Dia da Mulher: profissionais de saúde desempenham múltiplas funções em meio à pandemia

Para pesquisadora da UFC, o dia da mulher representa uma data de luta e de reconhecimento do papel da mulher na sociedade, em áreas como ciência, educação e saúde

A enfermeira Sandra Valesca se desdobra em quatro funções dentro da profissão, durante a pandemia, e as concilia com a vida familiar
Legenda: A enfermeira Sandra Valesca se desdobra em quatro funções dentro da profissão, durante a pandemia, e as concilia com a vida familiar
Foto: Arquivo pessoal

A linha de frente no combate à pandemia também tem rosto de mulher. No enfrentamento contra a Covid-19, são muitas as figuras femininas que atuam para cuidar de pacientes e salvar vidas. De enfermeiras e médicas das unidades de saúde, são diversas as áreas de atuação. Nesse cenário, elas precisam enfrentar uma dupla ou até tripla jornada, conciliando as demandas da maternidade, do trabalho profissional e de afazeres domésticos.

“Antes de tudo, nós somos guerreiras. A gente deixa nosso lar para salvar vidas e precisamos voltar para casa com o pensamento de tudo que perdemos ou ganhamos na UPA, seja um paciente que veio a óbito ou alguém que conseguimos salvar”, aponta a enfermeira da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Jangurussu, Samara Cynthia, 33 anos, que atua na linha de frente do combate da pandemia. 

Para ela, a luta contra a Covid-19 é “de igual para igual”, não havendo diferença entre os profissionais homens e mulheres. “Todos nessa luta são de essencial importância. A gente só tem a somar e acabar com a pandemia”, reforça.

A enfermeira Samara atua na linha de frente contra a Covid-19 da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Jangurussu
Legenda: A enfermeira Samara atua na linha de frente contra a Covid-19 da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Jangurussu
Foto: Arquivo pessoal

Além de seu trabalho na UPA, também realiza atendimento na Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) neonatal do Hospital Dr. César Cals. “A jornada é cansativa e nesse tempo da pandemia, tudo se complicou”, comenta. Para conseguir conciliar o trabalho profissional e as demandas como mãe, Samara percebe que o apoio familiar é essencial para lidar com o ritmo frenético vivenciado desde março do ano passado. 

A enfermeira Samara Cynthia, 33 anos, recebe apoio familiar para continuar na linha de frente contra a covid-19.
Legenda: A enfermeira Samara Cynthia, 33 anos, recebe apoio familiar para continuar na linha de frente contra a covid-19.
Foto: Arquivo pessoal

“A base familiar é o que me faz aguentar o que estamos passando. É muito complicado, a gente sabe que não está fácil. Então, penso que eu tenho uma filha para quem eu luto, para quem tento voltar”, compartilha Samara, mãe da pequena Ana Louise, de apenas 5 anos. 

De tudo aquilo que a pandemia tem tirado no cotidiano, a possibilidade de viver momentos com sua filha tem um grande peso para a enfermeira. Como forma de compensar a saudade de Ana Louise, a enfermeira se esforça para estar presente mesmo após os longos e cansativos plantões, estando presente nas aulas online, ajudando a ensinar, fazer tarefas e até a dar comida. “Não posso achar que vai dar 100% certo, mas o importante é tentar”, conclui. 

Sobrecarga na pandemia

Se a rotina já era intensa para a enfermeira e mestre em cuidados clínicos pela Universidade Estadual do Ceará, Sandra Valesca Fava, 50 anos, após a pandemia o ritmo se tornou ainda maior. Hoje, precisa se dividir em pelo menos quatro funções, atuando como: enfermeira assistencial na UTI Neonatal do Hospital Infantil Albert Sabin, fiscal do Conselho Regional de Enfermagem do Ceará, coordenadora da Câmara Técnica de Fiscalização do Conselho Federal de Enfermagem e coordenadora das pós-graduações em Enfermagem da Faculdade IDE, sede Fortaleza.

Além de tudo isso, quando volta para casa, faz questão de estar presente e dar atenção para suas três filhas, Sarah, Rachel e Ruth; seu marido, Fernando; e também dois cachorrinhos. Apesar das filhas já serem maiores de idade, Sandra comenta que há uma cobrança interna para estar presente ao chegar em casa.

Sandra aponta dificuldade em conciliar
Legenda: Sandra aponta dificuldade em conciliar "a questão de tempo e qualidade de presença, principalmente em casa"
Foto: Arquivo pessoal
 

“Fico estressada e cansada emocionalmente porque me cobro, embora meu corpo peça descanso para poder dar um tempo de qualidade. É difícil conciliar a questão de tempo e qualidade de presença, principalmente em casa”, aponta. 

