Em meio a protestos, novo reitor da UFC minimiza críticas

Cândido Albuquerque afirmou que a oposição é pequena e garante que ajudará parcela insatisfeita em busca de união. Novo reitor não descarta a aprovação do Future-se, projeto já rejeitado na gestão de Henry Campos

Legenda: Estudantes e professores participam de ato na Reitoria da UFC contra a escolha do novo reitor Cândido Albuquerque
Foto: FOTO: JL ROSA

Após ser nomeado pelo presidente Jair Bolsonaro como o novo reitor da Universidade Federal do Ceará (UFC) - desconsiderando uma consulta acadêmica que o colocava em 3º lugar - o advogado e professor Cândido Albuquerque minimizou as críticas recebidas e disse, em entrevista ao Sistema Verdes Mares, que a oposição à sua gestão é pequena. A escolha presidencial gerou manifestação de estudantes na noite de ontem.

Destacando não ter sido escolhido para ser líder político, o novo reitor disse que ajudará parcela da oposição em busca de união. "É um número muito pequeno de pessoas contra. A Universidade é plural. É claro que há uma insatisfação, não existe unanimidade", afirmou. Cândido criticou, no entanto, o atual processo de consulta pública, afirmando ter como prioridade de sua gestão a mudança do pleito. "Essa eleição direta, ao invés de servir para buscar um gestor para a universidade, você trava uma batalha ideológica e gera disputa política. Nós precisamos rever esse processo. Desde o começo da minha campanha eu me posiciono contra".

Segundo o professor, é preciso diálogo na busca por alternativas ao cenário de cortes e bloqueios de verbas na educação em todo o País. Nesse contexto, ele defende a adoção de medidas internas e o investimento em pesquisas. Cândido promete, ainda, um olhar para a inovação nos próximos quatro anos. "A universidade, como é hoje, não está focada em empreendedorismo e inovação. Os alunos atualmente estão se preparando para profissões que daqui a dez anos nem vão existir mais. Temos que focar em inovação e internacionalização", ressaltou.

O novo reitor também não descarta a adesão ao programa Future-se, proposta do Ministério da Educação (MEC) que prevê um fundo de recursos privados para o financiamento das universidades federais do País, mas rejeitada pelo Conselho Universitário (Consuni) da UFC ainda na gestão de Henry Campos, no último dia 14 de agosto. "Não pode ser contra ou a favor de um projeto que não está finalizado. Nós precisamos ajudar a construir esse projeto", disse.

Consulta

Na consulta pública, o mais votado para ocupar o cargo foi o então vice-reitor da UFC, Custódio Luís Silva de Almeida, com 7.772 votos. Cândido ficou em terceiro e último lugar com 610 votos. O segundo colocado, Antônio Gomes de Souza Filho, chegou a receber 3.499 votos. Cândido também não foi o mais votado na elaboração da lista tríplice. Ele ficou em segundo lugar na definição feita pelo Conselho Universitário (Consuni), e enviada a Bolsonaro para a decisão.

Para o presidente do Sindicato dos Docentes das Universidades Federais do Ceará (Adufc-Sindicato), Bruno Rocha, a decisão mostra um ataque à autonomia universitária, que é constitucional, além de um retrocesso. A entidade, segundo diz, se posiciona em defesa da democracia interna e da decisão da comunidade universitária.

"A gente tem que mobilizar a categoria: técnicos, professores e estudantes e deixar claro o nosso posicionamento. Não dá para aceitar que o menos votado pode ser considerado eleito para os próximos quatro anos na universidade".

A diretora de Universidades Públicas da UNE, Natália Aguiar, avalia a escolha do reitor como a continuação do projeto ideológico de Bolsonaro, o que inclui o programa Future-se. "O Cândido assume um projeto de educação antidemocrático, de gestão antidemocrática. A gente acha que para o alinhamento que ele tem com o Bolsonaro, é um risco para a universidade pública, para o investimento em ensino, pesquisa e extensão que coloca tudo isso em risco. A gente acredita que o Cândido não representa o projeto da comunidade acadêmica e, sim, do Bolsonaro".

A consequência da escolha de Cândido para reitor da UFC foi sentida nas ruas do Benfica, próximo à reitoria da Instituição, no início da noite de ontem. A ocupação de estudantes teve início na Avenida da Universidade, mas logo o cruzamento com a Avenida 13 de Maio foi bloqueado, permanecendo por cerca de 1 hora. No local, até então, não era possível localizar agentes da Autarquia Municipal de Trânsito e Cidadania (AMC). O tráfego ficou lento.

Por volta das 19h30, uma das faixas da 13 de maio foi liberada e o fluxo de veículos no sentido da Avenida Jovita Feitosa foi restabelecido. Uma possível ocupação da Reitoria da UFC pode ser decidida em assembleia a ser realizada amanhã (22).

O ato chegou ao fim na Praça da Gentilândia, em solidariedade aos estudantes do Instituto Federal do Ceará (IFCE), que tiveram cancelada a I Semana de Direitos Humanos pela Reitoria. Assim, a abertura do evento foi realocada para o espaço público. "Nós organizamos uma semana que foi covardemente censurada numa ligação do ministro Abraham Weintraub para a administração superior dessa instituição. A democracia não será ameaçada em nenhum milímetro da nossa sociedade", disse Rodrigo Santaela, integrante do Sindicato dos Servidores do IFCE.

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Redação 20 de Setembro de 2020