante adensadas de Fortaleza.

O modelo é a opção utilizada pelo serventuário da Justiça José Rocha, 59, quando não deixa o carro nos equipamentos privados. Ele contesta, no entanto, a oferta demasiada em alguns locais e a ausência em outros. "Trabalho no Centro há 43 anos e gasto pouco mais de R$ 100 por mês. Fora daqui, eu só uso o aplicativo, mas às vezes demora para a gente encontrar um Zona Azul e aumentou o número de locais em que você tem que, obrigatoriamente, usar o Zona Azul, o que acho um desrespeito. Existem ruas que não são movimentadas, mas ficam cheias de restrição por causa do sistema", avalia.

Na Varjota, bairro com elevada concentração de prédios comerciais, bares e restaurantes, a carência de espaços para deixar o carro tem afugentado parte dos frequentadores, segundo aponta Regina Freitas, funcionária de um dos estabelecimentos. "Já tivemos clientes antigos que deixaram de vir porque não têm como ficar muito tempo no Zona Azul. E tem gente que não vai querer deixar o carro muito longe, na Frei Mansueto, por exemplo, com risco de ser assaltado vindo pra cá", afirma Regina.

Para o professor do Departamento de Transportes da Universidade Federal do Ceará (UFC), Mário Azevedo, não há como se criar novos espaços para estacionamentos na cidade, devendo a Prefeitura manter os incentivos que permitam aos condutores deixarem os veículos em casa. Contudo, a rotatividade, a partir do Sistema de Zona Azul, é avaliada por ele como ideal, especialmente para os casos de paradas rápidas.

"Quando você usa o carro para ir trabalhar ou estudar é o que a gente chama de viagem pendular. Você ocupa a rua na hora de pico para ir, ocupa no outro horário de pico para voltar, e precisa de uma espaço para ficar parado o dia inteiro. Se fosse de ônibus, táxi, ou outros meios, não ocuparia a via e nem vaga de estacionamento", diz.

Construir ou não construir novos espaços, ainda conforme o especialista, são decisões que devem estar alinhadas com o Plano Diretor municipal e a Lei de Uso e Ocupação do Solo, que indicam como a cidade deve ser utilizada. Para Azevedo, no entanto, o automóvel não deve ser prioridade. "Se privilegiarem sempre o automóvel vai acabar numa confusão como São Paulo e em outro lugares do mundo. Essas tomadas de decisões podem se basear numa mudança de cultura", aponta.

Sobre o que prevê a política de mobilidade urbana para os estacionamentos de Fortaleza, a reportagem demandou a Secretaria de Conservação e Serviços Públicos (SCSP), mas até o fechamento desta edição, não obteve resposta.

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Redação 30 de Setembro de 2020