Dever social e união marcam trajeto da gestão pública na pandemia

No Estado e na Capital, gestores públicos refletem sobre o legado que vem se moldando desde o início da pandemia até agora. A crise sanitária expôs antigos desafios da rede pública de Saúde, e abriu espaço para ampliar potenciais

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Legenda: O secretário estadual da Saúde, Dr. Cabeto, avalia que o Ceará sairá melhor após a crise sanitária
Foto: José Leomar

É seguro dizer que ninguém passa pela pandemia incólume. Inseguranças e dificuldades tornaram-se lugar-comum entre diferentes grupos sociais nos últimos seis meses, inclusive para aqueles que ocupam posições de liderança. Por algum tempo, gestores públicos no Ceará e em Fortaleza guiavam a população – e a si mesmos – rumo ao desconhecido. Muitas dúvidas permanecem nesse contexto, mas já é possível reconhecer os aprendizados que se moldaram ao longo do caminho, desde março.

“Foi um momento, primeiro, de muita aflição”. Na descrição de Carlos Roberto Martins, o Dr. Cabeto, secretário da Saúde do Ceará, a sensação foi consequência de se deparar com o desconhecido, e os riscos trazidos pelo mesmo. A certeza, segundo ele, era de que lidar com uma pandemia que havia se mostrado catastrófica em países com diferentes condições sociais, incluindo um IDH melhor, seria um desafio.

“Bem no início, quando nós resolvemos nos antecipar e provocar um isolamento social mais duro, dos mais precoces do Brasil – inclusive sem uma recomendação formal do Ministério da Saúde, que demorou a dar esse indicativo aos Estados –, nós sabíamos que estávamos diante de uma situação extremamente crítica. E contando com a parceria de epidemiologistas, de cientistas, de um grupo de trabalho muito coeso, nós firmamos opinião. E tendo a convicção de que você pode ajudar, fica mais forte a sensação de poder enfrentar”, pondera dr. Cabeto.

Para o secretário, a pandemia tornou mais claro o que representa o “dever” dentro da convivência social. O papel de cada um, como parte da sociedade, é notável até no simples fato de usar a máscara, apesar do incômodo; a decisão de não frequentar determinados lugares, de se privar de certos prazeres, faz desenvolver nas pessoas a obrigação com o outro. “Eu acho que isso ainda vai sedimentar, as pessoas vão parar e refletir que vamos ter que construir outro modelo de vida em sociedade”, pondera.

A expectativa, segundo dr. Cabeto, é de que o Ceará saia mais forte após a crise sanitária. “Não foi fácil. As perdas foram grandes, representam um dado importante. Expôs de maneira muito clara vários dos problemas sociais que nós temos. A questão do financiamento do sistema de saúde, a questão da qualidade, da capacidade de resposta, e a questão das diferenças sociais”, pontua. “Apesar disso, acho que o Ceará deu uma resposta muito boa, coesa, estruturada, com bom senso. E contou com a colaboração inequívoca de todos os profissionais de saúde”, destaca o gestor.

Evitar tragédias

A atuação dos profissionais da saúde reforça o que seria a principal lição aprendida durante a pandemia, na opinião da secretária municipal da Saúde de Fortaleza, Joana Maciel: o altruísmo. Ela explica que a necessidade de pensar mais no próximo do que em si mesmo não se restringe à gestão pública, mas integra a própria cidadania.

Legenda: Titular da SMS, Joana Maciel, reforça que o principal aprendizado da pandemia foi o altruísmo
Foto: Thiago Gadelha

“Não podemos esquecer nunca de que, mesmo que a gente já tenha tido a doença, ou tenha risco menor de adoecer, a gente ainda pode transmitir para o outro. Tem que pensar em quem é do grupo de risco e pode adoecer de forma mais grave que a gente. Esse exercício é uma grande reflexão que essa epidemia nos trouxe”, afirma.

Outra grande reflexão, segundo ela, é sobre a eficiência do Sistema Único de Saúde (SUS), muito questionada pela população. “Eu acho que a gente conseguiu provar que ele existe, é forte e é capaz de responder a uma pandemia. Passamos situações muitos difíceis, mas, aqui em Fortaleza, o SUS conseguiu evitar tragédias. Atendeu à população com continuidade, com compromisso, e a gente está passando por isso. Foi uma das maiores lições, acreditar e confiar no SUS”.

Em uma visão mais prática, o uso da tecnologia foi simultaneamente aliado e fonte de aprendizado após a chegada do coronavírus. Joana Maciel detalha que o recurso foi empregado no setor de reclamação, no monitoramento das ações, na comunicação entre as famílias e os pacientes que estavam isolados nos hospitais, e também no momento de tomar decisões, para evitar a aglomerações em reuniões que precisavam da participação de muitas pessoas.

“Já tínhamos treinamento disponíveis, mas como não era estritamente necessário, a gente acabava não usando. Então esse legado da tecnologia em todas as áreas se mostrou bastante proveitoso nesse momento da pandemia. Foi interessante pegar uma ferramenta que já estava à nossa disposição e a gente não explorava na medida que ela podia responder. Na pandemia, a gente conseguiu fazer isso”, frisa a secretária.