Redescoberta profissional

A médica hepatologista Elodi Hippolyto precisou se redescobrir na profissão quando foi convocada para atuar na linha de frente da Covid-19 no Hospital São José, em Fortaleza. “[A pandemia] Está sendo uma vivência enlouquecedora. Difícil, cheia de desafios. Nós já desenvolvíamos muitas funções mesmo antes da covid. Agora eu, por exemplo, não estava habituada a lidar com Terapia Intensiva, atendia hepatite e hoje estou na emergência. Então, de repente eu tive que voltar a estudar. Aí veio o medo de falhar, no começo, mas hoje já foi superado. Precisa ser”, coloca. 

Isolamento

Mãe e dona de casa, Elodi optou por sair da Capital com o marido, também médico, e os dois filhos, para passar uma temporada na casa de veraneio da família, na Região Metropolitana de Fortaleza (RMF), ainda em março de 2020, quando a pandemia iniciou no Ceará. “A gente mudou para que meus filhos não fiquem tão presos. Lá, tem a praia e eles podem andar, ver o mar e espairecer um pouco na questão da saúde mental. Mesmo assim, meu marido pegou a doença e transmitiu para todos nós na primeira onda. Ficamos isolados por um tempo”. 

Em relação à rotina, o dia a dia da médica tem implicado na relação familiar da profissional. “Um ano sem férias, sem descanso, sem lazer. Eu fiquei três meses sem ver minha mãe pessoalmente. Depois de ter covid foi que eu passei a vê-la aos domingos. Agora, com a primeira dose tomada, nós estamos voltando a nos encontrar, com todos os cuidados dobrados. Já o restante da família, tios e primos, eu não os vejo há um ano. Não tivemos natal e nem ano novo”, relata.

A médica Elodi atua na linha de frente do Hospital São José, em Fortaleza
Legenda: A médica Elodi atua na linha de frente do Hospital São José, em Fortaleza
Foto: Arquivo pessoal

A gente convive com o medo: de pegar a doença e de transmitir pra quem a gente ama. Eu e o meu marido estamos vacinados, mas meus filhos não estão. Minha mãe só tomou a primeira dose ainda. Então o medo é um companheiro de cama de todo profissional de saúde”, pontua Elodi. 

A profissional conta que busca fonte de forças para continuar na luta e missão pela vida em meio às turbulências ocasionadas pelo vírus. “Eu acho força na gratidão dos pacientes que se sentem bem cuidados, nas altas que saem muito felizes, na fé e na minha espiritualidade e, sobretudo, na minha família, onde recarrego as energias”, cita.

“Nós, profissionais de saúde, estamos todos exaustos. Não vemos uma luz no fim do túnel. Estamos no início de uma outra onda da doença sem a menor perspectiva de vacinação em massa. Hoje temos colegas entubados, então temos ainda o medo de perder nossos amigos, além dos outros que já se foram”, declara Elodi.

Dia de Resistência 

Na perspectiva da pesquisadora do Núcleo de Estudos e Pesquisa sobre Gênero, Idade e Família (NEGIF) da Universidade Federal do Ceará (UFC), Celecina Veras Sales, a ação de conciliar as demandas do trabalho e da casa estão presentes desde que as mulheres iniciaram a luta para adentrar o mercado profissional. “Isso se falarmos em relação às mulheres brancas, porque as mulheres negras sempre estiveram trabalhando pelo sustento”, ressalta. 

Segundo explica, a relação da mulher com o trabalho possui diferenças a depender do lugar social a que pertence. Apesar dessas distinções relacionadas com a classe e raça, ou seja, com a riqueza e a cor da pele, Celecina aponta que “a jornada dentro de casa é uma marca das mulheres. Essas mulheres que trabalham fora nunca deixaram de trabalhar dentro de casa e de cuidar dos filhos”. Com isso, muitas vezes elas enfrentam sobrecarga das responsabilidades.  

A rede de apoio de vizinhas, tias e avós contribui para reduzir parte das demandas domésticas, assim como a compreensão por parte do marido de que ele tem tanta responsabilidade quanto a mãe de cuidar da criança.

Com a pandemia, a pesquisadora aponta que as dificuldades aumentaram para as mulheres que, além de trabalhar, também precisam estar atentas ao desenvolvimento da criança e acompanhando o aprendizado remoto. “As redes de solidariedade tem sido muito difícil, existe também. É necessário uma rede de apoio a essas pessoas, apoio psicológico, por exemplo”, sugere.

“Redes de solidariedade para mulheres que estão na linha de frente são muito importantes. Não é um dia para a gente dar flores. É um dia de luta, de resistência, de reconhecimento. Da gente reconhecer o papel importante que a mulher tem na sociedade, na saúde, na ciência e educação”, finaliza.  

 

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