Francisca Clotilde: transgressão através da palavra

Escrito por Redação,

Metro
No começo do século XIX, a mulher era educada, basicamente, para ser mãe e cuidar da casa. No entanto, é importante lembrar que algumas tiveram coragem de reverter a situação.

A escritora e primeira professora da Escola Normal de Fortaleza, Francisca Clotilde, que fundou em 1906, a revista “A Estrella”, com circulação em Aracati e Baturité, é um exemplo dessas mulheres. “A transgressão de Francisca Clotilde não era sentida tanto nos temas abordados, mas pelo ato de escrever, ocupando um lugar reservado para homens naquela época”, assinala a jornalista Luciana Andrade, mestranda em História Social na Universidade Federal do Ceará (UFC). O interesse pela imprensa feminina cearense foi o caminho mais curto para chegar até Francisca Clotilde, em 1902, que ousou escrever o romance “A Divorciada”, conta. O “encontro” aconteceu no setor de obras raras da Biblioteca Pública Menezes Pimentel: “Foi então que resolvi estudar a primeira mulher a se tornar professora da Escola Normal”, lembra.

A primeira parte do estudo foi materializado na monografia “Das Lutas do Cotidiano Agridoce - Perseveranças e Ousadia na Escrita Feminina de Francisca Clotilde em A Estrella (1906-1921). Agora, no mestrado, a jornalista pretende continuar seu estudo, mudando o foco para os textos do jornal “O Libertador”. Francisca Clotilde Barbosa Lima nasceu em Tauá, na época, o município se chamava São João dos Inhamuns, em 19 de outubro de 1862, falecendo em Aracati, em oito de dezembro de 1935. Estudou em Baturité e depois veio para Fortaleza onde aos 20 anos começa a ensinar na Escola Normal.

Aos poucos, a história dessa mulher, cuja marca principal de sua vida foi a transgressão, vai sendo recuperada. “Era uma escritora engajada com a abolição e a República”, pontua Luciana Andrade, informando que neste ano completa o centenário do lançamento de “A Estrella”, revista que circulou em Aracati e Baturité no período de 1906 a 1921. A publicação congregava poetas de todas as regiões do Brasil, além de trazer contos e traduções feitas por Francisca Clotilde. Num período em que o casamento durava até à morte, Francisca Clotilde chegou a ser casada mais de duas vezes e ter filhos de dois homens diferentes, desafiando a sociedade conservadora de sua época. Luciana Andrade disse que quando começou a ler e pesquisar sobre a vida dessa cearense logo se envolveu com o espírito libertário de Francisca Clotilde. “Fiquei fascinada por sua história”, fala com empolgação.