Foi também durante esse período que Edson Buhamra, diretor geral do Hospital São José (HSJ), pôde presenciar “um grande sentimento de união”. O médico atua na unidade há 21 anos, sendo os dois últimos como gestor, e relata que, hoje, tem a certeza de estar em um ambiente onde todos se empenham para fazer o melhor – sem exceção.

“Foi um momento onde a gente viu um hospital todo em uníssono. Não houve ninguém que remasse contra. É um hospital que me dá muito orgulho de dirigir, de ser funcionário e saber que meus colegas de unidade participaram dobrando plantão, trabalhando acima da sua carga horária. Temos cerca de 800 funcionários. Esses 800 atuaram como 1.600, porque trabalharam muito mais que a sua carga horária. Então, sei que estamos preparados para o que der e vier”, declara.

Legenda: Edson Buhamra trabalha no Hospital São José há 21 anos, e atualmente é diretor geral da unidade
Foto: Renato Abê

Antes do diagnóstico dos primeiros casos no Ceará, o Hospital São José, conhecido por ser uma unidade especializada para doenças infecciosas, já vinha se preparando para a chegada do vírus, com treinamentos sobre paramentação. O diretor geral ainda se lembra do momento em que o primeiro paciente com Covid-19 deu entrada no HSJ. “Ele já chegou em estado grave. Era muito obeso, tinha quase setenta anos e foi direto pra intubação. Esse paciente infelizmente não sobreviveu. Morreu depois de uma semana”, lamenta.

Desde então, porém, Edson Buhamra considera que a trajetória dos atendimentos no hospital foi “mais positiva do que negativa”. “Naturalmente, as pessoas não imaginam o esforço que está sendo feito de manhã, de tarde, de noite e de madrugada para o hospital funcionar todos os dias, sem deixar faltar uma agulha, sequer. Houve uma mobilização muito grande, uma parceria muito grande. Em nenhum momento o HSJ ficou desamparado”, diz o infectologista.

Comprometimento

O “saldo positivo” também é narrado na perspectiva de Cândido Albuquerque, reitor da Universidade Federal do Ceará (UFC). Ele descreve que embora a pandemia tenha pego a todos de surpresa, nesse período, foi possível perceber “uma capacidade latente” que não era explorada, e, a partir daí, trabalhar para empregar melhor esses recursos.

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Legenda: Reitor da UFC, Cândido Albuquerque, considera que a pandemia permitiu maior inclusão digital
Foto: Thiago Gadelha

"Tivemos que identificar quais eram os nossos problemas diante da pandemia. Ela nos proibiu da atividade presencial, então nós desenvolvemos a maior campanha de inclusão digital. Descobrimos que a grande questão na pandemia era não permitir que a Universidade parasse. Nós mantivemos o calendário, não suspendemos. E manter a comunidade mobilizada foi fundamental”, diz.

O reitor conta que foi realizada uma pesquisa para verificar o nível de conectividade da comunidade universitária. A análise mostrou que cerca de 1% dos estudantes não tinha acesso à uma conexão de qualidade. Com isso, foi providenciada a instalação de roteadores de Wi-fi mais modernos nas residências universitárias; também foram distribuídos mais de mil chips entre os alunos que não tinham condições de adquiri-los.

“Hoje, 100% da nossa comunidade tem conectividade. Usamos a pandemia para resolver um problema que nós tínhamos, que era essa diferença entre a conectividade dos alunos. O que é possível fazer de forma remota, estamos fazendo. A grande lição que ficou é que se você tiver boa vontade, comprometimento, se houver uma ação de coordenação da comunidade, é perfeitamente possível enfrentar e reduzir os prejuízos da pandemia”, avalia o reitor.

Essa coordenação se fez igualmente necessária no processo de fiscalização urbana da Capital. O processo de ordenamento da cidade não escapou dos efeitos da crise sanitária, e a verificação do cumprimento dos decretos vigentes foi – e continua sendo – crucial. O superintendente da Agência de Fiscalização de Fortaleza (Agefis), Júlio Santos, lembra que as novas demandas começaram a se apresentar logo após a confirmação dos primeiros casos de Covid-19 no Ceará.

“Em março, nós percorremos estabelecimentos comerciais, principalmente, para verificar casos de indícios de elevação de preços sem justa causa, coibindo a prática de fracionamento de álcool em gel e a venda de produtos sem rotulagem”, relata. A partir de então, os focos de fiscalização se multiplicaram, incluindo a necessidade de coibir aglomerações e outras formas de descumprimento das medidas de isolamento social.

O superintendente destaca, porém, uma nova função adotada pelos fiscais durante a pandemia: a de cuidar das pessoas por meio da orientação. “O trabalho punitivo continuou, mas o orientativo prevaleceu. Hoje, não realizamos fiscalizações de prevenção à Covid-19 apenas em operações especiais. Agora, esse monitoramento está presente no check-list de todas as fiscalizações. A abordagem aprendida e exercitada exaustivamente desde março foi incorporada ao trabalho padrão de todos que fazem a Agefis. Esse olhar está em todos, desde o porteiro, recepção e trabalho administrativo, até o fiscal que está em campo”, afirma Júlio Santos.

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Redação 20 de Outubro de 2020