Finados: homenagens a parentes falecidos são adaptadas na pandemia

Tradições realizadas em cemitérios foram trazidas para o interior das casas, e viagens ao Interior foram antecipadas a fim de manter vivas as memórias mesmo em tempos de crise

Escrito por Barbara Câmara, barbara.camara@svm.com.br

Metro
Legenda: Os cemitérios estão abertos apenas para visitação, sem eventos ou missas
Foto: Camila Lima

Seria o 17º ano de uma tradição dedicada e carregada de simbolismos, não fosse pela pandemia. Em 2020, excepcionalmente, a aposentada Maria Tereza Caracas não fará a visita ao túmulo de seu pai no Cemitério Parque da Paz, em Fortaleza. Assim como tantas outras famílias, a dela também precisou adaptar as homenagens no Dia de Finados às condições de distanciamento que se fazem necessárias diante do coronavírus. 

“A gente sempre ia um dia antes. Nós passávamos em dois cemitérios, um em que está o meu pai e outro em que está o meu tio. Íamos aproveitando a paz, o silêncio. No Dia de Finados mesmo, é muito complicado de fazer uma homenagem, tem muita gente, muitos carros, então eu acho que se perde esse momento de silêncio”, recorda. 

As visitas costumavam ser acompanhadas da presença de sua mãe e outros sete irmãos. Neste ano, porém, a prece no cemitério será substituída por uma homenagem feita no sítio da família, na cidade de Guaramiranga, onde seu pai, o agricultor Flávio Caracas, passou a maior parte da vida.  

“Eu estou fazendo uma reforma em uma área do sítio, que foi construído em 1955. Eu revitalizei o local onde estavam plantadas flores, e fiz uma área adjacente para ser inaugurada agora em novembro, que também é o mês do aniversário dele”, conta.  

Legenda: Flávio Caracas faleceu em 2003, aos 74 anos de idade.
Foto: Arquivo pessoal

A memória do patriarca permanece viva, também, através de um mini-museu construído dentro do mesmo sítio. O local, que carrega a aura de um templo, abriga peças antigas que eram colecionadas por ele: máquina de escrever, livros, revistas, adornos, vestimentas e imagens de São Francisco, ao qual Flávio era devoto. O agricultor faleceu em 2003, aos 74 anos de idade. 

Para Tereza, a imagem do pai permanece clara, como um homem pacífico, que se dedicava à natureza, à cultura, e à sustentabilidade – ele mantinha o costume de reciclar materiais, quando a prática ainda era pouco conhecida. A filha garante que essas características permanecem como lições de vida. 

“Dizem que a saudade é aquilo que ficou (da pessoa que se foi) em você, então o que ficou em mim foram as conversas, os ensinamentos. Disso, eu tenho saudade. Muita. Mas um dia a gente se encontra”, acredita. 

‘Transformar a dor’ 

A saudade também persiste na família da contadora Élvia Onnete Saraiva, 34. Por isso, o Dia de Finados marca sua viagem anual ao município de Itapiúna, a 128 quilômetros de Fortaleza, onde ela e seus pais visitam dois distritos para homenagear parentes que faleceram, e jazem em cemitérios distintos. Neste ano, a ida foi adiantada em dois dias a fim de evitar as aglomerações já esperadas para 2 de novembro. 

“Eu costumo ir pelo menos no Dia de Finados, é tradição. Mesmo na vez que meu pai esteve doente e não pôde ir, eu fui sozinha, acendi a vela e voltei pra Fortaleza. Foi para cumprir a tradição. Agora vou tentar ir nos dias anteriores. Até porque tem cemitérios que nem estão recebendo visitação ainda. A gente perdeu parentes pra Covid-19, e tentamos visitar, mas o cemitério não permitiu. Minha mãe já não vai nesse ano, então vou só com meu pai pra visitar com antecedência”, revela. 

Nas vezes passadas, uma vela era acesa para os parentes, e uma coroa de flores era levada para um jazigo da família. Eram ditas as preces, e, com elas, os nomes de cada homenageado. 

“A gente relembra tudo, os momentos. Mas sempre tentamos pensar em algo positivo da pessoa que faleceu, o quão especial foi tê-la nas nossas vidas. A gente transforma a dor, ressignifica”, diz Élvia. 

Para ela, a saudade ressoa mais forte em quatro nomes: “vô Zé e vó Elvira”, por parte de mãe, e “vó Onnete e vô João” por parte de pai. O sentimento se renova durante a viagem, uma vez que a estadia é na casa que pertenceu aos avós maternos. “Por mais que eles não estejam mais lá, eu digo que é a ‘casa do vô’. A lembrança deles é bem forte. Eu costumo dizer que não tenho inveja de nada, só de quem tem avô e avó”, admite. 

Programação dos cemitérios 

Para os cemitérios particulares do Ceará, a programação tradicional de missas e homenagens ao Dia dos Finados neste ano será online, de acordo com informações do Sindicato das Empresas Funerárias do Estado do Ceará (Sefec). Os espaços estarão abertos apenas para visitação. 

“Cada empresa está preparando eventos como live de cantor católico, terço da misericórdia, filmes e tudo para estimular a permanência em casa”, afirma Mayra Grisolia, presidente do Sindicato. 

Ela explica que para quem optar pela visita presencial, “estaremos lá para a organização dentro dos protocolos de saúde, evitando aglomeração e disponibilizando máscaras”. A programação, contudo, é para incentivar a permanência em casa, tendo em vista que a “maioria dos visitantes são idosos do grupo de risco da Covid-19”. 

Já as cerimônias da Igreja Católica serão realizadas nas paróquias. As celebrações, que tradicionalmente acontecem nos cemitérios, foram transferidas para as comunidades católicas devido à pandemia. A mudança vale para as Igrejas ligadas à Arquidiocese de Fortaleza. Pensando em alcançar também os fiéis que ficaram em casa, algumas unidades também contam com a transmissão virtual das missas presenciais.